Literatura, Literatura infantojuvenil,

O Sol é para todos

Livro de revolucionário palestino foi escrito para a sua sobrinha, junto da qual foi morto em um atentado

01out2022 - 04h51 | Edição #62

Chega ao Brasil a publicação de O pequeno lampião, de Ghassan Kanafani (1936-72), escritor palestino que se tornou referência literária e de esperança para o mundo. A tradução de Michel Sleiman e os desenhos do próprio autor, em fac-símile, foram cuidadosamente justapostos, uma vez que o manuscrito original (em árabe) e as belas ilustrações formam uma unidade. A narrativa conta a história de uma princesa que, após a morte do rei, seu pai, precisa levar o Sol ao palácio para se tornar rainha e garantir a continuidade do governo.

Dramaturgo, pintor, jornalista, professor e escritor, Kanafani nunca se resignou ao longo de sua breve vida, sustentando o desejo político de conscientizar seus pares sobre a realidade dos poderes estabelecidos. Tornou-se líder na luta e na resistência contra eles. Em 1948, ele e sua família foram forçados a sair da Palestina — uma das consequências da catástrofe que acometeu centenas de milhares de pessoas em razão da criação do Estado de Israel — e passaram a viver como exilados de sua terra. Mas por que Kanafani também se tornou inventor de narrativas para crianças?

Em seu primeiro e mais conhecido romance, Homens ao Sol (1963) a luz aparece como elemento que se contrapõe à escuridão — metáforas para consciência e alienação. Em O pequeno lampião, esse outro objeto de iluminação ganha dimensões próprias e sugere leituras sobre a relação entre jornada individual e desejo coletivo. Existe um horizonte transformador e uma inspiração sagaz no livro, que foi escrito como presente para a sua sobrinha, Lamis Nijem (1955-72), em seu oitavo aniversário.

Lamis despertou no tio a vontade de que as histórias que ele criava fizessem parte de uma causa comum

Kanafani nasceu em 1936, em Akka, cidade litorânea no norte da Palestina. Teve privilegiado acesso à educação, mas foram o exílio e a vida precária nos campos de refugiados que o levaram a ampliar sua visão de mundo. Seus primeiros escritos literários vieram após ingressar na Universidade de Damasco. A partir daí, envolveu-se em movimentos políticos e ganhou destaque como porta-voz marxista na luta contra estruturas de dominação. Em 1955, no Kuwait, trabalhou como professor em campos de refugiados, onde conviveu com uma profunda tristeza ligada à condição de exilado e ao recente diagnóstico de diabetes. No mesmo ano, nasceu sua querida sobrinha Lamis, que se tornou uma grande interlocutora do autor.

A relação com ela foi fundamental para o mergulho na produção literária que veio em seguida. Insatisfeito com o trabalho e o alcance dos seus textos jornalísticos, passou a dar maior peso político para a literatura quando Lamis perguntou por que ele não reduzia suas atividades revolucionárias para se dedicar mais às suas narrativas literárias. A jovem Lamis despertou em seu tio a vontade de que as histórias que ele criava fizessem parte de uma causa comum.

Formas de existir

O que Ghassan Kanafani quis dizer ao presenteá-la com a história de uma princesa que precisa levar o Sol para o palácio? Ele era um crítico incisivo dos sistemas dominantes e suas formas de organizar as sociedades contemporâneas — e buscou combater modelos enrijecidos que impõem uma única forma de existir.

Com O pequeno lampião, descobrimos que a configuração deste mundo está na iminência da morte. Constatamos, então, a possibilidade de um outro mundo, vislumbrado pela inocência, incerteza e criatividade das crianças; um mundo onde os muros não fazem sentido, onde cada pessoa tem igual importância para a existência conjunta. Nesse outro mundo, o povo se aproxima e ocupa o espaço das decisões políticas e não há quem não se sinta parte do todo, afinal, distinguir o próprio caminho não o muda — o que o modifica é ofuscar os percursos solitários e iluminar os coletivos. O pequeno lampião nos resgata da nossa arrogante maturidade para observar o desejo despretensioso das crianças, do qual nascerá a força capaz de mover o Sol e dar um sentido comum à vida humana.


Ghassan Kanafani com sua sobrinha, Lamis [Divulgação]

Em 1972, Kanafani, aos 36 anos, e Lamis, aos 17, foram assassinados por milícias israelenses. Uma bomba foi colocada em seu carro. A tentativa de silenciá-lo não eliminou seus princípios, que inspiram gerações dentro e fora da Palestina.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Mariane Gennari

Historiadora, organiza o Clube de Leitura Mundo Árabe e Diásporas

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.