Filosofia, Literatura,

Etnologia do exílio

Reedição de tetralogia e novo livro mostram a singular arquitetura literária de Juliano Garcia Pessanha

21nov2018 - 12h17 | Edição #13 jul.2018

Num poema de 1923, Marina Tsvetáieva indagava-se o que haveria de fazer “com o osso e o ofício de cantora”: “Entre meus delírios — como por uma ponte! / Imponderáveis, / num mundo de pesos. […] Imensurável, num mundo de medidas”. Nesse mundo de pesos e medidas, de afetos calculáveis, em que os discursos da razão — da ciência, da metafísica, psicanálise — catalogam profissionalmente os delírios imponderáveis, o poeta ou a poeta faz-se arauto do estranhamento: “Como a serpente olha a velha pele — / cresci para fora do meu tempo”, escreve Tsvetáieva, em outro poema, dois anos antes. “Cresci para fora do meu tempo” serviria bem de epígrafe à tetralogia do não pertencimento que é Testemunho transiente, do paulista Juliano Garcia Pessanha (1962). 

Paisagem anômala no mapa da literatura brasileira contemporânea, Testemunho transiente reúne quatro livros: Sabedoria do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), Certeza do agora (2002) e Instabilidade perpétua (2009). São obras marcadas pelo hibridismo, costurando ficção, ensaio, testemunho e aforismo poético, em diálogo fecundo com a literatura, a psicanálise e a filosofia — esta, sobretudo, pela figura de Heidegger.

Fere-se sempre a corda das questões essenciais, de herança existencialista: o que perdemos quando entramos no mundo instituído — o “Dentro”, segundo o pensamento “topológico” do autor —, lugar onde os homens se agarram a identidades como a tábuas de salvação, onde “fabricamos um inconsciente”, que é “para onde passa aquilo que não estamos à altura de experimentar”? E o que temos a descobrir ou a deflagrar, se desistirmos das terras prometidas do eu e nos entregarmos ao naufrágio, emergindo no “Fora”, onde reluzem as coisas não explicáveis e as aparições inaugurais?

Pessanha persegue essas indagações repetidamente em Testemunho transiente, tomando por lastro a experiência pessoal de quem nunca alcançara “cidadania no lado de dentro do mundo” e que estivera sempre entre o dentro e o fora, “nessa estranha condição de habitante duplo e de animal de fronteira”. Essa negatividade dolorosa, essa estranha afasia que o impede de pronunciar as palavras comuns, o autor se esforça para transmutá-la em autoridade de fala: “O homem que abriu uma brecha na cidade ao gritar do viaduto e da janela do edifício estará em condições de começar a falar se ele não esquecer e não suprimir o grito ao voltar para o seu quarto […] e começar a ser apenas e tão somente a partir do elemento do grito”.

Pessanha fascina ao iluminar seus desastres pessoais e a formulação filosófica dessas vivências

O “elemento do grito” equivale aqui àquele “lugar da ferida” de que fala a poeta argentina Alejandra Pizarnik, em “Poema”: “Tu eleges o lugar da ferida/ onde falamos nosso silêncio./ Tu fazes de minha vida/ esta cerimônia demasiado pura”. Juliano Pessanha, banido do mundo do dentro, senta praça no “lugar da ferida”, onde conversa longamente com Dostoiévski e Kafka, Pessoa e Tsvetáieva, entre tantos outros exilados (a literatura brasileira, com exceção de Hilda Hilst, praticamente não é referenciada: segundo o autor, nossa literatura “não tem o estranhamento em sua origem” e “sofre de um excesso de identificação com o instituído”).

Arrebatamento

Dialogando com a tradição da poética do negativo, Pessanha insiste numa existência “demasiado pura”, que, em Testemunho transiente, se oferece intocada pela autoironia. Mesmo Bernardo Soares, o anotador de sonhos do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, admite que, por mais que admire os que “sentem com o corpo e o quotidiano a presença mágica do mistério”, sabe que será “sempre da Rua dos Douradores, como a humanidade inteira”. Pessanha, contudo, mantém-se irredutivelmente fiel à “palavra que despenca”, a “palavra reminiscente”, a fim de “deslocar o homem” e “lembrá-lo do arrebatamento.”

É esse ardor revolucionário de Testemunho transiente que é posto em xeque em seu livro mais recente, Recusa do não-lugar, em que o autor acerta as contas com Heidegger e outros “habitantes do assombro”, sobretudo consigo mesmo. Aqui, ele vai muito além da autoironia, virando do avesso os pressupostos filosóficos de sua obra anterior, marcando uma ruptura com a antiga condição de habitante do grito.

Como em Testemunho transiente, deparamo-nos de novo com um entrelaçamento fascinante entre a iluminação que brota dos desastres pessoais, em testemunhos biográficos de uma nudez desconcertante, e a formulação filosófica dessas vivências, amparadas agora pelo pensamento do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Com Sloterdijk, Pessanha torna-se estudante das formas de habitar o “Dentro”, divisadas agora já não como claustros de performances inescapavelmente inautênticas, mas como possíveis interiores habitáveis, invólucros imunológicos instaurados em esforço conjunto com “acompanhantes e aliados”.

O primeiro aliado é a mãe, sem a qual o migrante recém-chegado pode ser catapultado para o mundo do assombro. Na busca por essa figura, a escrita apaixonada e tantas vezes comovente adere ao relato autobiográfico e toca o “lugar da ferida”, mas desta vez da ferida do lado de “Dentro”: “Pelo que vivi desde o início, sei que não pude viver com minha aliada a orgia ressoante dos gestos incorporadores: a fábrica do eu falhou. Se o Kafka foi expulso do mundo pelo pai, no meu caso o processo de expulsão começou pela mãe. Minha vida inteira até a desaparição da minha aliada não passou de um terrível combate de amor no qual tentei acordar a maternidade naquela mulher e ressuscitar seu corpo a fim de que eu pudesse nele mergulhar”.

Se, na epígrafe de Certeza do agora, a mãe era referida como aquela que deu ao escritor “o essencial: solidão e exílio”, aqui, o essencial, nunca conquistado, é o interior sustentável.

Pela reorientação operada em Recusa do não-lugar, do elogio do desastre à adesão ao mundo, trata-se agora, contrabandeando o verso de Tsvetáieva, de crescer para dentro do seu tempo. Testemunho transiente, contudo, pela intensidade de sua escrita, pela riqueza da reflexão filosófica e do diálogo iluminador com a tradição literária do abismo, permanece e se afirma como profunda e tocante etnologia do exílio.

Quem escreveu esse texto

Odorico Leal

É doutor em literatura brasileira pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.