Literatura,

Fantasia épica africana

Marlon James fala sobre seu novo romance, comparado a Tolkien, García Márquez e Game of Thrones

17jun2021 - 11h56 | Edição #47

Game of Thrones africano”, “um mundo fantasioso como os de Tolkien”, “um épico com elementos de García Márquez, universo Marvel e Salvador Dalí”, “uma vertiginosa tempestade semântica polimórfica”. Muitas críticas têm tentado descrever o indescritível Leopardo negro, lobo vermelho, quarto livro do jamaicano Marlon James, recém-publicado no Brasil pela Intrínseca, que já havia lançado Breve história de sete assassinatos (2017).

As 784 páginas dessa longa jornada pelos mitos e pela história da África pré-colonial são, na verdade, o primeiro volume de uma trilogia, intitulada Dark Star. Na trama, o protagonista Rastreador (Tracker, no original) se aproveita de alguns dos seus superpoderes, como um faro melhor do que o de qualquer animal, e um infinito talento guerreiro, para buscar um menino desaparecido em meio aos reinos e florestas de um continente fantástico e violento, sobre o qual paira a sombra de uma iminente invasão.

Em meio a um turbilhão de batalhas sangrentas e cheias de feitiços, portais e magias, o Rastreador vai encontrando (e muitas vezes matando) albinos, fadas, bruxas, caçadores de bruxas, bêbados, sereias, vampiros, alquimistas, gigantes, pássaros relampejantes, canibais, senhores de escravos, rainhas matriarcais, fantasmas, eunucos, prostitutas, soldados e uma série de entidades que mudam de forma, tempo, geografia, caráter. Ele tem ainda uma tumultuada relação homossexual com o Leopardo, personagem que se alterna na forma de humano e de felino — assim como nos outros livros do autor, a sexualidade e a desconstrução dos padrões de gênero estão presentes, em paralelo a um enredo intrincado.

Antes da pandemia, Marlon James, 50, se alternava entre Minneapolis, onde é professor de escrita criativa no Macalester College, e o bairro do Brooklyn, em Nova York, de onde conversou com a revista por videochamada sobre
seu “romance fantástico africano”.

Como você está nestes tempos loucos? Estamos em dois dos piores países em relação à Covid-19…
Aqui, tivemos basicamente um presidente que era inapto para o cargo. Em epidemias e desastres, há apenas uma coisa que faz a diferença: boa liderança. O engraçado é que Nova York já se beneficiou de boa liderança antes: 102 anos atrás, imunizamos 6 milhões de pessoas em duas semanas. Agora, não conseguimos meio milhão em dois meses. Isso é o tipo de coisa que esperamos de 1912, não de 2020. Se há 500 mil pessoas mortas, 490 mil são por causa da liderança ruim. Estamos cansados de como as coisas estão, mas ainda é muito perigoso voltar ao normal. Ainda temos que ser responsáveis.

E você considera que está em boa forma física e mental?
Sim, mas é duro. O mundo inteiro perdeu um ano em que não fizemos nenhum plano. Quase todos aqueles feitos em 2020 foram em resposta a algo que nunca poderíamos ter previsto. Estou cercado de pessoas solitárias. Nenhum dos meus alunos teve um dia normal de aula em muitos meses. A violência doméstica está subindo em todo lugar. Acho que as pessoas estão estressadas, cansadas da rotina, do tédio. Eu sou velho o suficiente para lembrar de quando a aids estava devastando o mundo, e naquele momento boa parte dos comportamentos dos homens gays começou a ser muito condenada. Pessoas diziam: “Você não deveria sair, você não deveria estar fazendo nada irresponsável”. Agora, os héteros estão cansados de ficar em casa, de ser manejados, de ouvir o que fazer. E eu fico: “Ah, interessante, quando era o contrário vocês eram os que estavam forçando essas coisas”. Mas estamos fazendo o melhor que podemos, segurando-nos naqueles que amamos. Tomara que o pior tenha passado.

O que você gosta de fazer quando não está lendo ou trabalhando?
Antes da pandemia eu não estava nem lendo nem escrevendo, estava viajando. Ou checando qualquer loja possível para comprar discos. Na última vez em que fui ao Brasil, passei muito tempo em lojas de discos. Voltei com uma mala cheia de vinis.

Você é um colecionador?
Acho que se poderia dizer que sim, já que tenho milhares de discos. No Brasil, comprei muita coisa de mpb, Tropicália, Jorge Ben. Mas agora escrevo praticamente o tempo todo. Leopardo negro, lobo vermelho é parte de uma trilogia, então eu estou ocupado pelos próximos quatro anos.

Em um artigo de 2015 do The New York Times, você explica como sua vida mudou quando foi para os Estados Unidos, onde se sente mais à vontade com sua sexualidade. Como é sua relação com a Jamaica hoje?
Tenho uma ótima relação com a Jamaica, vou para lá o tempo inteiro. Lá tenho família, amigos, um grupo leal de leitores. As pessoas esquecem que no artigo eu estava falando muito de sentimentos pessoais, conflitos pessoais. Não é que eu andasse por lá e as pessoas fizessem com que me sentisse indesejado, não era isso. Sempre tenho uma recepção entusiasmada na Jamaica. Foi na diáspora que entrei em conflito, na verdade. A ironia agora é que os jamaicanos na Jamaica são mais progressistas que os jamaicanos que vivem fora da Jamaica.

Ah, é?
Sim, claro. Os jamaicanos são mais jovens, estão expostos a mais coisas, eles seguem em frente. Muitas vezes os imigrantes querem se apegar a tudo, à Jamaica que deixaram para trás. Eles querem comer a mesma comida, ver as mesmas pessoas, ouvir as mesmas músicas. Acho que é um pouco como o que acontece com alguns brasileiros que se mudam para fora. Por ser um escritor, por ser queer, eu não tive problemas na Jamaica. Mas em Nova York ou Minneapolis os jamaicanos não vão às minhas palestras.

