A vida por um fio

Literatura brasileira,

A vida por um fio

Em 'Lia', seu primeiro romance, Caetano W. Galindo cria protagonista com a soma dos fragmentos de uma existência

19abr2024 - 17h50 • 28maio2024 - 16h58

Cem vistas do monte Fuji, obra da maturidade de Katsushika Hokusai (1760-1849), compõe-se de três volumes reunindo xilogravuras nas quais a montanha do título, um símbolo do Japão, é retratada em diferentes escalas. Em algumas, domina a cena; em outras, quase some. E, em certos casos, está mesmo ausente.

Não por acaso, o conjunto de álbuns do artista japonês foi parar no subtítulo do primeiro romance de Caetano W. Galindo. Exercício de aproximação semelhante é o realizado pelo tradutor, escritor e professor paranaense em Lia: cem vistas do monte Fuji.

O escritor, tradutor e professor Caetano W. Galindo (Sandra M Stroparo/Divulgação)

Assim como nunca podemos, nas gravuras de Hokusai, dizer que entendemos a completude do monte, não surge do livro de Galindo uma Lia inteira. Fica claro, porém, que é disso que se trata — oferecer uma visão fragmentária, ora mais próxima, ora mais distante, da protagonista. Quando estamos muito perto, não temos distância para ver o objeto em toda altura. Muito de longe, ele se perde na paisagem. Tanto mais no caso de Lia, uma “mulher comum”, fácil de confundir com outras (como de fato acontece aqui e ali no texto). Eis que aí, contudo, se opera a mágica. Página após página, Lia surge como indivíduo, cujas vistas vamos construindo a partir desses fragmentos.

Que, aliás, são pouco mais de sessenta, e nunca foram cem. Lia foi originalmente publicado como um folhetim em 99 capítulos. O projeto foi concebido pelo autor como uma contribuição para o nascente jornal Plural, fundado em 2019 pelo jornalista Rogerio Galindo, seu irmão. Colunista político da Gazeta do Povo, Rogerio havia sido demitido depois das eleições presidenciais do ano anterior.

O que une os capítulos breves e independentes é o fio dado pelo nome de Lia e a linhagem de mulheres que ela vai tecendo

Para cumprir com as características do gênero — a publicação em série e a possibilidade de começar a leitura em qualquer ponto —, os capítulos são breves e independentes. O que os une é o fio dado pelo nome de Lia e, aos poucos, a linhagem de mulheres que ele vai tecendo. Lia é mãe, é filha e é neta. Suas diferentes idades são apresentadas em vaivém. Ela cresce e volta a ser criança, envelhece, ganha profissão, amores e afetos, desafetos também.

Em meio aos pequenos acontecimentos narrados, reflexões sobre o tempo que passa, acenos à meditação (contrabandeados do zazen que o autor pratica), descrições de árvores e pássaros — ideias que poderiam nos jogar para longe de Lia e, paradoxalmente, dão a ilusão de falar sobre ela.

Afinal, como as aves que Hokusai enquadra em revoada nos fazem imaginar o monte como destino, o que não é Lia também é Lia. Justapondo quadros dos quais a personagem pode ou não fazer parte, o leitor também trabalha para compô-la. A contiguidade gera sentido. Nem tudo precisa ser explicado. A vida é essa somatória de momentos, cada um dos quais singular, como nos dizem os ideogramas, emprestados da cerimônia do chá, com que o autor encerra o livro.

Leia a seguir trechos da entrevista do autor à Quatro Cinco Um.

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A observação é um exercício fundamental para a arte como um todo, mas com frequência é nas artes visuais que ela se torna tema. É o que fazem o Hokusai do seu subtítulo, Cézanne com o monte Sainte-Victoire, ou Monet com a Catedral de Rouen e Giverny. Por que fazer um livro que não só se pauta na observação, mas a tematiza?
Eu nunca penso em mim como uma pessoa visual. Sou um camarada que funciona de ouvido, venho da música. Mas acho que um pouco é porque [a arte visual] é a metáfora mais simples quando a gente fala da percepção fragmentada de uma coisa. É difícil compreender um som de maneira parcial, mas uma entidade visual é fácil de você imaginar — ver de vários ângulos, ver de perto, ver de longe. Um pouco é isso que está ali.

A tematização que você menciona é a da impossibilidade de fornecer uma visão completa, interna, inclusive, daquela pessoa. Para quem gosta de literatura e mexe na teoria do romance, é o problema de sempre. A gente pode representar tudo por fora e a gente quer representar também o que está dentro. Eu estava um pouco do outro lado. Pensei: “Vamos tentar representar o não acesso” — o quanto a gente não pode ver, o quanto nossa percepção dos outros é parcial, é imperfeita, tortuosa, enviesada e o quanto isso, no entanto, não necessariamente impede que a gente crie uma relação.

Meu desafio era esse: tentar garantir que as pessoas criassem uma relação com a Lia sem oferecer muito do que os romances normalmente oferecem. Um pouco vem daí. O mesmo fascínio do Hokusai, do Monet: você olhar para alguma coisa que está mudando permanentemente na tua frente e percebe que a representação vai ser sempre um pedaço de um momento, não uma apreensão do todo.

