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Garota marcada

Romance rememora vida de militante comunista que sofreu justiçamento político por parte do PCB em 1936

23nov2018 - 10h34 | Edição #14 ago.2018

“A quem interessa contar essa história?”, pergunta, lá pela metade do livro, um personagem de Elza, a garota. Todo mundo — explica outra personagem, bem no final — deu um jeito de esquecer aquela história.

A história é a de Elza Fernandes — codinome de Elvira Cupello Colônio —, companheira de Antonio Maciel Bonfim, vulgo “Miranda”, secretário-geral do PCB em 1935, quando estourou a insurreição comunista no Brasil. A “intentona” fracassou e Miranda e Elza caíram rapidamente nas mãos da repressão política do governo de Getúlio Vargas. Miranda, extrovertido e falastrão, amargou quatro anos e meio de cadeia e saiu de lá destruído física e moralmente: perdeu um rim, contraiu doenças crônicas e a fama de delator. Elza foi libertada cerca de um mês depois da prisão e despertou a desconfiança do PCB: membros importantes da cúpula atribuíram sua libertação a uma possível traição, a julgaram e a condenaram à morte.

A sentença — um “justiçamento” — foi cumprida em março de 1936. Enquanto o partido executava Elza, a polícia continuava à cata dos responsáveis pelo levante e acabou por bater à porta atrás da qual se escondiam Luís Carlos Prestes e Olga Benário. Com eles, os homens de Filinto Müller encontraram cartas que confirmavam a condenação de Elza.

O medonho destino de Olga é conhecido. O de Prestes foi o cárcere: primeiro, pelo envolvimento com a insurreição; quatro anos depois e ao lado de outros seis membros do PCB, condenado pelo assassinato de Elza-Elvira. Em 1945, foram todos anistiados. Prestes viveu ainda por 45 anos e sempre negou envolvimento no crime. Mais frequentemente, dizem aqueles que o entrevistaram, evitava falar do assunto. A quem interessava, afinal, lembrar daquela história?

Interessou ao jornalista Sérgio Rodrigues, que, em 2008, publicou pela primeira vez Elza, a garota: a história da jovem comunista que o partido matou. O livro sai agora em reedição bem cuidada, cuja capa mostra, sobre fundo adequadamente vermelho, o desenho da cabeça de Elza, rosto composto pela junção de formas geométricas e cores variadas.

Rodrigues transpõe, para a trama, o jogo de sombras em torno de Elvira: as dúvidas sobre sua idade — morreu aos dezesseis ou aos 21 anos? —, sobre a cor de seus cabelos, sua transformação em Elza, a vida ao lado de Miranda, já homem feito, no umbral dos trinta, a alienação talvez infantil em relação ao frenético debate interno do partido, a prisão, a morte e o esquecimento.

O livro alterna seções ora em itálico, ora em redondo. Em itálico, registra as leituras históricas e historiográficas sobre os eventos que cercaram a breve vida de Elza — recriada ficcionalmente nas partes em redondo. Ou seja, a tipografia separa o que o livro tenta unir: história e ficção.

Fronteiras

Em geral, supomos que a fronteira entre as duas narrativas seja sólida, espessa e categórica; gostamos de acreditar, contra toda evidência, que a história continua a ser a “professora da Verdade” de que falou Cícero, e que nos ofereça a segurança necessária para controlar passado, presente e futuro. Os limites que as separam, porém, são tênues, porosos, não raro vazados pelas artes da memória e de sua infalível contraparte, o esquecimento. Elza foi (intencionalmente?) esquecida, mas, na ficção, Xerxes — codinome de um velhíssimo militante do partido — prefere lembrá-la: é ele que, na antessala da morte, convida o jornalista meio desempregado Molina a ouvir e escrever a história.

Em sessões regulares, Molina visita o apartamento do velho e ouve seu relato didático e paternalista. Sai de lá e segue sua vida, que inclui a vontade de virar escritor, amizades esquecidas e o namoro com Camila, estudante de história que tem metade da idade dele. Se o nome Molina evoca, para os leitores de Ricardo Piglia, o cansado editor que acompanha o início da carreira de Emilio Renzi, o de Xerxes é mais contundente e, na sua origem belicosa entre o persa e o grego, atesta a condição de guia. O Xerxes-personagem de Rodrigues é um guia convicto. Ele leva a geração de Molina — que um dia acreditou na transformação social, mas, derrotada, se desencantou e vez ou outra resvalou para a autoindulgência e o cinismo — a visitar um tempo em que os revolucionários nunca abandonavam, para o bem e para o mal, a certeza de que a história oferecesse um caminho definido e irreversível, e que coubesse a eles a função vanguardista de conduzir a sociedade na busca da paradisíaca estação derradeira.

A intensidade com que Xerxes recupera o passado, seus excêntricos hábitos domésticos e seu enlevo primeiro intrigam, depois arrebatam Molina, fazendo-o presa do discurso do velho e levando-o a buscar sinais que permitam reconstruir a trajetória de Elza: jornais, livros, depoimentos, entrevistas, lugares. O leitor, por sua vez, mesmo se igualmente envolvido pelo mistério da vida e da morte da garota, sente-se incomodado com a excessiva confiança de Molina nas afirmações de Xerxes, com a locução exagerada do velho, o caráter performático de sua fala, as interjeições que evocam nomes da tradição marxista, suas paixões e os gestos medidos.

A entonação algo artificial dos demais personagens também inquieta esse leitor. Molina, Camila, o gêmeo-inimigo de Xerxes, Rosa — sua filha e executiva da Luxemburgo Participações — e Franco, antigo amigo de Molina que ressurge do passado na condição de professor sedutor e picareta: todos resvalam no clichê, e só no final do livro, quando o quebra-cabeça lógico da narrativa vem à luz, é que se compreende a perigosa opção do romance de flertar com a caricatura.

Trata-se, afinal, de uma personagem principal que foi calada, enquanto a voz mais audível sai da boca de uma espécie de Tirésias vermelho — por ideologia e por amor —, que se transforma teatralmente na memória que quer preservar: a de uma menina que, viva, foi arrastada pela história, e que, morta, perdeu-se no vão da memória.

Burla

A ficção, sabemos, é parte contrafeita da história, seu negativo e revés luminoso, e depende do engano para alcançar a revelação. Elza, a garota recorre, por isso, à burla e às inversões, combina informações reais e dissonantes, conta uma história de amor entre escombros e, sobretudo, tenta preencher com a imaginação — tal como defende Xerxes numa das melhores passagens do livro — as lacunas do passado.

Tudo isso porque — mesmo que tenhamos aprendido desde a bela epígrafe do romance que nenhuma reparação é possível — nos interessa ler essa história.

Quem escreveu esse texto

Julio Pimentel Pinto

Professor de história da USP, é autor de A pista & a razão: uma história fragmentária da narrativa policial (Peixe-elétrico Ensaios).

Matéria publicada na edição impressa #14 ago.2018 em agosto de 2018.