Literatura,

Existências em fuga

Romance de autor alemão inédito no Brasil adverte que acerto de contas com o fascismo é inexorável

11out2022 - 09h00 | Edição #64

“A própria ideia de exterminar um povo inteiro, isso é uma loucura. E nesse momento eu mesmo estava sentado no tapete da sala de estar brincando com carrinhos.” Naquela que provavelmente foi sua última entrevista, dada três meses antes de morrer, em 2007, o escritor alemão Walter Kempowski cita uma justaposição que manifesta o espírito de Tudo em vão, seu primeiro livro traduzido no Brasil. Em janeiro de 1945, a Segunda Guerra Mundial entrava em seu sétimo ano, e o Exército Vermelho, que forçava as tropas nazistas a recuar cada vez mais, adentrava o campo de concentração de Auschwitz.

Naquele mês, na mansão de Georgenhof, localizada na Prússia Oriental, hoje Polônia, “a árvore de Natal ainda estava de pé no salão”. O cotidiano da aristocrática família Von Globig permanece praticamente inalterado, em que pesem a ausência do pai, oficial das Forças Armadas de Hitler servindo na Itália, e a eventual estada de um ou outro refugiado — alemão — oriundo do Leste.

As breves visitas desses personagens em deslocamento expõem os Von Globig, encapsulados na bolha da Georgenhof, aos últimos acontecimentos do conflito, que a essa altura ia muito mal para a Alemanha.

O livro condensa o projeto de narrar o cotidiano da guerra por meio de diários, memórias e cartas

As incertezas estão em toda parte no texto de Kempowski, que habilmente usa o discurso indireto sob a perspectiva de cada personagem e polvilha o fluxo de consciência com frases interrogativas. No entanto, a apatia dos Von Globig em pleno Terceiro Reich é tamanha que preferem acreditar que tudo terminará bem.

O ponto de virada de Tudo em vão surpreende não apenas o leitor, mas a própria Katharina von Globig: convencida pelo pastor, ela deve por uma noite esconder um fugitivo cuja vida está sob risco. Quando ela reflete sobre o homem que não conhecia e abrigaria em seu próprio quarto, ilumina-se uma faceta da condição humana daqueles dias e que diz respeito também a ela: “Todo o país estava tomado por existências em fuga, corriam pelas cidades, pelas florestas, abrigavam-se em velhas fábricas e em celeiros, ficavam escondidos agachados em porões e sótãos?”.

O homem se revela um judeu e é por meio dele que ela ouve o que realmente acontece no Leste. Quando o peso da conversa sobrecarrega a atmosfera do quarto onde Katharina passa os dias lendo livros munida de um estoque particular de cigarros, chocolates e vinhos, ela opta pela fuga para o bosque. “Simplesmente matar o tempo, pensou, nada de voltar a escutar segredos terríveis nem histórias infindas de mulher e filhos.”

Enquanto isso, a gestão da casa fica a cargo da Titia, governanta que tem um retrato de Hitler pendurado na parede do quarto e se divide entre as memórias de sua juventude no campo e a desconfiança em relação às duas empregadas ucranianas — ainda que em dado momento ela reconheça que prejulgou o capataz polonês (“A gente acabou de cometer o erro de pôr todas as pessoas do Leste num mesmo saco”). É notável o esmero do autor ao entremear a narrativa com canções populares daqueles anos, referências a filmes, atores e atrizes que marcaram as plateias e versos de Schiller e Goethe, clássicos habitantes do imaginário germânico.

Tudo em vão condensa um projeto que consumiu décadas da vida de Kempowski: narrar o cotidiano da guerra por meio de diários, memórias e cartas. Primeiramente, nos nove romances autobiográficos da série Deutsche Chronik (crônica alemã), depois nos quatro monumentais volumes de Das Echolot (algo como sonar), uma colagem de testemunhos e fotografias que ultrapassa a casa dos milhares de páginas.

Tabu

Kempowski não viveu para ver Svetlana Aleksiévitch receber o Nobel de Literatura em 2015 por um igualmente portentoso trabalho de memória oral sobre a Segunda Guerra e a União Soviética. Viveu, isto sim, para ser malvisto pelo establishment literário alemão durante grande parte da carreira, ainda que seus livros vendessem bem. Na entrevista de 2007, ele credita essa resistência ao fato de ser “conservador e liberal. Isso não é permitido na Alemanha”. Kempowski fazia referência ao fato de sua obra cutucar um tabu espinhoso para a consciência do país, o de que a população foi tanto conivente como vítima do regime hitlerista.

Há que se lembrar ainda o desprezo pela Alemanha Oriental num tempo em que os círculos literários da Alemanha Ocidental nutriam simpatia pelos irmãos comunistas do lado de lá do Muro, e a explícita inimizade com Günter Grass, senhor incontornável das letras alemãs no pós-guerra e autor de um clássico sobre a ruína nazista, O tambor. Em uma dessas ironias do destino, no mesmo 2006 em que Tudo em vão foi originalmente publicado, Grass lançou Nas peles da cebola, livro de memórias em que o Nobel de 1999 confessa ter servido na Waffen-SS, o braço militar da elite do Partido Nazista. “Esconder sua filiação à SS e alegar o contrário, isso é uma afronta. Tenho que concordar com Rolf Hochhuth quando ele disse: ‘nojento’”, comentou Kempowski.

A repulsa pelos comunistas tem raízes mais profundas. Kempowski nasceu em Rostock, cidade portuária do nordeste alemão. Sua família, dona de embarcações, ajudou refugiados que fugiam das tropas russas e alguns judeus perseguidos pelo regime nazista. Como o Peter do livro, que levantava suspeitas da vizinhança por alegar um eterno resfriado e não se engajar na Juventude Hitlerista, Kempowski gazeava as atividades da organização para ouvir música. Seu pai, no front tal qual o patriarca do romance, foi morto nos dias finais do conflito. Depois da guerra, ele e o irmão trabalharam no setor ocupado pelos Estados Unidos e foram presos em 1948 pela polícia secreta soviética, acusados de espionagem, por terem alertado os norte-americanos de que os russos pilhavam fábricas alemãs. Kempowski foi condenado a 25 anos de prisão na Alemanha Oriental e cumpriu oito. Ao ser libertado, estabeleceu-se como professor no Oeste.

Em Tudo em vão, a passagem do judeu pela Georgenhof desencadeia uma sucessão de eventos que coincide com a chegada dos tiros e das bombas. O destino de cada personagem — seja um Von Globig, seja um empregado ou amigo da família — pode soar como uma advertência ao leitor brasileiro: o acerto de contas com o fascismo é inexorável.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista, é editor de opinião do site Jota.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.