Como as Cem vistas do monte Fuji não são todas do monte Fuji, nem tudo no livro é sobre Lia. Como aquilo que não é o objeto colabora para compô-lo?
Vindo do mundo do Joyce [como tradutor de Ulysses e outras obras do autor irlandês], eu achava que controle seria uma boa ideia. Cheguei a desenvolver uma cronologia da vida toda da Lia, pensei em listas de personagens que estariam em torno dela, mas rapidamente joguei isso fora e nunca mais consultei. Não passei dois anos imerso na Lia. Com muita frequência me desligava muito do projeto até domingo à noite. Só na segunda-feira de manhã que eu ia pensar “meu Deus, tenho que escrever uma Lia”.

O que eu acho que aconteceu é que, em vários sentidos, a Lia foi se aproximando de fatos da minha vida, marcas da minha vida em que eu ia pensando. A Lia pessoa, né? A Lia livro acabou virando uma espécie de diário. Houve muita edição, muita alteração e troca de ordem, para a publicação em livro. Mas, se olhar a coleção original, você meio que tem um mapa, cifrado, do que estava acontecendo comigo. O projeto foi se criando semana por semana, conforme o que eu estava a fim de fazer, conforme o que eu estava lendo, vendo, a música que estava ouvindo, os problemas que estavam na minha cabeça. E eu fui deixando.

A gente sempre pensa em “influências” como obras que transparecem no estilo do que a gente está fazendo. Mas muito da literatura do passado serviu para mim mais como “autorização”: aprender que tudo bem você fazer um livro que não tem um antecedente muito claro.

Uma das coisas que eu me permiti fazer foi justamente essa: não ter um plano. E as coisas começaram a variar. Eu tinha vontade de variar. Tem que ter primeira pessoa, tem que ter terceira pessoa, tem que ter infância, tem que ter meia-idade, o ponto de vista de alguém sobre ela, talvez o dela sobre alguém, o momento em que ela seja só vista, mas não ouvida, em que ela passe correndo pelas pessoas, tem que ter essa ideia equivocada de ouvir alguém descrevendo minuciosamente como se soubesse tudo dessa pessoa para de repente você descobrir que não, não era ela. Formas diferentes de explorar essa incognoscibilidade.

Uma pessoa é o efeito dela nas outras, a impressão das outras a respeito dela. O que não é ela também diz respeito a ela, nos permite conhecê-la ou formar alguma imagem dela.

Seu livro também trata de vários espelhamentos, muito bem construídos, na relação entre mães e filhas, que de repente se confundem, embaçando a visão do leitor. Por que uma protagonista mulher e por que essas relações?
O livro está ali, tentando conceber essa singularidade e, de repente, uma parte desse projeto da inacessibilidade é justamente entender quanto ela também tem de não singular, de confundível.

Essa coisa da linhagem das mulheres me interessa. Eu acho forte essa ideia da sucessão, neta, mãe, filha. Acho que pura e simplesmente as mulheres me interessam mais. São mais interessantes como objeto de observação. Sei lá de onde vem isso. Talvez do fato de que os homens sejam realmente mais simplórios e um objeto mais explorado pela eterna tradição “macha” da literatura.

E vem um pouco do fato de eu ter tido muitas tias, ter crescido num mundo cheio de mulheres. De ter uma filha que é muito parecida com a mãe, que é muito parecida com a mãe, que é muito parecida com a mãe. Essa imagem dessa linhagem de mulheres talvez tenha ficado na minha cabeça por causa disso.

Embaçar a perspectiva do leitor — não permitir um acesso direto — era um objetivo. E tem esses truquezinhos: a personagem que acha que conhece a Lia, você que acha que está vendo a Lia, mas está vendo outra pessoa, troca a mãe e a filha de lugar — atar as pontas da vida, isso me interessava o tempo todo. Confundir em vez de explicar.

Você tem uma produção literária variada, é tradutor, professor, estudioso da língua. Como isso influenciou o romance?
Traduzindo, você desmonta os romances, abre o capô, vê como eles funcionam. Afina os teus instrumentos, prepara as tuas ferramentas. Primeiro, [ser tradutor] me influenciou por me pôr em contato com muita coisa muito boa, muito complexa. Isso levanta o sarrafo. É uma libertação muito grande. Depois que você estuda Joyce a fundo, você tem total consciência de que jamais vai produzir literatura daquele nível. Isso é bom. Um leão a menos para tentar matar. Ficar no meu lugar, escrever o meu livrinho, do meu jeitinho.

‘Eu, que gosto do joguinho formal, vou me desinteressando de coisas que começam a ficar previsíveis, repetidas’

Mas, ao mesmo tempo, te dá essas autorizações. Tem uma coisa de milhagem de leitor, que todo mundo ganha lendo. Mas à medida que você começa a estudar, o processo se acelera. Você vai se desinteressando por formas cansadas. Eu, que gosto de forma, de estrutura, do joguinho formal, vou me desinteressando de coisas que começam a ficar previsíveis, repetidas. É engraçado, mas o que a tradução ou a literatura na universidade puderam fazer por mim foi um pouco me cansar de certas coisas.

Um pouco vai também da fraqueza de cada um. Eu não tenho imaginação para conceber enredos mirabolantes, talvez não tenha para conceber personagens profundos e complexos, relações entre personagens. O que eu consigo fazer é brincar com a forma da narrativa para encontrar novas maneiras de abordar essa coisa complexa que é uma pessoa. O que eu pretendo é tentar encontrar jeitos novos de causar um efeito na pessoa que está lendo. Isso é o que me interessa.

Quem escreveu esse texto

Francesca Angiolillo

Jornalista e escritora, é autora de Etiópia (7Letras).