Literatura,

A bota que pisoteia o rosto humano

Com ensaios escritos por grandes nomes, edição especial de ‘1984’ mostra como o clássico de George Orwell continua atual

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

Nascido na tradição distópica iniciada com o Nós de Ievguêni Zamiátin e o Admirável mundo novo de Aldous Huxley, o 1984 de George Orwell, pseudônimo do inglês Eric Arthur Blair, ganha uma bem-vinda nova edição pela Companhia das Letras. Acrescida de uma valiosa fortuna crítica até então inédita em português — que inclui ensaios de Thomas Pynchon, Marcelo Pen e Martha Nussbaun, entre outros — e com um novo projeto gráfico, não apenas é uma obra de constante atualidade, como também ganhou súbita urgência com a recente ascensão de governantes de claras pretensões totalitárias no Ocidente, o Brasil incluso.

Na época, o sucesso de A revolução dos bichos (1945) enquanto metáfora do regime soviético fez os leitores buscarem novas alegorias anticomunistas em cada página de 1984: é inegável que as imagens do Grande Irmão e do herege Goldstein são referências a Stálin e Trótski, assim como a fusão de características totalitárias tanto do nazismo à direita quanto do stalinismo à esquerda. Contudo, um aspecto pouco lembrado é que o livro reflete, em muito, a Inglaterra de 1948, ano em que foi escrito.

Muito do que Orwell exibe como parte da cultura fascista de um governo distópico não foi inspirado necessariamente no comunismo soviético ou no nazifascismo, mas em sua própria experiência com trabalho de escritório na bbc, durante a 2ª Guerra Mundial. O conselho de guerra de Churchill tomava ações que em nada deviam às de um regime totalitário, censurando notícias, controlando preços e salários, e tirando liberdades civis subordinadas às necessidades de uma guerra então sem perspectiva de ter um fim. Mas é para o mundo do pós-guerra, o da Guerra Fria, dividido em grandes blocos num conflito silencioso e sem fim, que a obra se dirige.

“Cada linha de trabalho sério que redigi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático tal como o conheço”, escrevera o próprio Orwell. “Por razões um tanto complexas, quase toda a esquerda inglesa foi levada a aceitar o regime russo como ‘socialista’, embora reconhecesse em silêncio que o espírito e a prática daquele regime eram inteiramente diferentes de tudo que significava ‘socialismo’ neste país. Por consequência, surgiu uma espécie de sistema de pensamento esquizofrênico, no qual palavras como ‘democracia’ podem comportar dois significados irreconciliáveis.”

Duas verdades

Como bem aponta o norte-americano Thomas Pynchon num dos ensaios que acompanham essa nova edição, ser capaz de acreditar em duas verdades contraditórias não é nenhuma novidade. A chamada “dissonância cognitiva” é bem conhecida da psicologia social, que outros chamam de “compartimentalização”. No mundo totalitário do 1984 de Orwell, é isso que garante que os superministérios que governam Oceânia tenham nomes opostos às suas funções. O Ministério da Paz promove a guerra, o Ministério da Verdade conta mentiras, o Ministério do Amor tortura e mata, o Ministério do Meio Ambiente estimula o desmatamento, o Ministério da Educação desmonta o sistema educacional do país e… não, espere. Talvez eu esteja confundindo as coisas. São tempos confusos esses em que Trump assumiu a Presidência norte-americana e Bolsonaro, a brasileira — tanto que o próprio 1984 voltou a se tornar best-seller tanto lá quanto aqui.

No mundo de 1984, todas as residências contam com uma teletela, um aparelho televisor com uma câmera embutida, que vigia constantemente seus usuários. É por isso que Mark Zuckerberg tapa a câmera do seu computador com fita crepe? Em 1984, cidadãos são arrebanhados como gado e conduzidos para vivenciar seus “dois minutos de ódio”, em que são levados a propelir todas as ofensas possíveis contra a figura do traidor da pátria, o herege Goldstein… não lembro agora se vestiam verde e amarelo, faziam coreografias, ou se o rosto de Goldstein não era o de ministros do stf ou qualquer outra figura que o regime julgue inimiga.

Também é em 1984 que o protagonista Winston Smith ocupa seus dias adulterando notícias de jornais, reescrevendo a história conforme a informação se torna inconveniente. Por isso, ele conta com a própria falta de memória da população, que parece incapaz de lembrar de qualquer fato com mais de dois  anos — “onde estava a imprensa na época, que não noticiava isso?”, diria algum habitante de Oceânia. Ou foi na corrente de WhatsApp da família?

A atualidade da obra de Orwell é justamente o fato de que nunca deixou de ser atual. Em última instância, a compreensão do horror totalitário não se dá através de conceitos abstratos sobre controle através da linguagem ou da movimentação social, mas através do controle sobre os sentimentos. Há uma história de amor ao fundo de 1984, e de como o Estado controla seus cidadãos vigiando os afetos.

Para um leitor homossexual, em especial um que viva em sociedades repressoras, não há nada de incomum na discrição extrema com que Winston e Julia driblam a vigilância constante para vivenciar seu relacionamento. Já para o leitor heterossexual, o horror distópico está justamente em ver algo que é intrinsecamente privado — os relacionamentos afetivos — ser transformado em propriedade pública, sujeita à ingerência estatal.

Como diz um personagem no livro, no discurso que é exemplo máximo da fidelidade canina ao ideal totalitário, “o único riso será o do triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, já não precisaremos da ciência. Não haverá distinção entre beleza e feiura. Não haverá curiosidade, nem deleite com o processo da vida. Todos os prazeres serão eliminados. Mas sempre haverá a embriaguez do poder, crescendo constantemente e se tornando cada vez mais sutil. Sempre, a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano — para sempre”. Faltou somente uma coisa às previsões de Orwell: os tantos rostos felizes que se colocariam a lamber essa bota.

Quem escreveu esse texto

Samir Machado de Machado

Escritor, é autor de Tupinilândia (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.