Literatura brasileira,

Navegando sobre lacunas

Do porto de Santos ao meio do Atlântico, novela acompanha a tentativa de recompor o passado do pai

26jun2023 - 14h30 | Edição #71

Em uma passagem do novo livro de Alberto Martins, os personagens Raul e Violeta, depois de uma correria pelo centro de Santos, param à beira de um dos sete canais da cidade para tomar fôlego. É o mote para o autor discorrer sobre as águas verdes que circulam desde as obras do engenheiro Saturnino de Brito no começo do século 20. Então a narrativa pega carona em uma tartaruga e parte para o mar aberto, rumo à costa da África. Em busca de águas mais quentes, prenhe de ovos, a tartaruga dá meia-volta e segue na direção oeste até a América, onde ela bem poderia ter visto corpos despejados de um navio formando “montes submarinos compostos por crânios, fêmures, ilíacos, pilhas de esqueletos fazendo um arco entre a África e o continente americano”.

A tartaruga testemunha o emaranhado sutil de ventos oceânicos que se reúnem, se transformam e varrem a costa norte-americana em forma de furacão, para depois perderem força lentamente, descerem até o litoral brasileiro e passarem por Santos, para encontrar o casal de mãos dadas, caminhando de volta ao centro. Páginas mais tarde, a personagem Zoraide, amiga de Raul, diz ao narrador: “Lembro que uma vez encontrei seu pai e uma moça parados na calçada da Washington Luís. Eles estavam voltados para o canal […] e olhavam a aguinha rala lá no fundo como se estivessem admirando um aquário”. 

O fluxo de consciência é recurso poético que encontra seu pé na realidade na lembrança de Zoraide, em meio a testemunhos, notícias, verbetes de dicionário e invenção que contam um episódio da vida de Raul: o trabalho como cenógrafo e iluminador na improvável montagem de Klop, de Vladímir Maiakóvski, rebatizada de A pulga, no Grêmio Recreativo dos Portuários de Santos, e seu envolvimento com Violeta, a filha do diretor da peça.

Narradores 

A novela de Martins tem dois narradores em primeira pessoa. O primeiro, que se confunde com o autor, vai a Santos em busca das memórias do pai por meio de conversas com dois amigos de Raul, matérias de jornal e arquivos com depoimentos de estivadores envolvidos em uma greve no porto. O segundo é o próprio Raul — ou a imagem que o narrador original faz dele — e estamos em 1946, o primeiro ano depois do fim da ditadura de Getúlio Vargas, para acompanhar a transformação do funcionário público em artista e sua decadência subsequente, depois de perder o amor, o trabalho e a perspectiva de vida.

O cenário político acompanha o drama do protagonista, da euforia com a nascente democracia até a repressão que se segue à greve dos estivadores, nascida da recusa em embarcar mercadorias no navio espanhol Cabo de Buena Esperanza, em protesto contra “a onda de fuzilamentos que se verifica na Espanha de Franco”. Não por acaso, entre o material que o narrador recebe de Gastão, amigo de Raul, está A agonia da noite, segundo volume de Subterrâneos da liberdade, de Jorge Amado, escrito na década de 50 e situado nos anos do Estado Novo, ainda que claramente inspirado no movimento dos portuários santistas de 1946.

A repressão que se segue à greve  dos portuários terá impacto na montagem da peça, na vida de Raul e na cidade de Santos, e antevê as trevas de uma sociedade militarizada que viria com o golpe de 1964.

Não há julgamento ou lições de moral, e o leitor é convidado a tomar parte no quebra-cabeças

Violeta: uma novela é o terceiro livro da série A História dos ossos, iniciada em 2005. Tal como nos dois anteriores, A História dos ossos e Lívia e o cemitério africano, de 2013, a prosa refinada e rigorosa de Martins serve de suporte a histórias construídas sobre dúvidas, lacunas, ambiguidades e imprecisões. O pai do narrador se esboça como alguém que, à mesa de um café, é “dono de ideias que ninguém tinha certeza se eram brilhantes ou absurdas”.

Essa precisão ao tratar do impreciso está nas outras obras da série. O trabalho do autor é dar, ou buscar sentido a essa cacofonia, encontrar o ângulo em que essas vozes se tornem mais claras. Em Violeta, Raul trabalha em um mezanino sobre o palco em busca de “forma e cor” para os atores, dez metros abaixo. Mas as vozes chegam a ele “sem casca e sem caroço, como que doentes de bolor”. O personagem procura um lugar entre as vigas, em desequilíbrio, para receber e entender o que acontece abaixo de seus pés: “Percebi que ali, sim, as palavras me atingiam por inteiro”.

Por vezes, as nuances se sobressaem ao foco da trama. Raul começa a pintar retratos e cenas de imaginação para caracterizar melhor os personagens, mas se distrai com as nuvens que vê da claraboia e persegue seus formatos e cores com os pincéis. São justamente essas manchas que atraem a atenção do diretor russo. “Não estávamos em busca da realidade, mas sim de criar novas escalas de valores”, diz ao cenógrafo. Talvez na frase esteja um dos segredos do livro.

Imagens

Na última visita do narrador, Zenaide mostra a ele um retrato feito pelo pai e pergunta de quem se trata, dela ou de Violeta. Sem resposta, já que está diante de uma idosa e jamais viu o rosto de Violeta, ele deixa a casa e chega ao elevador atordoado. “E enquanto o elevador arrancava aos solavancos, e eu me via despencar através da velha porta pantográfica, me ocorreu que o melhor que eu podia fazer era continuar do lado de fora, esperando.” É essa espera que dá sabor à prosa de Martins. Não há julgamentos ou lições de moral, as pistas se juntam aos poucos para compor a história, e o leitor é convidado a tomar parte no quebra-cabeças.

Martins nasceu em Santos, formou-se em Letras pela usp em 1981 e no mesmo ano se iniciou nas artes plásticas com Evandro Carlos Jardim, um dos maiores gravuristas brasileiros. Essa sua faceta está presente nos livros anteriores da série. Em Violeta, o autor se vale de outro recurso visual: contatos fotográficos de imagens colhidas por ele nos anos 90, publicados em dupla e invertidos. Ali aparecem o porto, os estivadores, o mar, as pedras da costa. As fotos sugerem, mais do que o cenário da trama, algo da estrutura da novela: o mesmo objeto observado por dois lados, mesmo que o original seja ele mesmo impreciso.

Quem escreveu esse texto

Wagner G. Barreira

É jornalista, escreveu o romance Demerara (Instante) e a biografia Lampião e Maria Bonita: uma história de amor e balas (Planeta).

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.