Literatura, Literatura infantojuvenil,

Magia ancestral

Ganhadora do Nebula Award, escritora indígena entrelaça vampiros com a história de resistência do povo lipan apache

01out2022 - 04h51 | Edição #62


Ilustração de Rovina Cai [Divulgação]

Muitos leitores acostumados a ler mais do que a média nacional deverão passar a vida toda sem nunca ter apreciado um livro de autoria indígena. Talvez por não se preocuparem em buscar outros pontos de vista para as histórias que consomem, ou por acreditarem que autores indígenas não escrevem o tipo de conteúdo de que gostam. Quando falamos de ficção especulativa, isso é ainda mais evidente. Dificilmente os fãs desse gênero lembrarão de algum autor indígena. Apesar dessa falta de visibilidade, felizmente temos alguns títulos incríveis publicados no Brasil (e outros chegando). Um deles é Elatsoe: o segredo ancestral, romance de estreia da autora Darcie Little Badger, do povo lipan apache, que nos leva a uma fantasia urbana cheia de mistério, aventura e conexão com um passado de resistência. É um livro escrito para o público jovem adulto, mas que deve ser lido por pessoas de todas as idades.

A autora, que venceu recentemente o Nebula Awards — um dos maiores prêmios da ficção científica do mundo —, disse em seu discurso que, quando criança, não ouvia sobre seu povo na escola e também não encontrava obras ligadas às culturas indígenas na seção de ficção científica da biblioteca do colégio, que ela consumia vorazmente. Por isso, decidiu escrever sobre jovens lipan apache com a esperança de que a iniciativa lhes desse força e orgulho diante de um mundo que tenta apagá-los.

A tradutora indígena Bruna Miranda consegue transmitir a escrita fluida e veloz da autora

E assim somos apresentados a Elatsoe, ou Ellie, como prefere ser chamada a garota de dezessete anos que herdou o mesmo dom de todas as mulheres da sua família: a capacidade de trazer à vida os espíritos de animais mortos. Por isso, desde pequena, Ellie vive acompanhada de Teddy, um cachorro espectral, a única parte que restou de seu animal de estimação. Apesar da familiaridade com espíritos, os de humanos são considerados perigosos, instáveis, e é preciso manter uma distância segura deles — o que não impede que Elatsoe faça pequenos e arriscados experimentos.

Quando descobre que seu primo perdeu a vida em um acidente, a conexão com os espíritos a faz entender que existe algo muito mais sinistro envolvendo a morte do rapaz. Decidida a encontrar respostas, a protagonista embarca em uma viagem para a macabra e pacata cidade de Willowbee, um lugar fictício, mas inspirado em várias cidades ricas do interior do Texas, onde a autora cresceu. Lá, Ellie encontra um clã poderosíssimo de vampiros. Vale notar que essa história de mistério se passa em uma sociedade não tão diferente da nossa, mas com a magia intrincada no modo de vida. Assim, vampiros, espíritos e anéis de fada usados como meios de transporte são fios comuns da trama.

E tão intrincada quanto a magia e o mistério da história são a cultura e a ancestralidade lipan apache, que são a essência da protagonista. É com os ensinamentos e a sabedoria de uma ancestral homônima a ela que Elatsoe busca enfrentar as forças terríveis que se apresentam no caminho, sem abandonar a impulsividade comum da adolescência. Inclusive, é essa cultura, que se mescla tão perfeitamente ao enredo, que traz o ponto de vista único de autores indígenas: a capacidade de contar qualquer tipo de história, de existir em qualquer contexto, sem deixar de carregar aquilo que os faz indígenas.

História de um povo

Darcie Little Badger usa de forma sagaz a história de seu povo, ligada à migração forçada dos lipan apache devido a invasões e conflitos com os colonizadores. Foram anos de resistência, de travessias para o território que futuramente seria chamado de “México”, de sobrevivência aos internatos católicos — criados para extirpar a língua, a cultura e o modo de vida indígena — até a volta ao seu lugar de origem. Graças a isso, todo o território texano é também originário desse povo. Então, quando, em um dos momentos mais marcantes da narrativa, Ellie expulsa um vampiro de seu território ancestral — como expulsaríamos alguém que não é bem-vindo em nossa casa —, esse é o conteúdo implícito que a autora apresenta, misturando de forma inteligente e impactante o contexto histórico com a fantasia.


Ilustração de Rovina Cai [Divulgação]

O livro é acompanhado pelas ilustrações de Rovina Cai, responsável pela imagem da capa, que transmite a conexão por gerações entre as mulheres lipan apache. Cada capítulo começa com uma imagem de traços delicados e sensações quase oníricas, enriquecendo o imaginário do leitor. O cuidado editorial transparece também na versão para o português, da tradutora indígena Bruna Miranda, que além de fazer uma adaptação respeitosa, consegue transmitir a escrita fluida e veloz de Darcie.


Ilustração de Rovina Cai [Divulgação]

Pode-se dizer que Elatsoe é um livro rico desde o princípio. O próprio nome da protagonista é carregado de sentido: é uma homenagem ao nome da avó da autora, e significa “beija-flor” na língua de seu povo. É um livro de fantasia recheado de suspense, daqueles que se acompanha para descobrir o assassino no fim; mas o que se tira da história é a prova de que, mesmo invisibilizados, escritores indígenas têm universos originais e únicos para nos apresentar.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Mayra Sigwalt

É ativista e escritora e indígena

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.