Literatura,

Delírios de grandeza

Obra póstuma de John Fante traz pela primeira vez alter ego do autor, que protagonizou quatro dos seus romances

01dez2019 | Edição #29 dez.19/jan.20

Neste ano, a José Olympio lançou uma reedição de O caminho de Los Angeles, publicado no Brasil pela primeira vez pela Brasiliense no final dos anos 1980. É uma obra póstuma de John Fante, escritor americano que ganhou a vida fazendo roteiros para o cinema: escrita em 1933, foi reescrita em 1936 e ficou na gaveta até a morte do autor, em 1983. Os manuscritos foram publicados só dois anos depois.

No livro, aparecia pela primeira vez Arturo Bandini, seu alter ego, um despirocado operário que aspira a ser escritor e é protagonista de outros três livros de Fante — dentre eles, Pergunte ao pó (1939), que gerou algum culto ao autor depois de uma reedição, dali a quarenta anos.

Aos vinte e poucos anos, ele vive numa cidade nos arredores de Los Angeles e pulula de trabalho braçal em trabalho braçal. Cava valas nas cercanias do porto, lava pratos, é ajudante de caminhoneiro e larga os três bicos: julga-se muito melhor que eles. Dá expediente numa mercearia, mas é pego roubando o caixa — demitido por justa causa, justifica-se: é muito melhor que aquilo.

Quando está sem trabalho, vagabundeia na biblioteca pública ou lê em parques — A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler (um dos substratos teóricos do nazismo), e um tanto de Schopenhauer (“as coisas que ele dizia sobre as mulheres!”, conjectura, sobre as passagens mais misóginas do filósofo alemão) ou de Nietzsche (interessa-lhe, sobretudo, o conceito de “super-homem”).

Vale aqui um aparte: durante a juventude, foi numa biblioteca pública que o escritor Charles Bukowski descobriu Fante, como se lê no prefácio da reedição de Pergunte ao pó, lançada sob seus auspícios em 1979: “As linhas rolavam fácil pela página, havia uma corrente. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por uma outra que nem ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, a sensação de alguma coisa esculpida ali. E aqui, afinal, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam misturados numa esplêndida simplicidade. Começar aquele livro foi um selvagem e enorme milagre pra mim”.

Exterminador de caranguejos

O caminho de Los Angeles é ainda mais ousado. Bandini não tem estofo intelectual para absorver a literatura que consome: embaralha conceitos, emprega mal as palavras. Graças à sua verve, Fante transita fluentemente da repulsa — o protagonista é um entusiasta da “Weltanschauung” de Hitler — ao humor — não sabe o que é “Weltanschauung” (que poderia ser traduzido como “cosmovisão”), nem entende as atrocidades perpetradas pelo ditador.

O narrador-protagonista, embora hiperbólico, tem uma complexidade que afasta qualquer esquematismo. Ele é repugnante, mas traz consigo a carga de quem está à deriva num período de incertezas — não nos esqueçamos de que o manuscrito foi escrito em 1933, em meio à Grande Depressão. Está sozinho num mundo mastodôntico, dominado por indústrias como a Ford e a infecta fábrica de sardinhas em lata onde acaba por bater ponto depois dos muitos bicos. De dentro de si, no entanto, rebenta uma voz feia, suja, mas sua.

E é justamente ao expor seu protagonista ao ridículo que Fante lhe confere alguma dignidade. Ao não optar por um narrador que tutele o personagem, o escritor lhe confere vida plena: quem narra é Bandini, quem se subjuga ao juízo do leitor é Bandini, é ele o senhor do próprio destino. E é ele mesmo que se expõe ao ridículo na passagem que antecede a descrição do momento em que ele extermina, a troco de nada, dezenas de caranguejos.

