Jornalismo,

Unicórnios reluzentes

Exposição dos adolescentes à pornografia cria uma imagem distorcida da vida sexual, com efeitos devastadores sobre a autoestima das garotas

15nov2018 - 18h40 | Edição #9 mar.2018

Em Atenas, as mulheres não têm gosto ou vontade — elas têm medo, apenas. Vivem por seus homens, se perfumam, se banham, se arrumam, sofrem. E, mesmo quando eles querem arrancar, violentos, carícias obscenas, elas não fazem cenas, mas se ajoelham, obedientes. O retrato que Chico Buarque imaginou da capital grega na sua canção Mulheres de Atenas, de 1976, e que alertava para os danos da submissão feminina, não difere muito do contexto atual dos Estados Unidos. Lá, as meninas ainda estão se anulando em favor de seus parceiros casuais, confusas quanto aos seus próprios quereres e direitos.

É essa a principal conclusão de um longo levantamento feito pela jornalista Peggy Orenstein, no qual ela entrevistou setenta jovens americanas entre 15 e 20 anos, e que resultou no livro Garotas & sexo. O prefácio da edição nacional, da psicanalista Regina Navarro Lins, avisa que as jovens ouvidas por Orenstein “se assemelham” às meninas daqui — talvez como efeito da globalização e da internet.

O maior mérito deste livro brilhante é provar a crueldade de uma sociedade que impõe padrões a meninas, que virarão mulheres, que virarão senhoras, e que poderão, até nesta idade, não ter obtido uma resposta à colocação que faz uma das entrevistadas: “Minha vida toda é uma tentativa de descobrir do que eu realmente gosto”.

Até porque como é possível esperar que elas saibam o que querem se nem conhecem a si mesmas, se mimetizam as irreais estrelas de filmes pornô, universo, este, em que as mulheres sempre têm corpos perfeitos, sempre gozam (muitas vezes até ejaculam) e vivem a fazer manobras que em pouco parecem facilitar a chegada ao orgasmo se pensadas na vida real?

Trata-se de uma indústria global que movimenta US$ 97 bilhões. Será que interessaria a este mercado mostrar produções em que o sexo é sempre consensual e muitas vezes imperfeito, bem como as pessoas que escolhem praticá-lo? Pouco provável. E, quando se descobre que mais de 40% das crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos já foram expostas à pornografia on-line, muitas por acidente, qual é o produto que se obtém?

Depressão, redução da função cognitiva, nota média mais baixa, imagem distorcida e monitoramento do corpo, transtornos alimentares, comportamento sexual de risco e redução do prazer sexual, conforme mostra relatório da Associação Americana de Psicologia. O consumo regular de pornografia pelos garotos também foi relacionado a uma visão de que o sexo é algo puramente físico, e de que as mulheres são “brinquedos”.

“Racionalmente eu sabia que não havia uma conexão entre eles assistirem pornografia e alguma falha minha. Mas isso ficou na minha cabeça”, confessa uma entrevistada ao se comparar às mulheres a quem os colegas dedicam sua masturbação. Não é de admirar que tenhamos em todo o mundo uma juventude hipersexualizada, na qual as garotas sofrem uma pressão absurda para reduzir seu valor a seus corpos e vê-los como um conjunto de partes que existem para o prazer dos outros.

Ser ‘gostosa’ é algo que elas mais do que desejam. E quanto mais veem fotos das outras, mais infelizes ficam

Ser “gostosa” é algo que elas mais do que desejam — elas acham que precisam. Em tempos de Instagram, quando o corpo feminino é um produto comercializado conscientemente, amigos se tornam um público a ser conquistado e comentários nas fotos se transformam em medida de amizade e amor próprio. Para Orenstein, quanto mais as garotas veem fotos das outras, mais infelizes ficam em relação à própria aparência.

A crueldade da equação só aumenta quando se prova que, ao decidirem se expor e “oferecer seu corpo à inspeção dos outros” em imagens sensuais, as meninas acabam julgadas e detonadas — inclusive por outras meninas — por causa das atitudes que tomaram para obter aprovação.

E a mesma plateia feminista se divide entre criticar e exaltar a conduta de estrelas pop que dizem empunhar a bandeira do empoderamento, como Miley Cyrus e Beyoncé. A autora se pergunta se tais artistas alimentam a indústria ou se são elas próprias a indústria. É uma questão complexa que faz com que, nós, mulheres, batamos cabeça quando poderíamos nos unir.

Deveríamos oferecer educação sexual de qualidade às meninas falando não só de doenças, consentimento e estupro, mas também de satisfação e da importância do próprio prazer. A grande maioria das entrevistadas de Garotas & sexo diz que nunca ouviu dos pais grandes explicações acerca do clitóris e seu potencial de diversão.

“Garotas não recebem sexo oral, a não ser que estejam numa relação longa”, diz uma jovem que relata, para desespero de pais leitores, a explosão de adolescentes praticando sexo oral na América após o “episódio Clinton”. Segundo a autora, as meninas estão “tratando a felação como um aperto de mão feito com a boca” — como se botar na boca o pênis de alguém pudesse ser algo assim banal.

A prática é adotada pelas jovens quando elas querem “ser generosas”, “atrair e sustentar o interesse de um garoto” ou para “acalmá-lo”. Enquanto isso, os poucos que aceitam fazer sexo oral nas meninas o fazem por “meio segundo” e desistem, muitas vezes porque se dizem “enojados”. A necessidade de proteger o ego do parceiro aparece ainda como razão para que 70% delas finjam seus orgasmos.

Uma garota confessa que em suas aulas de gênero na faculdade costuma pensar sobre o “patriarcado maldito”, mas que na iminência das baladas “vai tudo à merda” e ela troca de roupa inúmeras vezes na frente do espelho antes de sair, se perguntando: “Essa saia deixa minha bunda bonita?”.

É a prova de que há ainda uma enorme incoerência entre o que as jovens querem ser e o que acabam sendo, seja porque se sentem impelidas, porque não receberam orientação suficiente em casa ou na escola, ou porque, diante de tanta informação, se veem perplexas, sem saber para onde correr — atender às expectativas do mundo ou aos anseios internos? “Me senti livre”, depôs uma garota ao contar que, cansada da pressão, surgia nas festas universitárias vestida de unicórnio reluzente. Talvez a solução nunca tenha sido tão simples — que, se necessário, sejamos todas nós, mulheres, lindos e libertos unicórnios. 

Quem escreveu esse texto

Marcella Franco

É jornalista e escritora.

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.