Literatura,

A vida fora da vida

Romance de 1987 é porta de entrada para o universo do prolífico e genial autor argentino César Aira

09nov2018 | Edição #4 ago.2017

Até o fechamento desta edição, o argentino César Aira já publicou três livros novos em seu país em 2017. Embora não se possa confiar em muito do que Aira diz em entrevistas, ele costuma dizer que não sabe mais o número exato de quantos livros publicou até hoje. No Brasil, entre romances, narrativas curtas e ensaios, por grandes e pequenas editoras, já são uns dez, mas em seu país são quase cem, o que faz do autor um dos mais produtivos da literatura contemporânea, mas também dos mais absurdos, engraçados e geniais.

Nada disso é mentira, e a tradução do romance Os fantasmas parece confirmar que a sua literatura pegou por aqui. Traduzido por Joca Wolff, um dos principais incentivadores do autor no país, o romance foi escrito há exatamente trinta anos e está entre os dez primeiros da grande lista que é a sua obra — Como me tornei freira, de 1989, também lançado no Brasil pela Rocco, é do mesmo período.

Como costuma acontecer nos livros do autor, a história de Os fantasmas mistura um enredo ancorado em dados factíveis com uma situação totalmente surrealista — que diz respeito à convivência mais ou menos harmônica entre trabalhadores da construção civil e os fantasmas que habitam o prédio ainda em obras. Daí o leitor ficar sabendo, de saída, que o edifício se situa na rua José Bonifacio, 2161, em Flores, o bairro de Buenos Aires onde vive o escritor — outras de suas histórias, como As noites de Flores, também são ambientas ali.

Saber o dia em que a história se desenrola também é fundamental para compreendê-la: 31 de dezembro, talvez de 1986 — período em que Buenos Aires vivia um boom imobiliário, com a ascensão do consumismo e do neoliberalismo no país. Uma data festiva tanto para os trabalhadores (na maioria, imigrantes chilenos ilegais) como também para os fantasmas, que organizam do outro lado da vida “O Grande Réveillon da meia-noite…”. Em suma, um dia atípico no prédio da rua José Bonifacio, já que a própria noção de festa é definida pelo narrador como uma “vida fora da vida”.

A narrativa acompanha a jornada desses trabalhadores, que ironicamente não trabalham (estão em seu dia de puro ócio) e são os únicos capazes de se relacionar com os fantasmas. De certo modo, são fantasmas também: Raul Viñas (o zelador bêbado e, ao que parece, mentiroso), José María (pedreiro, responsável pelo churrasco), Enrique Castro (gordinho, insignificante, piadista) e Carlos Soria (mentiroso também). Eles vivem de forma precária no último andar do “esqueleto de concreto” e, apesar disso, segundo o pensamento da senhora Lopéz, uma das proprietárias, eles são felizes. “Mais felizes do que nós”, reflete ela, com uma ponta de inveja.

Feita a crônica de costumes, vem a ficção, que no caso de Aira consiste nos delírios que fazem a história se parecer não com um romance, mas com desenhos animados ou contos de fadas; no improviso que leva a narrativa a direções imprevisíveis; na liberdade da forma que pressupõe, se preciso, “escrever mal”; no mal-entendido como estratégia narrativa; ou no corte precipitado dos desfechos, questionados por muitos críticos.

Os fantasmas possui as características dos melhores livros de Aira, ainda que a concepção de algumas delas se mostrem tímidas, o que não deixa de ser interessante para os leitores mais habituais do autor. 

A certa altura, por exemplo, o narrador muda de assunto de repente e passa a falar que existe na África “uma engraçada raça de anõeszinhos, os pigmeus mbutu, caçadores nômades, sem chefe nem hierarquias”, e então descreve em pormenor a vida deste povo. É um procedimento conhecido do narrador típico de Aira, que costuma usar coincidências como pretexto para a prática da deriva. Aqui, a deriva é justificada como sonho de uma das personagens, o que amortece a radicalidade do seu efeito. 

O mesmo serve para o humor, menos explícito e debochado, mais subentendido, embora narrar a sério uma história absurda como esta seja uma piada a seu modo. Desde o começo o leitor irá se deparar com seres que não precisavam subir as escadas do prédio, pois “subiam e desciam flutuando, inclusive através das paredes”. Além de suas habilidades já conhecidas, os fantasmas falam “um castelhano sem sotaque”, são irônicos, por isso riem freneticamente — o que às vezes causa incômodo nos operários — e não gostam de churrasco. De noite, tornam-se majestosos, monumentais, com movimentos que “passavam a outras dimensões”, como em um “teatro de fantoches voadores”.

Entre os fantasmas e os operários, a personagem Patri, filha do zelador, provavelmente a protagonista desta história, faz a ponte entre os dois mundos. Se a construção está na região fronteiriça entre acabado e inacabado, visível e invisível, Patri também não sabe exatamente a que mundo ela gostaria de pertencer.

Como em uma história de amor televisiva, ela se apaixona pelos fantasmas e precisa decidir se quer passar o réveillon com eles ou com sua tediosa família. Para viver plenamente no mundo dos fantasmas, no entanto, há um preço alto a pagar: a própria vida. 

É o seu dilema, que se revolve nas últimas páginas do livro.

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

Matéria publicada na edição impressa #4 ago.2017 em junho de 2018.