Literatura,

Os templários e os pós-revolucionários

Transitando entre o policial e o histórico, novo romance de Padura tem como pano de fundo a Catalunha medieval e a Havana de 2014

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Contratado para encontrar um objeto desaparecido de grande valor, um investigador particular é enredado em trama de pistas falsas, mulheres sedutoras e mortes violentas. Não termina o trabalho ileso: toma uma coronhada na cabeça e, por pouco, escapa da morte. Poderia ser Sam Spade na obstinada procura pela estátua de um pássaro em O falcão maltês, pedra fundamental do gênero noir. Só que não estamos na San Francisco de 1930, mas em Havana, quase um século depois, imersos em A transparência do tempo. O ponto de partida e o desenrolar dos acontecimentos guardam semelhanças, e quem conduz a investigação em Cuba, o ex-policial Mario Conde, é bem diferente do detetive criado por Dashiell Hammett (1894-1961). Spade não para e pensa; age. O ensimesmado Conde, por sua vez, reflete o tempo inteiro. Mesmo durante uma perseguição, dentro de um carro em alta velocidade, divaga sobre o sentido da vida: “Círculos, voltas, cambalhotas das quais um dia escapa uma linha de força e tudo muda em alguns minutos ou, até, a gente vai à merda. Do nada”.  

Às vésperas de completar sessenta anos, o protagonista da obra de Leonardo Padura parece assombrado pela aproximação do que chama de “solidão final”. Se em romances anteriores — como nos quatro livros ambientados na capital cubana em 1989, reunidos em 2017 pela Editora Boitempo na coleção “Estações Havana” — Conde já imergia em reflexões ou reminiscências a partir do cheiro de papéis velhos ou de canções dos Beatles, agora o mergulho nas lembranças é mais profundo. E, com a técnica narrativa cada vez mais apurada, Padura expõe em minúcias as agruras de seu personagem enquanto a trama policial segue, sem pressa nem solavanco, pelas avenidas, vielas, palacetes e assentamentos de Havana. 

Mario Conde sente-se acossado pelo tempo, único oponente capaz de perturbar o sono depois de uma noite de sexo, rum e Creedence

Em artigo publicado no número 18 desta Quatro Cinco Um sobre Manuel Vázquez Montalbán — a quem atribui a criação de uma bússola do romance policial em língua espanhola a partir da publicação de Os mares do sul em 1979 —, Padura afirmou que, quando atinge a excelência, uma obra desse gênero é capaz de duplicar transcendência e influência. Ao discorrer sobre o que o encantou na obra do espanhol, o cubano delimitou o seu projeto literário: “Por meio da revelação de ambientes, personalidades, traumas sociais e conflitos individuais e de época, proporcionar buscas capazes de se impor ao simples e inteligente jogo da criação de enigmas”.

O que o autor propõe, então, vai muito além do enigma apresentado de largada a Conde: descobrir o paradeiro de uma imagem roubada, a Virgem de Regla, guardada por sucessivas gerações pela família de um velho amigo. Se Padura tivesse optado por descrever exclusivamente a busca do investigador pela efígie negra, a história caberia em pouco menos de duzentas páginas; seria um dos “romances esquálidos e comoventes” que o ex-policial tanto admira (e tenta escrever). Mas, como demonstrado nos caudalosos Hereges e O homem que amava os cachorros (este, com 70 mil exemplares vendidos apenas no Brasil), Padura concentra forças em objetivos mais grandiosos. 

Na reconstituição da trajetória da Virgem, por exemplo, o autor remonta aos tempos dos templários, entre os séculos 13 e 15, para recriar o cotidiano, as tensões e as expressões de fé em uma aldeia catalã. A incursão pela Europa medieval é apresentada em capítulos independentes dos que mostram, na Cuba de 2014, o avanço da investigação do sumiço da imagem. Padura alia, assim, pesquisa e imaginação para implodir as barreiras que separam o romance histórico do policial. A convicção na confluência de gêneros, sinalizada também por meio de citações de escritores tão diferentes quanto J. D. Salinger, Augusto Monterroso e Raymond Chandler, pode ser resumida em uma sentença que Conde profere a um antigo colega de polícia: “A vida é mais ampla do que a História”. 

Tempo e espaço

As conjecturas de Conde sobre o que o aguarda no futuro próximo, aguçadas pela iminência do seu sexagésimo aniversário, são pontuadas pelo fatalismo. As constantes e turbulentas evocações, ativadas pelo olfato e outros sentidos, se destacavam em A neblina do passado, lançado no Brasil em 2012. Em A transparência do tempo, por sua vez, o desassossego decorre das incertezas sobre o amanhã. 

Em várias passagens, Padura suspende a narrativa da investigação para externar a visão de Conde sobre o “nebuloso destino coletivo” reservado a ele e aos amigos de “tempos árduos”. Companheiros de uma geração de pessoas que “acreditaram, lutaram e depois não obtiveram muitas recompensas pelo sacrifício ao qual tinham sido sistematicamente convocados e, ocasionalmente, compelidos”. Cinquentões ou sessentões, vivem como podem, à beira do precipício da penúria econômica, temendo o “mais tétrico vazio”. Mario Conde sente-se acossado pelo tempo, único oponente capaz de perturbar o sono depois de uma noite de sexo, rum e Creedence. Enfrenta a perseguição incessante da versão duplicada de seu Moriarty particular: o tempo que passou, e o que virá.

O desencanto e o sentimento de inadequação se espraiam nas descrições de Havana. A precariedade “sem atenuantes” da capital, ainda fonte de lembranças e epifanias ocasionais, é retratada de forma corrosiva: “Bem observada, [a cidade] parecia acometida de lepra”. Amante de bolero e rock, Conde se incomoda não só com  o ruidoso reggaeton das ruas, mas também com a dificuldade de acesso à internet e o racionamento de comida. Desiludido, um de seus amigos justifica o desejo de ir para Miami: “Eu quero ter a possibilidade de experimentar e, se me deixarem, de escolher […]. Quase nunca pudemos escolher, tiraram nosso direito de errar”. Felizmente, o escritor (que até hoje vive na ilha, mas visita o Brasil com frequência) não perdeu a liberdade de se deslocar no espaço -— nem no tempo.  

Quem escreveu esse texto

Carlos Marcelo

Jornalista e escritor, é editor-chefe do jornal Estado de Minas.

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.