Literatura,

Cartas para as mães

Sylvia Plath, Bette Davis e Winston Churchill estão entre os autores dessa coletânea que gira em torno da maternidade

19maio2020 - 15h36 | Edição #34 jun.2020

“Para mim, a única resposta que uma mulher pode dar às forças destrutivas do mundo é a criação”, são as palavras endereçadas pela socióloga Jessie Bernard para a filha que ainda crescia em sua barriga. A carta foi escrita em 1941, em meio à Segunda Guerra Mundial. Talvez seja isso que torne a escrita algo anacronicamente essencial: livros são o que são, os olhos que os acolhem estão sempre em transformação. E, inevitavelmente, a pandemia que tomou o mundo de assalto atravessou a leitura da coletânea Cartas extraordinárias: mães, que comporta correspondências destinadas a mães, remetidas por elas ou nas quais figuram como tema principal.

São reunidas palavras de autores célebres e anônimos; cartas públicas e escritas para um leitor específico; conteúdos que encontraram destino somente após a morte dos remetentes e os que foram redigidos antes que os destinatários fossem sequer nascidos; correspondências do século 4 e concebidas já para plataformas digitais, como o texto que Estela May Young publicou em seu Instagram como homenagem à mãe Fernanda Young.

Outro brasileiro na coletânea é Otto Lara Resende, em divertida carta em que encarna a voz da filha que ainda estava na barriga da mãe. Essa missiva de 1967 também abriga certo anacronismo caro ao ano de 2020: “Apesar da guerra no mundo, apesar da fome e de todas as calamidades, apesar dos pesares, ouvindo como ouço tanta gente dizer que viver não vale a pena, a verdade é que preferi… viver”.

Os tempos da palavra escrita

Winston Churchill justificando o mau desempenho escolar, Martin Luther King narrando a rotina de estudos, Sylvia Plath esperando por uma visita da mãe, Louisa May Alcott entregando o primeiro livro à sua genitora e os litígios familiares entre Bette Davis e a filha são algumas das cartas que poderiam ter o apelo de revelar a intimidade ou o lado menos vistoso de pessoas que, de uma forma ou de outra, imprimiram seus nomes na história.

As mais extravagantes instigam pela excentricidade, como a escrita pela filha da atriz Joan Rivers com a solicitação para a mãe pegar leve nas festas no ofurô com direito a topless. Ainda assim, há uma riqueza ímpar nas que flertam com o prosaico e com o piegas, por causa de um tipo de sinceridade que transforma o lugar comum. Até a carta mais simplista em termos de composição pode encontrar a dita alta literatura na dificuldade de enunciar algo para além do significado da palavra.

O compilado é fruto de um projeto iniciado em 2009 e justificado pelo organizador Shaun Usher como “celebração de um dos mais fundamentais e complicados laços humanos por meio da correspondência antiquada”. Cabe uma ressalva a esse adjetivo: embora haja meios possivelmente mais eficazes na supressão de distâncias, a instantaneidade das plataformas digitais não é capaz de comportar o que uma carta carrega. A comunicação imediata jamais prevalece numa correspondência, o que talvez a resguarde da obsolescência e da dispensabilidade.

Um dos aspectos da escrita epistolar é o percurso interno do remetente antes de iniciar a viagem para chegar ao destinatário, como aparece no desfecho de uma das cartas do livro: “Percebo agora que talvez seja sobretudo uma carta para mim”. O caminho interior e anterior é definido por George Sand, escritora francesa e importante missivista, como “um monólogo, no qual, sem querer, resumimo-nos de maneira apavorante”. O pavor começa com o silêncio intrínseco à correspondência: a conversa muda tanto na escrita como na leitura. Há certa distensão do tempo nesse processo, já que as palavras ecoam e ganham algum tipo de valor peculiar que faz frente à tagarelice da comunicação digital. Junto a esse tempo alongado, dois outros poderiam segmentar a coletânea: o indefinido do futuro e a certeza da morte.

Com sua instantaneidade, as plataformas digitais não são capazes de comportar o que uma carta carrega

O primeiro está presente nas cartas destinadas a crianças não nascidas, nas que guardam planos para um porvir mais ou menos remoto ou as que contêm desabafos para serem lidos num amanhã indefinido. As outras são as escritas pelos doentes que se despedem da vida e encarcerados ou soldados em tempos de conflito. Nos últimos dois casos, parece haver certa afirmação da existência, talvez como maneira de sair do ingrato posto de efeito colateral de decisões políticas. Afirmar a singularidade é um recurso narcísico necessário para a sobrevivência, nas condições mais ordinárias. Só que atravessamos contingências que nada têm de ordinárias, em que até rituais fúnebres são riscos sanitários, e nas cartas do livro encontramos esse alento ambíguo que uma despedida pode trazer.

Formas para o adeus

A carta é conversa com ausentes, uma premissa dos estudos epistolares. Mas o que isso significa? Poderia responder com alguns excertos do livro: “Às vezes ouço respostas nos ecos da sua ausência”, da escritora Karin Cook, ou “É claro que você não morreu. A morte é uma convenção, uma garantia do fim da dor, algo para os livros de estatísticas vitais, que não significam nada para ninguém, apenas para os responsáveis pelas informações dos cemitérios”, do romancista Wallace Stegner. A ausência torna-se presença produzida por palavras capazes de guardar marcas de antepassados, um compromisso com a memória. É um recurso para não ficar imobilizado na saudade, na dor pela perda, uma ligeira agência frente à morte.

A coletânea é uma leitura rápida e relativamente simples, ao menos se considerar que não há grandes impasses de decodificação. A riqueza do livro não está em artifícios estéticos, até porque mesmo as cartas de escritores tendem ao desadorno e ao valor das coisas pequenas da rotina. A grandiloquência, aliás, talvez sirva pouco quando a saudade aperta ou a morte se revela para além do recalcamento que tentamos impor.

A complexidade está em outro lugar: a banalidade que anima as formas de fazer um ente querido aparecer diante dos olhos nem que fugazmente. Para o leitor atual, seja quem está apartado da família, seja quem está tomado pelo pavor da perda, as cartas podem fazer alguma companhia e preencher o silêncio do isolamento. Ou até encorajar os dedos para colocar palavra coagulada em movimento.

Quem escreveu esse texto

Iara Machado Pinheiro

É crítica literária, doutoranda em letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #34 jun.2020 em maio de 2020.