Filosofia,

Vozes invisíveis

Mulheres, negros e índios incomodam os setores hegemônicos quando rompem o silêncio a que estavam condenados

13nov2018 - 14h16 | Edição #7 nov.2017

Representantes dos movimentos identitários costumam ser acusados de serem agressivos e autoritários por pessoas de todo o espectro político. Não raro, membros dos movimentos negro, feminista, indígena e LGBT são responsabilizados por supostamente tentar dominar o debate político e impedir que outras pessoas se manifestem acerca de questões que, em princípio, deveriam interessar a todos. É no mínimo curioso que aqueles que sempre tiveram dificuldade de ser encarados como sujeitos políticos sejam malvistos por se contraporem ao discurso hegemônico que sempre os excluiu.

Um dos motivos que levam à incompreensão da atuação dos movimentos sociais é a dificuldade que muitos têm para entender o conceito de “lugar de fala”, importante e caro às chamadas minorias, mas que, infelizmente, vem sendo distorcido tanto por ignorância quanto pela má-fé de quem se sente incomodado em deixar de ser a única voz dominante.

Em seu mais recente livro, a mestre em filosofia política e feminista negra Djamila Ribeiro discorre sobre esse tema ao abordar o percurso de mulheres negras, brasileiras e estrangeiras, não apenas na luta por direitos, mas na construção de saberes e de rico material intelectual que se contrapõem à ideia de que o único conhecimento válido é o eurocêntrico.

A partir do discurso proferido pela ativista e abolicionista afroamericana Sojourner Truth no século 19, Djamila mostra como a noção universal de mulher foi estabelecida com base no ideal das mulheres brancas. A imagem de fragilidade física, de dependência e de inaptidão para o trabalho que brancas europeias e americanas buscavam combater não servia às mulheres negras, que sempre foram vistas como mão de obra a ser explorada e não merecedoras de direitos sociais e políticos. A universalização da categoria mulher, construída de acordo com as vivências das brancas ocidentais, excluía, e muitas vezes ainda exclui, mulheres que não se encaixavam nessa categoria — negras, muçulmanas e indígenas. A luta pelo direito ao voto, para exercer outra atividade que não a doméstica, e pelo acesso à educação formal não só não representava outras mulheres, mas colaborava para o seu apagamento e invisibilidade política.

Feministas negras, como a escritora afroamericana bell hooks e a escritora caribenha-americana Audre Lorde, já falecida, dedicaram-se e ainda se dedicam a dar visibilidade à mulher negra como categoria política, transcendendo a autorização discursiva branca, masculina e heteronormativa que desconsidera determinadas identidades sociais e valida apenas o discurso hegemônico.

O discurso de quem sempre foi encarado como Outro tira os que se veem como sujeito de sua posição confortável

Outra autora citada por Djamila, a escritora francesa Simone de Beauvoir, é essencial para entendermos como a mulher nunca foi pensada a partir de si. A partir da noção de Outro, cunhada em O segundo sexo, Beauvoir constrói a ideia de que a mulher foi constituída como um objeto que não é definido em si mesmo, mas em relação ao homem e através do olhar dele. Para a francesa, o mundo não é apresentado às mulheres em todas as suas possibilidades, e elas estão sempre em um papel de submissão em relação aos homens, esses, sim, os verdadeiros sujeitos.

A artista portuguesa Grada Kilomba retoma o conceito de Outro de Beauvoir para pensar a mulher negra, que seria o Outro do Outro, posição que a deixaria em um vácuo, em uma situação de antítese da branquitude e da masculinidade que impede que enxerguemos a mulher negra em uma categoria de análise. Nesse sentido, ela se encontra em um lugar de maior vulnerabilidade social, que precisa ser nomeado e encarado por meio de um olhar que resista à tentação da universalidade excludente.

Apesar de se encontrar em um não lugar, a mulher negra consegue perceber que esse pode ser um lugar de potência, como afirma Collins. 

O feminismo negro seria, então, construído por meio do reconhecimento das diferenças, o que levaria à visibilização de outras formas de ser mulher no mundo, de outros pontos de partida entre mulheres.

Para isso, para romper com a invisibilidade, nomear injustiças e apontar caminhos para combatê-las, é de extrema importância dar voz a pontos de vista diferentes ao analisar um fenômeno. Djamila recorre ao conceito de ponto de vista feminista, utilizado por Collins, para ressaltar a importância desses olhares diversos.

É possível fazer um paralelo com outros grupos sociais também vistos e definidos por aqueles que ocupam posição preponderante na sociedade.

Partindo de lugares diferentes, grupos que compartilham experiências históricas, e que têm vivências distintas da visão hegemônica em virtude de sua localização social, têm condições de se autodefinir, de transcender o lugar de Outro, sem, nas palavras de Djamila, negar “a perspectiva individual, mas dando ênfase ao lugar social que ocupam a partir da matriz de dominação”. E é de extrema importância que o façam.

Incômodo

Esse processo de autodefinição e de construção e valorização de saberes resulta em configurações de mundo diversas, construídas por outros olhares que têm a capacidade e o potencial de não apenas se autodefinir, mas de construir saberes que sirvam para pensar mudanças. Para quem se encontra em posições historicamente hegemônicas, escutar essas vozes silenciadas há tanto tempo gera um incômodo considerável, exatamente por elas questionarem a legitimidade desse lugar.

O discurso construído por quem sempre foi encarado como Outro traz conflitos que tiram aqueles que se veem como sujeito da posição confortável em que sempre estiveram. Se por um lado escutá-las é um processo que pode vir a ser doloroso e difícil, por lembrar a esses sujeitos hegemônicos de sua responsabilidade histórica na perpetuação de desigualdades sociais, por outro, é o único meio de obtermos mudanças sociais expressivas que nos ajudem a construir uma sociedade mais igualitária.

Quem escreveu esse texto

Mariana Varella

Jornalista e socióloga, é responsável pelo site Chorumelas.

Matéria publicada na edição impressa #7 nov.2017 em junho de 2018.