A experiência de ler seus livros em inglês e em português é muito diferente. O processo de tradução dos seus livros é algo que lhe interessa?
Uma tradução é, no limite, uma interpretação. Você pode traduzir palavra por palavra de Guerra e paz e não pegar o sentimento. A melhor tradução de Tolstói não é a mais literal, mas sim aquela que soa mais parecida com o russo. Para mim isto é o mais importante: a tradução precisa pegar o tom, o humor e a atmosfera certos.

Leopardo negro, lobo vermelho é um livro muito difícil de explicar. Como você o descreveria?
Essa é uma boa questão, porque as pessoas ficam querendo rotulá-lo. Já chamaram de “Game of Thrones africano”. Com certeza um monte de gente assiste a Game of Thrones, lê meu livro e pensa que não tem nada a ver. Eu estava tentando escrever um romance fantástico baseado na África. Queria escrever uma história baseada nos mitos, nas histórias e nas lendas africanas do mesmo modo como Senhor dos anéis é baseado em lendas britânicas e mitos vikings. Você não pega Senhor dos anéis e fala “Oh, este livro é sueco”, mas você pode ver as influências da mitologia do Norte, e eu queria escrever um livro da mesma forma. É baseado na mitologia e na história africanas, e espero que seja possível entender que esse é o único contexto no qual o livro poderia existir. Eu fico feliz de ele ser chamado de um romance fantástico africano.

É uma distopia anticolonial também.
Eu definitivamente estava interessado em ser anticolonial. Não estava interessado na África que foi colonizada nem na África islâmica, queria ir para antes disso, quando as pessoas ainda tinham os deuses iorubás e os orixás. Eu estava interessado na parte da África que sempre me disseram que era inferior, retrógrada, primitiva. Cresci com uma educação europeia, e queria voltar aos lugares cujas impressões que tenho foram moldadas pelo racismo, pelo colonialismo. É exatamente a fonte de que quero me alimentar para escrever essa trilogia.

Queria voltar aos lugares cujas impressões que tenho foram moldadas pelo racismo, pelo colonialismo

Foram dois anos de pesquisa para escrever esse livro, e você certa vez disse que se vê como um “repórter de pessoas inventadas”. Como é trabalhar com ficção e história?
A coisa mais legal de escrever um romance fantástico é que não é um romance histórico, você não precisa ficar atado aos fatos. Mas eu certamente queria escrever de um ponto de vista informado sobre as culturas. As histórias, os mitos, as lendas, as pessoas. Esse mundo é novo para mim, mas não pode ser para as personagens do livro. Alguns livros você lê e sente que o narrador está escrevendo como um turista. Isso não poderia acontecer com esse livro. Pesquiso o suficiente para que possa me mover em uma história como se eu vivesse lá.

Quando você pesquisa, especialmente sobre o continente africano, precisa ser muito cuidadoso. Precisa saber quem fez o estudo, qual era sua intenção, quais eram suas bases. Não é só a pesquisa, é a visão de mundo e o pensamento por trás da pesquisa. Eu não estou interessado em pesquisas que estão tentando achar um jeito ocidental de interpretar as coisas. Certas coisas simplesmente não têm uma interpretação ocidental. E, no fim, como é um romance fantástico, pesquisei as coisas de que eu gosto, coisas fantásticas. Dragões, sereias, fadas, monstros, gigantes, bruxas, todos eles aparecem no livro.

Em Breve história de sete assassinatos você fala de eventos envolvendo uma das pessoas mais famosas da história. Como surgiu a ideia de ter Bob Marley como personagem?
O livro começou como uma série de contos, e um dos personagens era um matador caçando alguém que estava envolvido no atentado a Bob Marley. Mas era só isso, Marley não seria parte da história. Então me dei conta de que todas as histórias eram na verdade uma só, e comecei a juntá-las e a pensar: qual é a questão central, o que elas têm em comum? Foi quando percebi que era o Marley. A primeira frase que eu tinha escrito para começar o livro agora está na página 420.

Aí, então, você teve que se aprofundar na biografia dele?
Sim, para todo livro que escrevo faço muita pesquisa, mas tem pouca coisa sobre Bob Marley que um jamaicano já não saiba. Eu já sabia. O que eu mais pesquisei foi sobre a cia, a Guerra Fria, as políticas estadunidenses e soviéticas, os intelectuais nos Estados Unidos e o que estava acontecendo na Nicarágua, mesmo que isso não esteja no livro.

O ator Michael B. Jordan adquiriu os direitos de Leopardo negro para o cinema. Como está esse projeto?
Ainda é muito cedo, estamos trabalhando em um roteiro, tentando juntar tudo. Está todo mundo animado, mas, neste estágio, ainda estamos desenvolvendo a ideia.

Quando você escreve, visualiza algumas cenas? Sempre achei seus livros muito cinematográficos.
Ah, sim, mas quem não visualiza? Eu imagino como ficaria em um filme, quem seria o ator ou a atriz, mas é preciso parar de pensar nessas coisas porque são limitadoras. Tem alguns livros que li que me parece que o autor escreveu já pensando em um filme. Eu sou muito inspirado pelo cinema, quase mais do que sou por livros, mas é preciso pensar em um livro como sua própria forma de arte, em oposição a apenas material bruto para um filme.

Quem escreveu esse texto

Júlio Delmanto

Historiador, escreveu História social do LSD no Brasil (Elefante).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.