O escritor indígena Daniel Munduruku (Divulgação)

Literatura brasileira,

Confluência de mundos

Estreia na ficção para adultos do escritor indígena Daniel Munduruku coloca o leitor na pele do último sobrevivente de um povo dizimado

21jan2026 | Edição #102

No final dos anos 90, ganhou repercussão nacional o caso do “Índio do Buraco”, então o único sobrevivente da etnia tanaru, massacrada ao longo de duas décadas de conflitos com fazendeiros e grileiros na região de Corumbiara, oeste de Rondônia. Assim apelidado devido ao hábito de cavar buracos, que podem ter servido de esconderijo, nas cabanas em que construía, o último dos tanarus viveu isolado na terra indígena de mesmo nome até sua morte e a extinção completa do seu povo e da sua cultura, em 2022.

A história do “Índio do Buraco” foi inspiração para Fantasmas, primeiro livro de ficção destinado ao público adulto do escritor indígena paraense Daniel Munduruku, que, em 2025, recebeu seu quinto Jabuti, na categoria infantil, pelo livro Estações (Moderna). No romance, o protagonista, de etnia não revelada, encontra os últimos remanescentes do seu povo, incluindo sua mulher grávida, vitimados por uma chacina. Ele se vinga dos jagunços e aguarda julgamento depois de se entregar às autoridades.

Fantasmas está dividido em duas partes. A primeira, em forma de relato, soa como um manifesto contracolonial em que o personagem principal conta, por meio de cartas para o seu advogado, a história de um povo e explica a triste sequência de acontecimentos que o levou ao cárcere. Afiado como uma flecha, Munduruku expõe as inúmeras contradições dos modos de vida e das maneiras de pensar e de se relacionar dos não indígenas, ou karaí. O protagonista, que cresceu em comunidade isolada, só tinha ouvido falar nos “fantasmas” pelos relatos de seus antepassados. 

Fantasmas só olham para si mesmos. Vocês fingem que existe uma justiça para fazer com que as pessoas não se rebelem contra o sistema que vocês criaram. Justiça existe apenas para os privilegiados.

Em texto enxuto e delicado, Munduruku desmonta a visão hegemônica a respeito dos povos indígenas e do processo colonizatório ao mesmo tempo que aponta as mazelas sociais do neoliberalismo, invertendo a lógica do que são e de quem são os selvagens.

O texto vai desmontando a visão hegemônica a respeito dos povos indígenas e do processo colonizatório

Já a segunda parte do romance consiste em um longo diálogo, costurado pelo narrador em terceira pessoa, entre Peixe (ficamos sabendo o nome do protagonista) e Salomão, o advogado negro. O debate pode ser compreendido como uma reencenação da relação ancestral de troca e cooperação entre dois grupos historicamente oprimidos pela invasão europeia das Américas. Mais do que estabelecer uma ponte entre diferentes linhas de pensamento, o advogado vai desfazendo pouco a pouco o véu da colonização e abraça o modo de estar no mundo e as cosmovisões indígenas.

A omissão da etnia de Peixe dá unidade às vozes dos povos originários. O autor condensa, com propriedade, elementos que podem ser observados em culturas ancestrais de diversos cantos do planeta, como o senso de comunidade, o entendimento dos sonhos como portais de comunicação com o plano espiritual, a relação de intimidade com seres encantados ou a profunda conexão com a terra.

Mãe carrega o filho no peito não é apenas para ter facilidade quando a criança tem fome, mas é para que aquela pessoinha sinta a batida do coração e nunca mais perca essa lembrança quando se sentir sozinha no mundo, ou com saudades de casa. Basta baixar o ouvido e escutar o coração da terra. É o mesmo som, é a mesma mãe, é o mesmo cuidado.

Como Mário de Andrade, Munduruku prefere o termo pajelança a xamanismo, este mais amplo e genérico, padronizado pela antropologia. Mas as semelhanças com o autor de Macunaíma não vão muito além disso. Peixe, inclusive, se revolta com a maneira distanciada ou caricata com que as culturas indígenas são ensinadas nas escolas dos “fantasmas”, cujo senso de realidade ele questiona. 

Então, eles devem estar dormindo ou com os olhos vendados, ou mesmo cegos. É como se olhassem para dentro de si mesmos e só vissem o que querem ver. 

Flechadas

A literatura indígena para adultos, representada por autores como a afroindígena Verenilde Pereira, o também munduruku Ytanajé Coelho Cardoso e agora Daniel, ainda é território pouco explorado no mercado editorial. Enquanto autores como Kaká Werá, Ailton Krenak e Eliane Potiguara (considerada a primeira escritora indígena do Brasil), entre outros, convidam ao diálogo com o dasein dos povos da floresta e, assim, ajudam a recontar a história do país, Munduruku coloca o leitor na pele do seu protagonista.

Pós-doutor em linguística pela Universidade Federal de São Carlos, o autor tem mais de sessenta títulos publicados entre infantojuvenis, memórias e obras de caráter histórico. Há cerca de trinta anos, usando sua pena como arma, ele parece estar engajado em uma verdadeira cruzada em defesa dos valores e das culturas indígenas. Diretor-presidente do selo editorial Instituto UKA, curador do Encontro Nacional dos Escritores e Artistas Indígenas, que em outubro chegou à sua 20ª edição, e vereador de Lorena (SP) pelo PDT (o que em Fantasmas não o inibiu de atacar o sistema político e questionar a factualidade da democracia brasileira), Munduruku é um exemplo multidimensional de artivismo literário. 

Como Conceição Evaristo, James Baldwin ou Susan Sontag, o escritor indígena assumidamente coloca sua arte a serviço da causa, o que, no caso da luta dos povos indígenas, envolve identidade, memória, reparação, meio ambiente, cidadania e espiritualidade (não confundir com religião, principalmente as missionárias, também alvo das flechadas do escritor). 

O enredo seria atual em 1500, na década de 1920 ou nos anos 90, como o é nos dias de hoje, quando, semana sim e outra também, algum indígena é morto em disputas por terra ao mesmo tempo que o Antropoceno ultrapassa o primeiro ponto de não retorno. Fantasmas é tão conciso e direto, assertivo e legítimo em suas palavras “fortes como pedra de rio”, que o texto passa longe do panfletarismo: não há uma tentativa de “colonizar” o leitor. A força do romance, que encontra consonância entre forma e mensagem, advém justamente do “pisar suave” dos narradores. E sua mensagem, que ecoa direto da floresta, deve encontrar ressonância nos leitores (e ouvintes) mais atentos.

Quem escreveu esse texto

Carlos Messias

Escritor e jornalista, publicou A hora mágica (Patuá, 2025).

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Confluência de mundos”

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