Literatura,

A mulher do século

Ponto alto em uma obra hoje esquecida, autobiografia da escritora George Sand nos transporta ao centro da cultura francesa do século 19

13nov2018 - 13h46 | Edição #6 out.2017

Já se disse e repetiu que a boa literatura não se faz com bons sentimentos. É fácil encontrá-los, entretanto, na obra de George Sand (1804-76). Transbordando em cenas de perdão, caridade e nobreza de alma, nem por isso seus livros deixaram de ser admirados por autores como Dostoiévski, Proust ou Thomas Hardy.

É verdade que, hoje em dia, a memória da autora sobrevive menos devido aos setenta e tantos romances que escreveu, e mais pelos amores, escândalos e atos de coragem que marcaram sua vida. Mal se encontram, num site como o Estante Virtual, antigas traduções para o português de romances como La Mare au Diable (O charco do Diabo, 1846), Lélia (1833) ou Consuelo (1842), que conheceram imenso sucesso quando de sua publicação — e permitiram a Amantine Aurore Dupin, baronesa de Dudevant, alcançar independência financeira sob pseudônimo masculino.

Basicamente, sabe-se de George Sand que usava roupas de homem (não custavam tão caro, conta ela), que fumava cigarros e charutos (o pintor Delacroix estimulou-a nesse hábito) e que foi amante de Chopin por onze anos, até a morte do compositor em 1849. Experimentou maior paixão pelo poeta Alfred de Musset (1810-57), que dedicou ao infeliz relacionamento sua Confissão de um filho do século (Amarylis, 2016). Antes, ela se relacionou com o escritor Jules Sandeau, cujo nome, em parte, originou seu pseudônimo. 

A lista das amizades é ainda mais impressionante: de Balzac a Liszt, de Heine a Stendhal, do conservador Flaubert ao anarquista Bakunin, passando pelo socialismo moderado de Louis Blanc e pelo heterodoxo catolicismo de esquerda de Lamennais, George Sand viveu no centro do romantismo artístico, da política democrática, da controvérsia religiosa e de um nascente feminismo — ainda que lhe faltasse proximidade com o ambiente cultural inglês e alemão.

George Sand tinha muito a contar, como se vê, na História da minha vida. Embora tenha perto de 650 páginas, o livro não reproduz integralmente o original. No início de cada capítulo, indicam-se os trechos suprimidos.

Muitas vezes, trata-se de longos excertos de correspondência (entre o pai e a mãe da autora, por exemplo), de modo que o leitor pode contentar-se com o rápido resumo oferecido pela organizadora do volume, Magali Oliveira Fernandes, que cuida de não romper o fio da narração.

Surge alguma frustração, contudo, quando Sand anuncia um tema que se imagina interessante, e que fica fora da edição brasileira. “Fora da história oficial existe uma história íntima das nações”, diz o sumário do capítulo quatro. Há ainda outros tópicos cuja ausência só não lamentaríamos se confiássemos completamente nos critérios da edição. 

Esta parece, em todo caso, descuidada. As notas do tradutor são rarefeitas e, apesar disso, pouco bem-vindas. Seria crucial, para entender o envolvimento de George Sand na política (e com Michel de Bourges), alguma explicação sobre o chamado “processo monstro” que, na monarquia supostamente liberal de Luís Felipe, determinou a prisão de dois mil opositores e intelectuais.

George Sand dedica várias páginas à rixa entre os jornalistas Émile de Girardin e Armand Carrel, que terminou na morte deste último em duelo, sem que o leitor se beneficie de alguma contextualização. Nomes importantes na história do pensamento socialista e republicano, como Louis Blanc, Ledru-Rollin ou Armand Barbès, passam sem maiores explicações, enquanto uma nota nos informa que Liszt (grafado frequentemente “Listz”), além de compositor e pianista, era “professor e terciário franciscano húngaro do século 19”. 

A autora adverte que prefere calar-se a mascarar ou ‘dispor de modo conveniente’ diversas circunstâncias de sua vida

Lemos “abóboda” em vez de “abóbada”, confunde-se “exército” com “armada” e a luta dos “partisans” (guerrilheiros) vira dos “partidários”. É um detalhe, mas o primeiro nome da autora não era “Amandine”, como diz o livro, e sim “Amantine”.

Muitas das omissões do livro não são, contudo, responsabilidade da edição brasileira. A elaboração desta autobiografia demorou sete anos, de 1847 a 1854, e tudo indica que George Sand foi se desinteressando do projeto ao longo do tempo. A quantidade de lembranças penosas não era pequena, e o complicadíssimo processo de sua separação judicial, que a opôs a Casimir Dudevant, exigia tanto detalhamento quanto discrição.

A autora adverte que prefere calar-se a mascarar ou “dispor de modo conveniente” diversas circunstâncias de sua vida. “Nunca achei que devesse ter segredos a guardar a meu respeito diante dos meus amigos”, escreve, mas “diante do público, não me atribuo o direito de dispor o passado de todas as pessoas cuja existência correu lado a lado à minha”.

É que, apesar do comportamento escandaloso para a época, George Sand também era uma senhora do século 19, capaz de dignidades, renúncias e dedicações impensáveis hoje em dia. Foi maltratada pela mãe, pela avó, pelo marido, pelo irmão alcoólatra que se aliou a este, pela filha, pelos espanhóis da ilha de Maiorca (que não a queriam por lá junto com Chopin) e por vários críticos de Paris.

Perdoa a todo o mundo, e não fala mal de ninguém. Os “bons sentimentos” — de que tanto se desconfia na literatura — fundamentam o que estas memórias têm de mais admirável. A delicadeza da autora pode-se medir pela afeição que tinha a um grilo, que se alimentava do lacre usado na sua correspondência. Sand passou a usar um lacre branco, em vez de vermelho, com medo de envenená-lo.

Pode-se apreciar, já mais para o fim do livro, o retrato que Sand faz de um Balzac de maneira bastante simples, nada notívago, inventando ao vivo seus romances, e também de um Chopin sobressaltado por visões fantasmagóricas e chorando de desespero na correção interminável de suas partituras. Mas é sobretudo pela história de seus primeiros vinte anos que Sand torna este livro uma obra de grande beleza literária e pessoal. A avó paterna, aristocrática, preconceituosa e cética ao gosto do século 18, e a mãe, atriz belíssima, parisiense crente e impulsiva, plebeia a mais não poder, viviam às turras. Conciliar avó e mãe, filosofia e sentimento, sensatez voltairiana e impulso rousseauísta, no espírito da independência política e da emancipação pessoal, foi a missão de George Sand — possivelmente a maior figura feminina de seu século.

Quem escreveu esse texto

Marcelo Coelho

Sociólogo e jornalista, é autor de Tempo medido (Publifolha) e Patópolis (Iluminuras).

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.