Literatura infantojuvenil,

Acervo em chamas

HQ francesa traz uma provocação questionável: se incêndio do Museu Nacional em 2018 foi proposital

05out2023 - 14h56 | Edição #74

Na noite de 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ardia em chamas, e eu, em São Paulo, chorava como se o incêndio estivesse acontecendo na minha própria casa. Carioca, eu passei a infância brincando nos jardins da Quinta da Boa Vista, onde visitei tantas vezes o museu, cujo acervo eu conhecia de trás para a frente. Eu gostava de decorar os nomes impressos em etiquetas amareladas e datilografadas dos mais estranhos animais expostos nas vitrines enquanto conversava com as múmias e dava um jeitinho de tocar discretamente no meteorito do Bendegó.

Foi um caminho natural me formar em museologia. Passei por museus de arte e de ciência e experiências na área de restauração, mas minha maior emoção foi montar uma exposição no Museu Nacional. Em 2004, a mostra “Em busca dos dinossauros” recebeu mais de 50 mil visitantes, deixando claro que a instituição, mesmo lutando com problemas de infraestrutura e orçamento, permanecia como uma referência positiva e uma experiência de conhecimento e descoberta para muita gente.

Hoje, cinco anos após o incêndio que destruiu o prédio histórico e quase todos os 20 milhões de itens que formavam seu acervo, a editora Amelì lança no Brasil a HQ Fechamos, escrita por Gilles Baum e ilustrada por Régis Lejonc, ambos franceses, publicada originalmente em 2020, na França, pela Les Éditions des Éléphants.

Além de reviver a noite da tragédia, o livro me fez refletir sobre o papel dos museus na atualidade

Direcionada ao público infantil, a obra é o terceiro título da Coleção da Cigarra, com curadoria da jornalista e especialista em literatura infantil Daisy Carias, que objetiva abordar assuntos polêmicos e políticos, que devem ser debatidos e confrontados para formar leitores sensíveis e humanos. Os títulos anteriores da coleção já foram publicados no Brasil, também pela editora Amelì: A guerra, de José Jorge Letria e André Letria (2019), e Clara e o homem na janela, de María Teresa Andruetto e Martina Trach (2020).

Na trama do recente Fechamos, atravessamos as salas do Museu Nacional com o vigia Edson Arantes na véspera do incêndio e somos confrontados com a possibilidade de que as chamas não tenham sido acidentais. É uma provocação forte, que passa por temas como a apropriação/resgate de peças significativas do acervo. Quem escolhe o que é ou não digno de ser salvo? Haveria um caminho “mais correto” para uma escolha desse tipo? 

O recurso provocativo talvez seja lido por alguns como radical, violento e até criminoso. Outros poderão interpretá-lo como um ato disruptivo, necessário para que se construa uma nova narrativa social. 

Reparação histórica

Além de reviver a noite da tragédia, o livro me fez refletir sobre o papel dos museus na atualidade. É cada vez mais frequente o questionamento sobre a legitimidade dos acervos de grandes instituições, como Louvre e British Museum. Sabemos que nenhuma peça chegou às vitrines sozinha, foi sempre levada por alguém e está ali para contar uma história. E qualquer história parte de um ponto de vista. O que está em jogo nessa discussão contemporânea é saber se faz sentido manter narrativas de conquistas coloniais que descrevem o mundo a partir do referencial dos invasores. 

Não é mais possível visitar esses museus sem sentir algum desconforto, e isso faz com que algumas instituições se mobilizem para devolver peças ao país de origem, em um movimento importante de revisão e reparação histórica. Um povo precisa da própria memória para, a partir dela, poder escrever seu futuro. Alguns países resistem a compreender esse momento, que estabelece novas dinâmicas de poder e posicionamento geopolítico. Os museus, portanto, têm claro papel político.

O Museu Nacional contava a história da imensa aventura da vida sobre a Terra, desde o surgimento dos primeiros organismos unicelulares até as complexas sociedades humanas. Algumas peças ali expostas também chegaram por caminhos questionáveis, como o acervo egípcio e a coleção de arte etrusca. Outras vieram pelas mãos de pesquisadores, como os artefatos de povos originários e populações africanas, além dos fósseis, pois o museu é também uma importante instituição de pesquisa ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Todas as instituições contemporâneas devem se perguntar se os diversos segmentos da sociedade se sentem representados e respeitados por sua linha museográfica. É papel delas se abrir a novos olhares e buscar discursos mais plurais, ampliando o debate público. Um caminho nem sempre fácil, mas fundamental não apenas para os museus. Talvez seja esse o desejo dos autores de Fechamos: questionar a representatividade do museu e como todas as peças nele reunidas estavam dialogando com a população brasileira e que história contavam sobre nós. 

A museologia trabalha com a preservação e construção da memória, jamais com sua destruição. Se a estátua do bandeirante Borba Gato, localizada na avenida Santo Amaro, em São Paulo, é ofensiva, talvez retirá-la do contexto de homenagem e recontar sua trajetória de violência seja mais eficaz do que acabar com ela.

Quem escreveu esse texto

Daniela Martins

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.