Literatura infantojuvenil,

Ode à imaginação

Coleção de seis volumes apresenta a evolução da carismática Anne Shirley, de órfã indesejada a mãe de seis filhos

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

A órfã Anne Shirley é um ícone no Canadá. Criada por Lucy Maud Montgomery (1874-1942) em 1908, protagonizou seis livros da escritora canadense e deu origem a várias outras obras e contos e ganhou diversas adaptações televisivas e cinematográficas — incluindo três filmes para a tv canadense em 1985, 1988 e 2000, que foram tão marcantes no mundo anglo-saxão quanto os romances. Mais recentemente, a personagem inspirou a aclamada série Anne with an E, da Netflix, que foi cancelada após três temporadas por causa de divergências contratuais com a produtora canadense responsável pelo produto audiovisual. Anne with an E procurou trazer uma visão mais contemporânea para a história, reescrevendo arcos de vários personagens, ressaltando as facetas mais sombrias do romance e sendo bem-sucedido em abordar de modo leve temas como abuso de crianças, feminismo, racismo e direitos indígenas. 

Devido ao sucesso da série, desde o ano passado as obras protagonizadas por Anne Shirley vêm sendo lançadas aqui no Brasil. A saber, Anne de Green Gables (1908), Anne de Avonlea (1909), Anne da Ilha (1915), Anne de Windy Poplars (1936), Anne e a casa dos sonhos (1917) e Anne de Ingleside (1939), que são completados por Vale do arco-íris (1919) e Rilla de Ingleside (1921), e mais tangencialmente Crônicas de Avonlea (1912) e Mais crônicas de Avonlea (1920). Todos esses títulos já foram lançados pela editora Ciranda Cultural, enquanto a Autêntica lançou até agora os três primeiros volumes. É de notar que as edições da Ciranda Cultural poderiam ter recebido um pouco mais de cuidado na revisão final e na padronização da tradução, mas nada que atrapalhe o brilho da protagonista.

Como é de se esperar, os livros seguem a trajetória de Anne Shirley, órfã que chega à pequena cidade de Avonlea, na Ilha de Príncipe Edward, para ser adotada pelos irmãos Matthew e Marilla Cuthbert, proprietários da fazenda Green Gables. Na verdade, o casal de irmãos tinha a intenção de adotar um menino para ajudar nas tarefas pesadas da fazenda, mas, devido a um mal-entendido, resolvem acolher a garotinha ruiva falante e sonhadora — e que faz questão de que seu nome seja pronunciado com o “e” final por ser mais “distinto” do que “Ann”. A decisão da adoção é recebida com incredulidade por seus amigos e vizinhos. 

Como pano de fundo, há o tráfico de crianças órfãs para trabalhar nas colônias britânicas

Mas, aos poucos, essa menina inteligente, impulsiva e considerada estranha por estar sempre fantasiando com mundos imaginários, fins trágicos, nomes românticos e lugares que ampliem o “escopo para a imaginação” (e ainda por cima ruiva!) cativa todos à sua volta. E esse será o modus operandi ao longo de toda a sua vida: se em um primeiro momento ela não é querida ou bem-vinda, dali a algumas páginas — que podem equivaler a meses ou até mesmo anos na obra de Montgomery —, ela terá ganhado o coração das pessoas.

É o que acontece em Anne de Green Gables, que mostra como seu carisma acaba por tomar conta de Avonlea e seus moradores, em especial Diana Barry, sua melhor amiga, e Gilbert Blythe, o menino que se apaixona por ela à primeira vista e que vira seu rival na escola. No primeiro volume, fica no ar a vida difícil da protagonista até então: seus pais morreram quando ainda era um bebê, ela trabalhou em casas de famílias mais pobres cuidando de várias crianças, passou um tempo em orfanatos e não foi amada ou valorizada por ninguém, tendo apenas a si mesma como companhia. Aqui, fica a sombra da Home Children, projeto de migração forçada de crianças órfãs para prover trabalho doméstico e rural na Inglaterra e nas colônias britânicas (inclusive o Canadá), criado em 1869 por Annie MacPherson — pesquisas registram que cerca de 100 mil crianças foram traficadas para esse tipo de trabalho. Como a história de Anne se passa entre 1876 e 1881, essa prática surge como pano de fundo histórico.

Um fato que parece banal, mas que diz muito sobre a época é o fato de Anne ver o seu cabelo ruivo como uma das maiores tragédias da sua vida. Em fins do século 19, cabelos vermelhos eram relacionados a mulheres que eram queimadas como bruxas, uma realidade que não estava tão longe temporalmente do romance. Tanto que em Anne de Green Gables ela chega a ser chamada de “bruxa”. Por isso, seu sonho era ter mechas negras como as de um corvo. Não era, portanto, apenas uma vaidade. Esse incômodo com o cabelo se mantém ao longo dos demais livros, ainda que seu cabelo vá se tornando mais castanho.

