Literatura brasileira,

Um inventário de cacos

No romance de estreia de Marana Borges, nem a distância geográfica é capaz de afastar a narradora da sua casa de infância

01jan2022 - 05h51 | Edição #53

No poema “Liquidação”, de Carlos Drummond de Andrade, uma casa vendida é apresentada em contiguidade com os elementos que ocupavam seu interior, como móveis, lembranças e pesadelos. A “vista de mundo”, como diz o poeta, das primeiras janelas costuma exercer efeitos tão duradouros quanto difíceis de nomear e distinguir. É uma dificuldade dessa natureza que move Mobiliário para uma fuga em março, o primeiro romance de Marana Borges (ganhador do prêmio Minas Gerais de Literatura), enfrentada pela narradora, que reúne um inventário de restos materiais e intangíveis da casa de sua infância.

Para executar o levantamento da propriedade, a forma romanesca é esgarçada e fragmentada. A organização nebulosa talvez represente a confusão experimentada pela narradora, que volta ao lugar onde viveu por tanto tempo e tem de acertar as contas com o passado. Os blocos de texto em prosa — sem parágrafos, com uma pontuação aplicada de modo insólito — e os versos livres são mediados por espaços vazios, o que remete à sensação de encaixotamento, como se objetos quebrados fossem guardados junto a coisas conservadas integralmente.  

A estrutura narrativa se revela aos poucos, embora permaneça aberta a diferentes interpretações. Nota-se a predominância da casa em São Paulo, ambiente da infância, adolescência e juventude da protagonista, e as referências a um passado mais recente, momento em que a personagem mora em Lisboa. A partir de determinado ponto, um andamento predominantemente cronológico é estabelecido, de modo que a história da narradora caminhe linearmente, partindo da coabitação com a mãe e o irmão até o momento em que sua tão desejada fuga efetivamente acontece. De modo geral, o texto é construído com o presente, o que poderia ser entendido como uma tensão entre a progressão temporal e a manutenção de certa atualidade do passado. 

Os fragmentos de lembranças familiares da narradora dão a ver uma mãe rígida e cruel. Entre a protagonista e o irmão mais novo parece haver cumplicidade na infância, diluída por um afastamento silencioso na adolescência e abalada pelo ciúme que a mãe sente do caçula. Pontualmente aparecem gestos de uma estranha doçura, como na recordação de uma rara cena de carinho materno: “Enche-me desse remédio agrícola. As tuas enxaquecas, ela diz. Deita-me e me aconchega nas cobertas”.

Roteiros de fuga 

A densidade da atmosfera que corria dentro da casa é recorrentemente ilustrada com referências espaciais. Nas primeiras páginas a narradora menciona que um muro foi levantado num terreno baldio nos fundos da casa, imagem reincidente na história, e pode remeter ao caráter inacessível da mãe. Os três habitantes do lugar são descritos como “tampas incorretas que encaixam mal às respectivas caixas”, indicando uma sensação geral de desajuste. 

O encaixe malsucedido reflete-se numa aspiração de fugir daquele lugar, transmitida de uma geração a outra. Ao longo da infância da narradora, a mãe nutre o hábito de imaginar a vida ambientada em locais diferentes daquele onde efetivamente vive, sempre insistindo no desejo de ter uma casa na praia. Quando o filho se muda para os Estados Unidos, ela passa a alimentar o desejo de seguir os passos do caçula. Já a protagonista atravessa o oceano Atlântico e vai para Portugal. A distância, no entanto, não é capaz de afastar completamente: “Fui a Lisboa, mas a chave de casa andou sempre comigo”. 

Partir é imperativo e, ao mesmo tempo, impossível. Longe de casa, ela não consegue encontrar morada, porque algo sempre inviabiliza escolher um lugar para ficar. Resta a impressão de que alguma coisa essencial foi esquecida, uma falta que fecha as portas do futuro ao passo que o rancor mantém o passado próximo demais. Outra palavra frequente no livro é carretel, referência à mãe que costurava, e também nesse caso a repetição parece indicar algum significado oculto, uma linha que a prende ao local de origem.

No livro, a família não oferece direcionamentos para a vida que transcorre fora de casa 

O desvirtuamento sintático característico do texto é explicado como sintoma dos impasses em organizar o relato familiar: “Farei o registro do que aconteceu nesta casa mas respeitando quem não quer falar e quando abeirar-se o nome exato da catástrofe então rebentando o verbo quebrando a sintaxe o metro rompendo tropeçando nas caixas afastando em verso o que a vida testemunhou no tato”. A vistosa estilização formal seria, então, consequência da intrincada teia de fios que liga a narradora à mãe, ao irmão e à propriedade e da dificuldade própria do decreto de fins. 

A família em Mobiliário para uma fuga em março não oferece direcionamentos para a vida que transcorre fora de casa; pelo contrário, é como se fosse uma âncora que impedisse deslocamentos. Presa ao fardo do legado familiar, a narradora tece a sua história com um tom doloroso e ensimesmado. Como um beco sem saída, a tendência solitária se retroalimenta da atomização na particularidade dos próprios sofrimentos.

A clausura de uma primeira pessoa sem exterior soa como um componente importante da representação da infelicidade no romance. Pensando em como as formas de contar uma história podem testemunhar as condições de existência de determinado tempo, o encadeamento fragmentado talvez se ligue a uma desorientação difusa na decodificação dos pontos cardeais. Sem uma bússola confiável, não é possível comprometer-se com escolhas, enquanto os caminhos para sair de casa são interrompidos antes que possam ser concluídos e as estradas para voltar desembocam no vazio. 

Quem escreveu esse texto

Iara Machado Pinheiro

É crítica literária, doutoranda em letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #53 em outubro de 2021.