Literatura infantojuvenil,

Leitores de carteirinha: agosto 2023

Jovens frequentadores de bibliotecas comunitárias resenham seus livros preferidos

01ago2023 - 16h00 | Edição #72

Gabriela Marques Costa, 17 – Salvador (BA)

William Shakespeare. A megera domada.
Tradução de Millôr Fernandes • L&PM • 144 pp • R$ 24,90

O livro é perfeito, já li várias vezes e nunca me canso. A história é engraçada e divertida. O livro é sobre duas irmãs: Catarina, a mais velha, e Bianca, a mais nova. Catarina é mal educada, agressiva, antipática. Já Bianca, delicada e formosa, tem muitos pretendentes, mas, pela lei da época, a irmã mais velha deveria se casar primeiro. Mas, com o histórico de Catarina, não seria fácil achar um marido para ela.

Então entra em cena Petrúquio, homem rústico e bruto, designado por Lucêncio, pretendente de Bianca, e por Trânio, seu criado, para se tornar marido de Catarina e assim tirá-la do caminho. Petrúquio aceita a proposta, interessado na riqueza da família.

O primeiro contato entre Catarina e Petrúquio foi bizarro: ela joga um objeto nele depois de poucos minutos de conversa, quando ele tenta beijá-la. E a história segue, com o ousado Petrúquio tentando domar Catarina.

Machismo

Enquanto lia a obra, notei que em alguns capítulos o machismo é bem presente nas frases e ações de Petrúquio, que deixa Catarina sem comer e sem dormir. Eu tive em conta que A megera domada foi escrita no final do século 16, quando as esposas realmente eram consideradas propriedades dos maridos. Apesar da relação de Petrúquio e Catarina ser bem desajeitada, é possível dar várias risadas com o arco de Bianca, especialmente com as artimanhas de Lucêncio e de Trânio. 

E, no final do livro, quando Petrúquio finalmente “domina” Catarina, ele debocha dela dizendo: “Estou assombrado, minha senhora, está domada!” E a manda ir para o quarto. Catarina vai, mas diz: “Ah, o poder… Quanta ilusão!” e acaba deixando no ar um gostinho da antiga Catarina.

Rafael Sales, 18 – Belém (PA)

Michelly Múrchio. Zonas frias: poemas.
Editora Cejup – A Casa do Livro Jurídico • 77 pp • R$ 19

O livro Zonas frias é uma coletânea de 25 poemas contendo sentimentos e expurgos em “estado de graça”, como descreve a autora Michelly Múrchio. Ela é formada em letras pela Universidade da Amazônia, no Pará — na qual ela também lecionou — e tem pós-graduação em artes pela Universidade Candido Mendes. Ela atua como jornalista, como âncora de telejornais — primeiro em Belém e, hoje, em Florianópolis.

O livro foi publicado na capital paraense em 1999 e transgride as convenções e os limites por puro prazer, deixando um rastro de sensualidade e de ternura.

Em Zonas frias é possível encontrar grandes poemas da poeta, como “Insólito”, “O beijo” e “A palavra”. Seus poemas são introspectivos e líricos ao mesmo tempo, e o leitor pode facilmente se identificar com as suas emoções. É, sem dúvida, uma leitura essencial para quem está interessado em literatura paraense.

Em alguns momentos, as narrativas de Michelly Múrchio podem parecer um pouco densas demais, mas isso é compensado por seu estilo único de escrita e pela profundidade dos temas que ela aborda. Zonas frias certamente não é um livro fácil, mas é, sem dúvida, um livro que fica na mente por muito tempo depois de terminada a leitura.

Agatha de Valença da Silva, 19 – Duque de Caxias (RJ)

John Green. A culpa é das estrelas.
Tradução de Renata Pettengill • Intrínseca • 288 pp • R$ 54,90/24,90

A culpa é das estrelas, do escritor norte-americano John Green, conta a história da Hazel Grace, uma adolescente de dezesseis anos diagnosticada com câncer no pulmão, que consegue sobreviver graças a uma droga que detém a metástase. O livro é cheio de reflexões filosóficas e de metáforas que ajudam a ter uma visão diferente sobre a vida, como a do namorado da protagonista, Augustus Waters, um ex-jogador de basquete que perdeu a perna para o câncer. Augustus coloca um cigarro na boca, mas não o acende: “Coloque aquilo que pode te matar entre os dentes, mas não dê a ele o poder de te matar”.

O livro — que ganhou uma versão para o cinema em 2014, dirigida por Josh Boone — nos fornece uma perspectiva linda: a de que não importa quanto tempo tem o nosso “infinito”, ele só valerá a pena se nos permitirmos vivenciar coisas boas.

A culpa é das estrelas é o meu livro preferido entre todos os que John Green já escreveu. Ele nos permite experimentar diversas sensações e sem dúvida provoca muitas lágrimas. 

Uma das citações dele que eu gosto muito é: “Mas é da natureza das estrelas se cruzar, e nunca Shakespeare esteve tão equivocado como quando fez Cássio declarar: A culpa, meu caro bruto, não é das nossas estrelas, mas de nós mesmos”.

Nota da redação
A Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) é um dos projetos mais importantes de articulação entre leitores e bibliotecas no Brasil. Publicamos aqui resenhas de livros escolhidos por jovens que frequentam a Biblioteca Comunitária Sandra Martini (BA), a Biblioteca Comunitária Rio de Letras (PA) e a Biblioteca Comunitária Josimar Coelho da Silva (RJ). Contamos com eles para manter acesa a chama da leitura! Conheça e saiba como apoiar a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias no site rnbc.org.br e a ong Vaga Lume no site vagalume.org.br.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Marques Costa

Agatha de Valença da Silva

Rafael Sales

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.