Laut,

Golpe narrativo

Professor mostra que só a realidade não é suficiente para entender o que se passou no Brasil do bolsonarismo: é preciso apelar à literatura

27nov2023 - 15h50 | Edição #76

O professor de literatura João Cezar de Castro Rocha começa seu livro Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico fazendo algo a que quase todos nos acostumamos nesses anos difíceis que passaram: reclamando. Estudioso da mais alta literatura, especialista em Machado de Assis e em Shakespeare, tendo na prateleira inúmeras obras-primas literárias carregadas de sensibilidade e poesia, com um novo Ignácio de Loyola Brandão para ler e um antigo García Márquez para reler, o professor lamenta ter passado anos enfronhado nas narrativas do zap bolsonarista, atento à obra de Olavo de Carvalho.


Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico reúne artigos e entrevistas feitas por Castro Rocha 

Como se não bastasse obcecar acadêmicos da ciência política e da história, da filosofia e da sociologia, da comunicação e do direito, dos estudos militares aos de gênero, esse bizarro movimento político chamado bolsonarismo precisava também capturar a atenção de um pesquisador das belas-letras? No livro, Castro Rocha logo nos convence de que sim. Afinal, o bolsonarismo é tão incomparável a outros movimentos políticos, tão absurdo e extremo, que virou lugar-comum reclamar dos excessos e da falta de sutileza do “roteirista do Brasil”. Os estudos sobre a realidade não bastam para compreender o que se passou neste país: é preciso apelar à literatura. É o que Castro Rocha fez ao longo desses quatro anos, em artigos e entrevistas, agora reunidos neste livro.

A obra mostra que o golpe que sofremos também é narrativo. Bolsonaro conquistou o poder porque conseguiu convencer suficientes milhões de brasileiros a acreditar numa história — aquilo que o autor chama de “dissonância cognitiva coletiva”, construída por uma “midiosfera extremista” que operava (e ainda opera) uma “máquina incansável de fatos alternativos”. Castro Rocha define a guerra cultural como uma “matriz de produção em série de narrativas polarizadoras cuja radicalização crescente engendra sem trégua inimigos imaginários, mantendo a militância em estado permanente de excitação”. O bolsonarismo gestou um “Brasil Paralelo de milhões de pessoas”, num certo sentido, uma criação literária, que, apesar de carecer de estilo, foi inegavelmente bem sucedida.

Paralelos

Na falta de precedentes à altura no mundo real, o professor de literatura foi encontrar paralelos a Bolsonaro na obra ficcional dos autores que ele conhece melhor: Shakespeare e Machado. Do bruxo do Cosme Velho, relembrou de Simão Bacamarte, protagonista do conto cômico O alienista, o psiquiatra do interior que denuncia a loucura dos outros com tanta veemência que acaba internando a população inteira num hospício. Do bardo inglês, Castro Rocha foi buscar Ricardo iii, protagonista da tragédia homônima, governante cruel e obcecado pelo poder, pelo qual assassinou dezenas de pessoas, inclusive seus irmãos e sua esposa.

Assim, pela literatura, o autor conseguiu prever como o governo Bolsonaro acabaria com a presciência que faltou a alguns cientistas políticos. O que o ajudou foi lembrar que em O alienista Simão Bacamarte termina internado sozinho no sanatório que ele expandiu, prisioneiro de sua própria realidade alternativa. E que Ricardo III acaba igualmente sozinho, e sem poder, que não conseguiu sustentar por muito tempo tal a obviedade de sua maldade.

Um movimento político erguido sobre uma ficção não tem como resultar na boa gestão do real

Com base nesses exemplos literários, o autor prevê que “o êxito incontestável do bolsonarismo implica o fracasso incontornável do governo Bolsonaro” ou ainda “quanto mais impactante for o triunfo da guerra cultural, tanto mais desastrosa será a administração da coisa pública”. Está aí uma contradição intrínseca do bolsonarismo: um movimento político erguido sobre uma ficção não tem como resultar na boa gestão da realidade.

Ponto fraco

Ser especialista em literatura não torna ninguém imune ao poder envolvente de uma narrativa bem construída. Na página 111, em uma das entrevistas incluídas no livro, Castro Rocha diz ao repórter que “nem mesmo a guerrilha armada [dos tempos da ditadura militar] tratava os generais como a milícia bolsonarista os trata”. Na época, o autor também havia comprando pelo valor de face a trama elaborada pelos militares, de fazer parecer que generais, Bolsonaro e seus seguidores fossem mesmo antagonistas, e não atores bem ensaiados a serviço de um mesmo roteiro.

As entrevistas, que ocupam quase metade do livro, acabam sendo o seu ponto fraco. Publicadas no calor da hora, sob o impacto dos choques diários produzidos pelo ex-presidente, elas frequentemente têm aquele tom atônito e indignado ao qual tantos de nós tivemos que recorrer. Faltou a elas a decantação que um beletrista deveria fazer, sintetizando à distância um período longo.

O livro inaugura uma trilogia que já está toda armada na cabeça do autor. Depois de Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico, virão Retórica do ódio: a pedagogia da desumanização do outro e Dissonância cognitiva coletiva: midiosfera extremista e metaverso, todos de títulos bastante autoexplicativos. Ao ler o primeiro volume, é possível intuir os outros dois, previsibilidade que pega mal para quem entende de literatura.

Ficou a sensação de que Castro Rocha acabou transformando o que poderia ser um livro em três, fatiando a história em fascículos, inflados pela reprodução de entrevistas dadas à imprensa sobre os mesmos temas tratados nos artigos. O resultado é que acaba se repetindo, com os mesmos temas sendo pisados e repisados. Podia ter seguido o exemplo de Machado, que, num texto do tamanho de um conto como O alienista fez caber um romance profundo sobre a natureza humana e os limites entre a razão e a loucura. Tema, aliás, sempre atual.

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Denis Russo Burgierman

Matéria publicada na edição impressa #76 em novembro de 2023.