História, Literatura,

A ortodoxia cristã do Conselheiro

Voltam às livrarias os sermões que permitiram conhecer melhor as ideias do líder de Canudos

08nov2018 - 12h23 | Edição #2 jun.2017

Em boa hora é reeditado um dos dois sermonários atribuídos a Antonio Conselheiro, pela É Realizações, numa bela caixa ornamentada. O organizador é Pedro Lima Vasconcellos, da Universidade Federal de Alagoas, autor de livros sobre o tema.

É tão escassa a documentação proveniente do interior do arraial baiano de Canudos, deixada pelos vencidos, que esta edição vale um brinde. Como ninguém ignora, quase tudo o que se sabe provém dos vencedores, de testemunhas de fora, sejam militares empenhados em trucidar até o último homem ou mulher, sejam jornalistas que para ali se dirigiram como correspondentes de guerra. O pouco que restou “de dentro” praticamente se resume a algumas cartas, panfletos e quadrinhas de poesia, mísero butim de guerra remanescente entre escombros. Por isso, pode-se dizer dos manuscritos de Antonio Conselheiro que constituem um tesouro.

Os dois sermonários têm uma genealogia precisa e bem estabelecida, e sua importância assim o exige para determinar legitimidade. Respeitando a ordem cronológica, vamos chamar de “primeiro” aquele datado de 24 de maio de 1895 e intitulado Apontamentos dos preceitos da divina lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a salvação dos homens. Chamaremos de “segundo” aquele datado de 12 de janeiro de 1897, que traz um título  poético e barroco: Tempestades que se levantam no coração de Maria por ocasião do mistério da Anunciação.

Segundo sermonário 

O “segundo” surgiu primeiro. Devemos sua publicação a Ataliba Nogueira, em Antonio Conselheiro e Canudos: Revisão histórica (1974). Os especialistas sabiam há tempos que o sermonário, encontrado pelo sextanista de medicina João de Souza Pondé no Santuário — onde residia o Conselheiro, dentro de Canudos — quando a guerra terminou, fora oferecido a seu colega Afrânio Peixoto, que o doara a Euclides da Cunha. Esta linhagem está inscrita no início do volume. Tempos depois, passara às mãos de Aristeu Seixas, presidente da Academia Paulista de Letras, que o encontrara num sebo, e pertencia agora a suas filhas. Foram elas que permitiram a publicação. A meu pedido, o bibliófilo José Mindlin entrou em contato com as herdeiras e mostrou interesse em adquirir o manuscrito, mas as negociações não foram avante.

Ataliba Nogueira tinha fotografado o livro e encadernado as fotos página por página, e foi esse exemplar que me mostrou quando fui procurá-lo em sua casa de São Paulo por encargo de José Calasans, o imbatível pesquisador firme no propósito de que esse material viesse à luz. Calasans foi a maior autoridade nesse campo, e desde os anos 1950 frequentava Canudos, entrevistando sistematicamente sobreviventes e descendentes. A esse respeito, é impressionante que, além de travar amizade, tenha conseguido muitas horas de depoimento de um dos homens fortes do Conselheiro, Pedrão, um dos doze membros da Guarda Católica que comandava as hostes canudenses.

Tivemos a sorte de que a publicação fosse feita por um católico praticante e conhecedor da doutrina como Ataliba Nogueira. Por isso, seus comentários são eruditos e preciosos. Ruiu por terra a concepção, até então predominante, de que Antonio Conselheiro fosse um herege e de que os canudenses fossem fanáticos, afirmação que felizmente saiu de moda. Ao contrário, garantiu o editor, expondo argumentos, sua ortodoxia é impecável.

O sermonário traz quase que exclusivamente súmulas de sermões e resumos dos Evangelhos, mostrando forte influência de um devocionário para apostolado laico em voga no sertão à época, a Missão abreviada.

A esse conjunto agrega-se o sermão “Sobre a República”, em que o Conselheiro se declara leal ao príncipe d. Pedro 3º, filho da princesa Isabel. A veneração à princesa deriva da Lei Áurea, que tanto beneficiara a grei do Conselheiro: seu séquito era integrado, como hoje se sabe, por muitos ex-escravos, os temíveis treze-de-maio, não mais subservientes e prestimosos. E os inimigos são os maçons, os protestantes, os judeus e os republicanos.

Primeiro sermonário

O primeiro manuscrito, que é objeto desta reedição, chegou às mãos de José Calasans por via dos herdeiros de Aloísio de Carvalho Filho, professor da Faculdade de Direito da Bahia, que o encontraram em seu espólio. Repousa no Núcleo Sertão, da Universidade Federal da Bahia, criação de Calasans, que lhe doou toda a sua coleção ímpar de 4 mil itens de memorabilia. Tomado por numerosos trabalhos, jamais o editou, e explicava que não via nele interesse por ser quase igual ao outro.

Mas um dia Fernando da Rocha Peres, da mesma universidade, me propôs a edição, que fizemos juntos, publicando excertos dos sermões transcritos num volume intitulado Breviário de Antonio Conselheiro (2002). Dada a quantidade de páginas, perto de oitocentas, decidimos publicá-las escaneadas em um CD-ROM, encartado no volume, com um estudo de cada coorganizador.

O conteúdo desse CD agora é publicado integralmente em edição impressa, naquilo que em terminologia profissional se chama uma edição diplomática e fac-similar, ou seja, com fac-símile do documento original e a transcrição completa na página ao lado. Um volume à parte traz estudo do organizador.

Quanto aos sermonários, o nome científico usado pela ecdótica é “apógrafo”, ou seja, nenhum dos dois é escrito pela mão do autor, mas, como se diz, é de segunda mão. As prédicas do Conselheiro eram presumivelmente registradas pelo guarda-livros da casa de comércio de Honório Vilanova, um dos maiorais de Canudos. O escriba chamava-se Leão da Silva, era originário de Natuba (hoje Nova Soure, BA) e “tomava ditado” de seus ensinamentos, com caligrafia clara e caprichada. Se for mesmo verdade, a ele somos gratos.   

Quem escreveu esse texto

Walnice Nogueira Galvão

Organizou a edição crítica de Os Sertões (Ubu), de Euclides da Cunha.

Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.