Anne de Avonlea traz a protagonista — cuidado, spoilers! — tendo de cuidar de uma Marilla que está ficando cega, aprendendo a ser uma boa professora na escola de Avonlea e estudando para o exame para entrar no Queen’s College, enquanto supera a morte do querido Matthew, ocorrida no final do primeiro volume. Anne da Ilha segue Anne sobressaindo academicamente na faculdade, fazendo novas amizades e descobrindo o que é o verdadeiro amor — é só no final do livro que Anne se dá conta de que ama Gilbert e aceita se casar com ele. 

Anne de Windy Poplars introduz um novo arsenal de personagens que está longe de ter o carisma dos de Avonlea, ao colocar Anne como a principal professora da cidade de Summerside, também na Ilha de Príncipe Edward. A maioria dos capítulos apresenta o formato epistolar, com as cartas que Anne envia ao noivo Gilbert durante três anos, período durante o qual ele estuda medicina. Anne e a casa dos sonhos mostra os recém-casados indo morar no porto de Four Winds, onde Gilbert vai praticar medicina. Novos personagens são apresentados, e suas histórias são muito mais atraentes que as do quarto volume e, o mais interessante, Montgomery toca em temas mais sombrios, como o suicídio, a morte da primogênita de Anne no parto e o luto que vem a seguir. No entanto, o romance mantém uma trama novelesca cheia de reviravoltas e, ao final, Anne dá à luz um menino e a família Blythe se muda para mais perto da cidade.

Anne de Ingleside é o último livro, que traz Anne como protagonista e acompanha a sua vida como esposa e mãe de seis filhos na cidade de Glen St. Mary, na propriedade Ingleside. O foco passa a ser as histórias de cada um dos filhos de Anne, mas a parte final traz um lado pouco visto da personagem, no qual ela se vê com ciúme de Gilbert, para depois reafirmar sua felicidade conjugal. Os outros dois livros, Vale do arco-íris e Rilla de Ingleside, seguem mais detidamente os filhos de Anne, sendo que o último destaca a vida da filha caçula Rilla (apelido para Marilla) e se passa em meio à Primeira Guerra Mundial, apresentando um tom que defende o alistamento de jovens para lutarem na guerra, ainda que um dos filhos de Anne, Walter, morra em combate.

Resiliência

A própria vida de Montgomery foi marcada pelo abandono. A mãe morreu quando ela era bebê e o pai a deixou com os avós maternos, mas voltou para levá-la quando tinha sete anos; a partir daí passou a viver uma infância infeliz e solitária. Depois, ela se casou com um pastor depressivo, foi mãe de seis filhos (como Anne) e só conseguia escrever seus livros após as crianças irem para a cama. Apesar do sucesso imediato de Anne de Green Gables, a crítica canadense (completamente masculina) não via valor literário na obra de Montgomery. Ela também sofria de depressão e suspeita-se que tenha cometido suicídio por uma overdose de remédios. Ao todo, escreveu vinte romances, 530 contos, quinhentos poemas e trinta ensaios, mas Anne foi sua personagem mais marcante.

Apesar da vida difícil, Anne conseguiu preservar seu espírito imaginativo, pois foi a sua capacidade de imaginar que a salvou de cair em desespero

Quem conheceu a história pela série da Netflix talvez precise se aclimatar à linguagem e aos temas que aparecem nos livros, uma vez que foram publicados no início do século 20, e os valores daquela época em relação à atual, felizmente, divergem bastante. Assim, existem algumas diferenças gritantes, tanto na forma como alguns personagens são tratados — o Gilbert da série é muito mais interessante que o dos livros e Ruby Gillis, a amiga de Anne que só pensa em garotos, é tratada de forma descartável quando morre em Anne da Ilha, sem causar maior impacto na protagonista — como no espaço presente na trama para discussões teológicas e fofocas de personagens coadjuvantes. Isso serve como um retrato histórico da vida local, procurando mostrar como o banal e o cotidiano podem ser vistos por um viés mais mágico a partir do olhar da personagem. 

E esse é o verdadeiro poder de Anne Shirley. Apesar da vida difícil que tivera até chegar a Green Gables, ela conseguiu preservar seu espírito inquisidor e imaginativo. Na verdade, foi a sua capacidade de imaginar que a salvou de cair em desespero. A imaginação, aqui, funciona como uma forma de autoproteção, criando uma armadura incomparável, pois mantém preservado o interior da personagem, deixando intacta sua esperança. É por mostrar esse tipo de resiliência que precisamos de Anne — ainda mais no momento em que vivemos, no qual o cinismo e o pessimismo podem vir a dominar tanto nossa vida interior quanto o mundo exterior.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.