Literatura brasileira,

Engenho e graça

Seleta de crônicas abarca cinco décadas da arte de um mestre do humor e do ritmo narrativo

01dez2020 | Edição #40 dez.2020

Escrever crônica de humor não é brincadeira. Os textos despretensiosos e engraçados muitas vezes escondem artimanhas próprias de uma composição em que se chega ao efeito por meio de arte e sutileza. Mas sem ostentação, pois um dos segredos desse tipo de escrita está em criar uma oralidade imediata, transparente, como se transcorresse uma natural conversa entre o cronista e o leitor — aquele que abre o jornal em procura de notícias. Sob tal circunstância, cria-se uma cumplicidade tácita, espécie de pacto, que abre as portas à imaginação. 

Luis Fernando Verissimo é, sem dúvida, um sagaz manipulador de palavras, mestre no gênero em que o riso vem acompanhado de inteligência. Prova disso está no recém-lançado Verissimo antológico, que reúne uma vasta seleção de meio século de crônicas, “ou coisa parecida”. São mais de trezentos textos, cobrindo desde os primeiros escritos do início dos anos 1970 até a atualidade, testemunho de uma trajetória que o posiciona como um dos mais importantes escritores brasileiros das últimas décadas.

Foi um acerto editorial deixar em segundo plano, com poucos textos selecionados, as obras autônomas das crônicas dedicadas aos personagens que tornaram o autor nacionalmente conhecido. Mas, devem aqui ser lembrados por fazerem parte do mesmo universo: as agruras patafísicas do detetive Ed Mort (1979), registradas num estilo que combina o tom policial com surrealismo tupiniquim; as atrocidades morais e retóricas do Analista de Bagé (1981), representante amaneirado do típico machista brasileiro; ou ainda a simplicidade ingênua e ridícula de quem ainda acredita no governo, a Velhinha de Taubaté (1983). 

Essas figuras emblemáticas revelaram a seu tempo, pelo avesso jocoso, a mentalidade perversa que caracterizou o regime militar no país. Não que Verissimo se propusesse a ser um autor político, mas o modo como urde as cenas excêntricas do cotidiano e como apresenta a verve distorcida de seus personagens acabam por deixar a nu os vícios e linguagens de poder. Em poucas palavras: ele aposta na potência corrosiva do humor. 

Isso talvez explique por que renunciou cedo a se tornar um autor “literário”, optando por desbravar uma carreira de escritor profissional, de enfrentamento direto com o público e os temas de circunstância. Sua literatura se fez no calor da hora, digamos. Agora, aos 84 anos, mostra uma trajetória de alta qualidade, que o iguala aos melhores cronistas brasileiros do século passado, como Fernando Sabino, Rubem Braga e Nelson Rodrigues.

Agilidade

E onde está a maestria de Verissimo? Sua principal qualidade aparece na agilidade textual, presente tanto na condução acelerada do narrador como na articulação evolutiva dos diálogos, ou ainda no entrelace de ambas as estratégias. Sob o domínio da concisão, que é inerente a esse tipo de escrita. Sua magia consiste em conduzir o ritmo do texto, conseguindo em simultâneo contar e mostrar a história, ampliando-a em tensão e resolvendo-a com requintes de surpresa. 

Tome-se o caso da “História de verão: o quinto túnel”. Já de início posiciona claramente os personagens, o espaço e o início da ação: “Três homens num compartimento de um trem que atravessa uma região montanhosa. Eles não se conhecem. Estão em silêncio desde que o trem saiu da estação. Um lê um jornal, outro olha pela janela, e outro parece dormir. Quando o trem entra num túnel e tudo fica escuro, ouve-se uma voz que diz: — Estou aqui para matá-lo”. De pronto, o leitor está diante do conflito — alguém que ouve a ameaça de ser morto no quinto túnel —  e aciona a expectativa com o que segue. 

A argúcia do autor mostra-se na sequência da conversa, conduzida de modo a criar uma espécie de ilusão de ótica. Num primeiro momento, ouve-se um estampido, quando o homem da janela, desconfiado, mata o leitor do jornal e acorda o dorminhoco. Mas — o spoiler aqui se torna inevitável —, a sequência e o arremate da história provocam uma reviravolta de papéis. Antes de chegar o próximo túnel, o homem que dormia questiona o parceiro:

“— Você disse que ia matá-lo no quinto túnel, mas matou no quarto, antes que ele tivesse tempo de reagir ou fugir. 

“O trem entra no quinto túnel e tudo fica escuro. Ouve-se uma voz: 

 “— Como você sabia que o túnel anterior era o quarto e este é o quinto, se estava dormindo?

“Silêncio. Depois ouve-se um estampido.”

O final deixa em aberto a identidade do assassino e da vítima, aumentando o impacto do desfecho. Como se vê, trata-se de uma mágica textual conduzida com habilidade de artesão. A esperteza literária se esconde sob o andamento de uma narração desenvolta, atravessada de imprevistos e lances súbitos, capaz de seduzir o leitor para a próxima linha. Contribui para isso, claro, o jogo acelerado e contrastivo das sentenças, recurso usado com frequência, mesmo nas histórias contadas em primeira pessoa. A exemplo dos solilóquios de Ed Mort, como neste trecho: 

“O número de baratas na minha sala aumentou. Deve ser o êxodo rural. Elas agora me proibiram de entrar na sala. Fico do lado de fora para interceptar a clientela. Fui assaltado cinco vezes em cinco minutos. Sempre pela mesma pessoa. Toninho ‘Mau fisionomista’ Aguiar. No fim ele me marcou com um ‘x’ na testa para não se enganar mais. Com canivete. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.”

Tal como nos diálogos, a celeridade das frases curtas contribui para o contraste das imagens, pautadas pelo inesperado e pelo curioso. A cada passo, o toque anedótico se renova e avança rapidamente com a trama da história. Dessa maneira, o humor deixa de ser o resultado de uma situação inusitada ou de um quiproquó — esquema típico das piadas — para constituir a própria substância narrativa. Brevidade e surpresa complementam-se, alinhavadas por um fluxo de conversa espontânea. 

Não será exagero afirmar que a arte de Verissimo está na capacidade de “vocalizar” seus personagens, seja no solilóquio tresloucado do narrador, seja no dinamismo como conduz as falas dos personagens. Daí o uso frequente do contraponto como recurso expressivo. Outra qualidade está na justa medida do andamento de cada história, obtendo um sentido de unidade que reforça o impacto final. Em paralelo à leitura, ocorre uma espécie de escuta do texto, reforçada por certa performance teatral. E que resulta numa escrita comunicativa e saborosa — exemplo da boa literatura de entretenimento.

Com meio século de trabalho diário de escrita e reescrita, autor de mais de oitenta livros e destacado entre os mais lidos e vendidos nas últimas décadas —, o que falta para a sua candidatura ser considerada a sério pela Academia Brasileira de Letras?        

Quem escreveu esse texto

Fernando Paixão

É escritor e professor de literatura do IEB-USP. É autor de Acontecimento da poesia (Iluminuras, 2019).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.