As Cidades e As Coisas, Literatura infantojuvenil,

Uma história de São Paulo

Retrato caleidoscópico da cidade é ponto de partida para que as crianças participem da construção de uma sociedade mais justa

01out2021 - 08h17 | Edição #50

Contar histórias é uma forma de carinho. Buscamos divertir e entreter nossas crianças ao mesmo tempo  que nos conectamos com elas. Fortalecemos laços através de riso, ternura e compaixão. Em muitas dessas narrativas, conferimos especial destaque ao “quem”, abordando as peculiaridades de heróis e heroínas. Também nos dedicamos ao “como”, emocionando os pequenos ouvintes com seus atos de coragem. Prestamos considerável atenção no “quando”, explicando, por exemplo, que “os tempos eram diferentes, naquela época…”. Mas e o “onde”, onde fica na história?

Quando a professora Guaraciaba, a Guará, leva seus estudantes para visitar o Pátio do Colégio e começa a narrar a história da cidade, é justamente o “onde” que passa a primeiro plano. Em São Paulo: a aldeia que virou metrópole, Silvana Salerno eleva São Paulo a personagem principal. Com inteligência, o livro mostra que o lugar importa, com influência nas nossas histórias.

Logo no início, Guará pede que os alunos “imaginem uma aldeia de terra, com poucas casas de madeira e barro e telhado de palha. Essa aldeia ficava entre três rios que alagavam tanto quando chovia que ela parecia uma ilha”. Para além da explicação dos nomes indígenas dos rios, como Tamanduateí (“rio de muitas voltas”) e Tietê (“rio de muitas águas”), a origem dessa aldeia é marcada pela colonização. Embora seja perceptível o cuidado em construir uma narrativa que inclua os povos originários e a escravidão, fica claro que precisamos avançar para transformar nosso imaginário sobre o desenvolvimento urbano.

Há cada vez mais trabalhos que resgatam o papel dos quilombos e aldeias indígenas na formação de São Paulo, mas ainda enfrentamos o predomínio da visão eurocêntrica e branca. No livro, a estátua de Borba Gato aparece logo após a ilustração de um bandeirante altivo e sereno. Essas figuras finalmente começam a ser colocadas em seu devido lugar por meio da ação política de movimentos sociais. A imagem de Borba Gato em chamas pode ser um bom contraponto para ampliar a discussão com os pequenos.

Precisamos rever criticamente como São Paulo se desenvolveu. A perspectiva cronológica adotada no livro não dá conta da complexidade dos fenômenos que conformaram a metrópole. As desigualdades estruturais que a sustentam — como o racismo e o patriarcado — estão na base da maioria dos problemas urbanos apontados por Guará, como o acesso restrito à moradia e a precariedade da infraestrutura urbana em regiões pobres da cidade. Não foi propriamente, como o livro sugere, a ausência de planejamento urbano que nos trouxe até aqui. Chegamos à atual situação pela ação consciente e, em boa medida, planejada das classes e grupos sociais dirigentes do nosso processo de urbanização.

Marcos simbólicos da cidade

Transmitir essa complexidade em um livro infantil é o grande desafio. Não é banal colocar a ideia de cidade como objeto de atenção das crianças. E nesse quesito o livro de Silvana se destaca. Nele, São Paulo ganha vida nas ilustrações de Bruna Assis Brasil, que nos proporciona um gostoso passeio imagético em suas colagens. Do Masp a ocas indígenas, de casas coloniais ao Theatro Municipal, a premiada ilustradora utiliza registros fotográficos de marcos arquitetônicos simbólicos para ambientar suas representações de alguns dos povos, personagens e cidadãos envolvidos nos mais de 460 anos da metrópole paulista.

É com esse retrato caleidoscópico que acredito que muitos pequenos poderão se identificar. Como os alunos de Guará, reconhecemos a cada página a nossa história familiar e pessoal entremeada com a de São Paulo. A compreensão dessa profunda conexão é crucial para que, desde cedo, as crianças possam desenhar o seu futuro a partir da construção da cidade, já que seus destinos estão entrelaçados.

Se nos preocupamos com os impactos das mudanças climáticas, o crescimento da pobreza, o retorno da fome; se queremos que nossas crianças não precisem um dia viver no cotidiano as agruras de centros urbanos poluídos, congestionados, violentos, racistas e segregados, precisamos contar a elas a história de nossas cidades. Essa é uma das portas de entrada para envolvê-las na promoção de cidades livres de discriminação, ambientalmente equilibradas e socialmente justas.

Está ao nosso alcance incluir as crianças na construção desse horizonte de transformação. Pode parecer uma tarefa difícil, mas Guará está no caminho certo. Conhecer a história é o primeiro passo para que as crianças se percebam como sujeitos dela. Torço para que, nas próximas aulas, já comecem a traçar outros rumos para a metrópole, compreendendo São Paulo tanto como lugar de exercício da cidadania quanto como objeto do direito à cidade. Quem sabe assim, daqui a cem anos, possamos ter livros em que nossas quebradas, favelas e periferias sejam pintadas com as mesmas cores e direitos que o restante da cidade.   

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Rodrigo Faria G. Iacovini

É coordenador da Escola de Cidadania do Instituto Pólis e membro fundador do LabLaje.

Matéria publicada na edição impressa #50 em agosto de 2021.