Literatura,

Ilusões perdidas

Primeiro volume de trilogia de Virginie Despentes explora a precariedade da França atual com personagens não estereotipados

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

A escritora Virginie Despentes (nascida Daget) irrompeu na cena literária da França, no meio dos anos 1990, mandando às favas a elegância e o bom gosto da cartilha dominante. Baise-moi [Transe comigo] cruzava o país na carona de um duo feminino em fuga da polícia, numa espécie de Thelma & Louise anabolizado com sexo, violência e hedonismo. Recusado por nove editoras, o romance saiu finalmente em 1993 pela pequena Florent Massot. Ganhou ímpeto com o boca a boca no circuito de bandas e fanzines punk rock, até ser projetado ao mainstream por participações da autora em programas de entrevistas. O beletrismo BCBG — bon chic, bon genre, caricatura da burguesia francesa católica, classi(ci)sta, infensa a aventuras estéticas ou intelectuais — imediatamente estremeceu.

A trama pulp, à qual Despentes empresta episódios e traços de sua própria vida (o estupro, a prostituição ocasional, o fascínio pela pornografia e certo flerte com a marginalidade), fixa duas das balizas do programa despentiano: o desejo feminino que se assume sem pruridos e a violência (social, moral e também sexual) com que o patriarcado responde a essa e a outras afirmações do arbítrio da mulher. A própria autora adaptou o livro para o cinema em 2000, em codireção com a atriz pornô Coralie Trinh Thi. Baise-moi estreou sob forte artilharia da tropa moralista — tanto a religiosa de ultradireita quanto a feminista. Foi o primeiro filme francês censurado em mais de vinte anos.

Despentes não acusou o golpe. Publicou mais dois romances e uma HQ. Até que, em 2006, saiu Teoria King Kong (publicado no Brasil pela n-1), ensaio autobiográfico fortemente influenciado pela relação da francesa com a filósofa espanhola Beatriz Preciado (que hoje se identifica como Paul B. Preciado), guru dos estudos de gênero. A obra fez dela uma espécie de papisa do novo feminismo francês, alforriado do binarismo homem-mulher e dos eufemismos e tabus que amordaçam a expressão da libido.

O processo de aceitação (assimilação?) pela elite intelectual dessa enfant terrible filha de sindicalistas avançou em 2010, quando seu Apocalypse Bébé levou o Renaudot, segundo prêmio literário mais importante da França. A consagração de público e crítica ocorreu quando saíram os três tomos de A vida de Vernon Subutex, entre 2015 e 2017.

Decadência subversiva

A trilogia vendeu cerca de 1,3 milhão de exemplares. Colheu elogios rasgados até de resenhistas que ainda não se tinham convencido da habilidade de Despentes em retratar os ressentimentos do proletariado urbano e suas válvulas de escape — uma permutação de sexo, drogas e rock’n’roll — com generosidade, nunca comiseração.

Aqui, o personagem-título é um cinquentão que viu sua loja de discos minguar com o naufrágio da indústria fonográfica. Desde então, vive de bicos e empréstimos de amigos. Seu prenome vem de um dos pseudônimos do escritor Boris Vian, de A espuma dos dias: Vernon Sullivan. “Subutex” é a alcunha comercial de uma substância usada no tratamento do vício em heroína. O protagonista não é um desses junkies, mas os conta às dezenas entre ex-clientes da loja e amigos roqueiros.

O sopro que vem derrubar o castelo de cartas sob o qual Vernon ainda se abriga é a morte de Alexandre Bleach, o cantor que era o seu benfeitor. Despejado de um apartamento do qual quase não saía, ele enceta uma via-crúcis por sofás (às vezes, será convidado à cama) de conhecidos com os quais manteve graus diferentes de proximidade passados os embalos dos anos 1980.

A peregrinação o leva à porta de uma ex-contrabaixista que virou funcionária pública, de um roteirista xenofóbico consumido pela rotina familiar, de uma antiga groupie que se aburguesou, de uma jornalista que prepara uma biografia de Bleach e de um operador do mercado financeiro que mantém cativo um séquito à força de festas intermináveis, bebida e cocaína, entre outros tipos.      

Um refrão ritma as interações desse périplo, o das ilusões perdidas. A precariedade da situação de Vernon confronta cada um com o definhamento físico e com o achatamento dos grandes projetos de vida. A indigência do velho conhecido sensibiliza seu círculo, mas é sobretudo a insubmissão a convenções sociais (casamento, filhos, casa própria, trabalho, salário…) que alimenta o fascínio em torno da sua figura. A recusa em se dobrar a expectativas alheias faz dele um repositório de liberdade e subversão, uma lufada de teen spirit roqueiro em tempos de bate-estaca financista.

Os reencontros de Vernon revelam uma confraria dormente, uma comunidade que, por baixo de resignação e mágoas individuais, só espera uma chance para se reconstituir em núcleo de resistência à brutalidade externa. É o que acontece no segundo tomo da trilogia. A galeria de personagens que a autora acopla às desventuras do protagonista inclui também atrizes pornôs, um intelectual muçulmano ressentido com a falta de mobilidade na sociedade francesa, um carteiro que bate na mulher e defende a insurreição popular contra as elites e um bando neofascista. A cada um Despentes oferece o tempo de escapar da estereotipia — uma qualidade de empatia que não se confunde com a indulgência.

Ao se deter sobre o que vai na cabeça de toda essa gente, Despentes compõe um painel fino de um país acuado tanto pelas insuficiências do Estado de bem-estar social e do discurso de igualdade quanto pelo oportunismo das fórmulas extremistas. Ironicamente, o primeiro volume foi lançado na França em 7 de janeiro de 2015, dia do atentado ao Charlie Hebdo que deixou doze mortos.

Tributário da esbórnia de um Bukowski, seu estilo alia ritmo sincopado e oralidade, dna que a boa tradução de Marcela Vieira preserva. Se o universo em que transitam as criaturas desse Vernon remete instantaneamente ao Alta fidelidade do inglês Nick Hornby, a desolação que se sedimenta ao fio dos tête-à-tête sucessivos pende mais para o decadentismo de Plínio Marcos ou de Mário Bortolotto.

A crítica sentiu falta desse comentário social na adaptação para a TV, com Romain Duris no elenco, exibida na França em abril. A série teve ibope modesto e não deve ganhar nova temporada. A notícia não tira o sono de Despentes, que largou a equipe logo no começo ao pressentir a “visão do proletariado pela burguesia”.

Quem escreveu esse texto

Lucas Neves

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.