“Parei na ponte branca que atravessava o canal à esquerda das Indústrias Pesqueiras da Costa do Pacífico, no lado Wilmington. Um navio-tanque descarregava nas docas de gasolina. Na rua, pescadores japoneses reparavam suas redes, estendidas […] ao longo da beira d’água. Na American-Hawaiian, estivadores descarregavam um navio de Honolulu. Trabalhavam com as costas nuas. Parecia um grande assunto para um escritor. Aplainei o novo caderno sobre a balaustrada, molhei o lápis na língua e comecei a escrever um tratado sobre o estivador: Uma interpretação psicológica sobre o estivador ontem e hoje, por Arturo Gabriel Bandini. […] Era difícil demais. Desisti. Achei que filosofia seria mais fácil. Uma dissertação moral e filosófica sobre o homem e a mulher, por Arturo Gabriel Bandini.”

Ele desiste do “tratado sobre o estivador”, desiste da “dissertação moral e filosófica sobre o homem e a mulher”. Tenta retratar a cena como pintor; não consegue: seus traços são infantis.

Bandini, então, vadia pela orla e resolve se aventurar por baixo de uma ponte. Sente o terreno movediço quando pisa nas pedras à margem do mar: é um viveiro de caranguejos. No susto, arremessa contra as rochas um que pinçou a barra das suas calças. Sente prazer e repete a operação com outro, depois mais outro. Volta para a rua, compra uma espingarda de pressão e termina o massacre. “Caranguejos e mulheres chegariam a uma conclusão inevitável: que eu era um terror, o Assassino Negro da Costa do Pacífico, mas um terror respeitado por todos, caranguejos e mulheres igualmente: um herói cruel, mas um herói mesmo assim.”

Incel dos anos 1930

Bandini é um punheteiro inveterado. Apossa-se de um armário embutido no apartamento que divide com a mãe e a irmã. Nas paredes de seu “gabinete”, afixa fotos de vedetes, às quais dedica longas sessões de masturbação. Dá nomes às “mulheres de papel”, fantasia transas bizarras. É incapaz de se relacionar com gente de carne e osso.

Ofende quem quer que seja quando contrariado: “Você é um grandalhão filho da puta”; “Estou cansado da sua hipocrisia elefantina”; “seu arremedo de freira frustrado”; “apenas eu, de toda a família, não fui marcado pelo flagelo do cretinismo”; “seu caipira americano”; “latino sebento”; “você pertence à dinastia dos escravos”. Imaginados no sotaque ítalo-americano do protagonista, num primeiro momento os insultos podem lembrar o personagem de Joe Pesci no filme Cassino (1995). Mas Bandini é inofensivo, não tem a índole de um matador da Máfia. Tivesse surgido a partir dos anos 1990, poderia frequentar os fóruns dos subterrâneos da internet.

A apoteose da sua megalomania ganha corpo no romance que o protagonista decide escrever, de uma mediocridade aterradora. E que lhe dá consciência do seu devaneio de grandeza, o impulso final para que, no fim do livro, compre uma passagem para Los Angeles, para longe da família e do cheiro nauseante das sardinhas.

Uma das primeiras apostas de fôlego de Fante, O caminho de Los Angeles revela um estágio menos maduro do escritor — algo que se percebe na própria compleição de Arturo Bandini. Em Pergunte ao pó, publicado seis anos depois de o escritor engavetar a obra, a trama se desenvolve com mais naturalidade, sem que os desvarios do protagonista a solavanquem, como numa superposição de esquetes. O personagem ganha sensibilidade e protagoniza uma comovente história de amor não correspondido com uma garçonete mexicana. Os dramas humanos ganham novos matizes fora da chave do absurdo.

Mesmo assim, ao caricato Bandini que emerge de O caminho de Los Angeles abre-se uma porta para a salvação. Caminho que não é oferecido a personagens a ele contemporâneos, como o médico Ferdinand Bardamu, de Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline, que vaga pelos confins da Terra para fugir, sem sucesso, do seu inferno pessoal; ou um pouco posteriores, como Holden Caulfield, o pobre menino rico de O apanhador do campo de centeio, de J. D. Salinger. Assim como Bandini, Bardamu e Caulfield se sentem sós num mundo que não se conforma como querem. No entanto, ao contrário do protagonista de Fante, não são capazes de vencer a própria impotência — talvez pelo excesso de consciência dela.

Quem escreveu esse texto

Antonio Mammi

É editor do Nexo Jornal.

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.