
Literatura,
Fábula futurista
Jorge Carrión projeta quase cem anos de história da humanidade em trama que mais parece um ensaio especulativo do que um romance
18nov2024A membrana é o limite que define a célula de um ser vivo em relação ao seu exterior, divisória entre o lado de dentro e o de fora de qualquer organismo. A sua imagem também já foi usada, por exemplo, pelo paleontólogo francês André Leroi-Gourhan para definir o universo técnico da nossa espécie. Trata-se de uma imagem perfeita, portanto, para se discutir a porosidade das fronteiras entre o humano e seus instrumentos.
O romance Membrana, de Jorge Carrión, parte do presente, com seus drones e tablets, para projetar quase cem anos de história especulativa da humanidade, apresentando um panorama global frenético de peripécias com novas tecnologias, revoltas e contrarrevoltas algorítmicas. Carrión ata as várias frentes da sua trama esparramada com um artifício narrativo singular: quem nos conta a história é um Museu do Século 21 operado por um agregado de inteligências artificiais (chamadas de “avós”).
Cada capítulo curto do livro, então, é precedido de uma pequena lista de objetos do museu — reunindo itens reais e inventados, desde o Pinóquio da Disney e uma cruz usada na primeira missa de Brasília até um carro carbonizado e obras futuras de arte-ativismo. A heterogeneidade arbitrária da coleção é um dos aspectos mais divertidos do livro, justapondo detalhes do passado com detritos da sua convoluta trama.
A “voz” do museu é também o gesto formal mais ousado do autor. Apresentada no plural, uma espécie de coletivo de inteligências, repete algumas frases de efeito enquanto recapitula o passado de maneira impessoal. Nada mais apropriado, afinal, para narrar a dissolução da humanidade como conhecemos numa profusão de híbridos entre máquina e organismo.
Mas a escolha de Carrión por esse dispositivo também tem seu preço. Ao escolher filtrar uma narrativa global por um único registro, o tom acaba ficando monótono mesmo ao descrever situações rocambolescas. A imaginação do autor é plástica, a prosa tem recursos, mas quase tudo sai moldado pela mesma voz, com seus cacoetes (“nós nos entendemos”, “pelas dúvidas e pelas dívidas”, que logo se tornam mais irritantes do que ominosos ou engraçados).
Há uma trajetória densa para seus dois protagonistas, Karla Spinoza e Ben Grossman (uma gênia da tecnologia, autora do “algoritmo catedral”; e um soldado israelense rebelde, ex-piloto de drone). Fica difícil sentir grande coisa por eles quando suas vidas são narradas como soluços num documentário de larga escala. Parece mais um ensaio especulativo do que um romance. Os cenários são rascunhos que não conseguem fincar seus pés no chão, os personagens não marcam presença, bolsas vazias sacudidas por vastas transformações sociais.
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A escolha por uma forma mais documental e ensaística, em si, é legítima, e poderia funcionar bem melhor caso as ideias por trás do livro fossem mais robustas do que são de fato. Mas aqui, preciso vestir meu melhor uniforme de resenhista estraga-prazeres.
Emergência ausente
Para um romance que se propõe como especulação sobre o resto do presente século, a relativa ausência da emergência climática me parece quase imperdoável. Há menções breves a uma subida dos níveis oceânicos e medidas para contê-la, uma menção ainda mais rápida a uma “grande pausa nas mudanças climáticas”. No todo, as diversas crises relacionadas ao clima projetadas para as próximas décadas, desde a de refugiados até a de abastecimento, parecem inexistir no radar de Carrión.
Assim como em A marcação, romance distópico da islandesa Frida Ísberg, sentimos que a varredura especulativa de muitos escritores europeus parece mais sensível a dramas relacionados à erosão digital da autenticidade humana do que a questões estruturais relacionadas a energia, terra e clima.
A imaginação do autor é plástica, mas quase tudo sai moldado pela mesma voz, com seus cacoetes
Pode-se dizer que esse simplesmente não era o foco do romance, que se concentra no limite entre o natural e o técnico. Beleza. Embora o livro lide com uma série de questões, desde genocídios mediados por rede social até uma suposta “edição direta da realidade”, a tensão principal que o move é, de fato, esta: o hibridismo entre humano e máquina.
Carrión até foge um pouco da cartilha mais genérica desse assunto em alguns momentos. Ao explorar a conexão de mentes digitais com o mundo natural inumano, por exemplo:
Os pólipos ou antozoários são ao mesmo tempo solitários e coletivos, eles próprios: simultaneamente planta e animal, arbusto e concha tentacular, indivíduo e comunidade, nó da rede e membrana, único e múltiplo, nós entendemos.
Mas no geral, pode-se dizer que o autor repete muitos dos dramas familiares encenados pela ficção a respeito de robôs ao longo da segunda metade do século 20, desde Asimov e Blade Runner até Galatea 2.2, de Richard Powers (serão ainda humanos? Não? E o que serão então?). A transição entre o mundo de hoje e o desses híbridos sofisticados, embora expressamente narrada, termina vaga demais para aqueles que apreciam alguma acuidade técnica no meio da invenção.
O problema aqui é menos de consistência científica e mais de quais dimensões da nossa simbiose com as máquinas a visão datada de Carrión escolhe amplificar. A ansiedade parece quase toda direcionada à nossa futura mistura e indistinção com esses possíveis híbridos, muito mais do que com, digamos, a economia política da automação, sua pegada ambiental ou os vieses sociológicos dos seus modelos de treinamento.
De fato, a emergência de todo um ecossistema de inteligências artificiais mal parece ter materialidade nesse mundo, o que fica claro na descrição quase fantástica de IAs construindo, sozinhas, uma estrutura física titânica dentro da Amazônia para o museu, sem que humanos percebam (uma ideia tão boba que não vale nem comentar).
Não quero ser injusto. Membrana tem, sim, seus elementos inventivos e acertos estilísticos no meio da especulação um tanto esdrúxula. Nem toda visão precisa apanhar de tudo, naturalmente, e Carrión tem lá seu rendimento dentro de seu recorte. Mas quando as “avós” dissertam sobre a relação entre língua e império, gramática e lei, por exemplo, notamos a sólida cultura ensaística do autor ao mesmo tempo que constatamos que, como especulação do futuro, seu livro se revela uma aprazível máquina saudosa. Como ele mesmo escreve: “um museu das oportunidades perdidas, orientado para o adeus, uma coleção de inúmeras tristezas.” Tem quem goste.
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