Filosofia,
Diderot ou o filósofo no espelho da história
A trajetória de Sêneca sob os reinados dos imperadores Claudio e Nero abre caminho para uma análise da estrutura social e política de Roma
07nov2018 | Edição #1 mai.2017Um ensaio dedicado a dois célebres imperadores romanos da dinastia julio-claudiana, e a um filósofo que viveu sob o primeiro e serviu ao segundo, deveria pertencer, à primeira vista, ao gênero das obras históricas e políticas. Contudo, diferentes editores das obras de Diderot (1713-84) não hesitaram em classificar esse escrito como propriamente filosófico. Michel Delon, na edição da Pléiade (França, 2010), oferece uma boa razão para que se proceda assim. Entre outras coisas, trata-se, diz ele, de uma meditação do filósofo sobre a morte, tema tão mais relevante para alguém que, como Diderot, não tinha religião nem credo, era materialista e ateu convicto, e advogava uma espécie de virtude que se mostra por seus efeitos e benesses práticas, isto é, sociais, não pela proclamação e defesa de princípios abstratos. Desprovido da perspectiva de uma eternidade celestial, Diderot tem em vista outra, mais frágil, e, por isso mesmo, mais sublime: a da posteridade, na figura do público que recebe suas considerações muito tempo após terem sido feitas.
A biografia do filósofo romano aparece pela primeira vez em 1779 como prefácio a uma tradução francesa das obras de Sêneca e torna-se livro independente em 1782, quando adquire a forma e o título com que hoje a conhecemos: Ensaio sobre os reinados de Claudio e de Nero, e sobre as maneiras e os escritos de Sêneca (a tradução brasileira substitui “maneiras” por “vida”). Último escrito publicado por Diderot, pode ser considerado como um exemplo do que se costuma chamar de “estilo tardio”. Sem dúvida, traz as marcas inconfundíveis de uma das grandes inteligências do século: a prosa límpida, o raciocínio preciso, a ironia desconcertante. Além de algo que não se costuma associar a ela: um tom grave, por vezes até solene.
A julgarmos por seus escritos de juventude, Diderot nunca teve grande admiração por Sêneca (4 a.C.-65). Por que então tomá-lo como modelo? Uma hipótese, lançada pelo mesmo Delon, para compreender a virada nessa avaliação, é que o enciclopedista teria percebido, graças a seu colaborador e amigo, o barão d’Holbach, o valor da moral estoica para o filósofo materialista — ela o ensina a “contemplar a morte como um estado de aniquilamento total”, desfazendo, de uma vez por todas, a ilusão da imortalidade de alma e confirmando a ideia de que a prática da virtude é independente e mesmo contrária ao ensinamento da maioria das religiões.
Mas, se a obra é mais do que um tratado de política, tampouco se resume a uma meditação acerca da vida e da morte. Esse tema, sempre presente, nunca é abordado diretamente. O autor não oferece lições a seu leitor e não se deve esperar nenhum lugar-comum, que dizer uma enfiada de máximas de consolação. Como sempre em Diderot, a constituição do pensamento se dá no plano da elaboração textual. Se a vida de Sêneca é instrutiva, é por ter sido uma vida pública, que só pode ser compreendida no quadro das relações de que o filósofo romano fez parte, primeiro como senador, sob Claudio, depois como cortesão e instrutor de Nero. Para dar conta da complexidade de seu objeto, o Ensaio oscila entre a política, a história e a moral.
As circunstâncias da vida pessoal do homem Sêneca são entrelaçadas habilmente à vida política e à estrutura social da Roma antiga a ponto de se tornarem indissociáveis delas. Acompanhando o nascimento e a educação de Sêneca, o leitor é introduzido na distribuição hierárquica e geográfica do poder romano, na distinção e na ligação entre capital e províncias, nos meios de ascensão social e de aquisição de poder facultados a um cidadão bem-nascido, embora não nas famílias mais antigas e tradicionais. Sem mencionar a complexa e não raro picante trama de intrigas palacianas. “Eu poderia recolher dos reinados de Claudio e Nero apenas os cenários em que Sêneca estivesse em ação [mostrando apenas essa figura, isolada — trecho do original que não consta da tradução]; mas parece-me que, colocado no centro do quadro, sentir-se-ia mais fortemente a dificuldade e a dignidade de seu papel: o gladiador antigo seria mais interessante se estivesse perante seu antagonista”. Diderot deixa claro que não é sua intenção oferecer um retrato minucioso, em “cores fortes”, desse personagem admirável e contraditório.
Se a vida de Sêneca é instrutiva, é por ter sido uma vida pública, que só pode ser entendida no quadro de suas relações políticas
O devaneio é elevado pelo filósofo à condição de método. Em vez de fixar de antemão os pontos a serem destacados na narrativa, Diderot deixa-se levar, um pouco distraído, parando aqui e ali para recolher os fatos que lhe parecem mais significativos. No preâmbulo ao Ensaio, ele pinta uma imagem bucólica dessa perambulação, e sabe-se, por sua correspondência, que o livro foi escrito em seu retiro no campo, longe de Paris. Na verdade, são ruminações de leituras de autores que ele julgou pertinentes para o projeto que tinha diante de si. Menciona, além do próprio Sêneca, também Tácito e Suetônio, ambos historiadores da primeira dinastia do Império. Percorrendo as páginas desses autores, Diderot comporta-se de maneira análoga ao que fizera anos antes, quando frequentara exposições da Academia Francesa com o intuito de resenhá-las: pauta suas escolhas e opiniões pelos indícios de sua própria sensação.
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Na Antiguidade, o historiador tinha muito daquilo que os contemporâneos de Diderot entendiam por “moralista”, alguém que retrata, analisa e julga os eventos políticos, buscando alinhar sua compreensão às maneiras ou costumes do povo em questão, e que descreve assim toda uma época. Ora, se o historiador é também um moralista, então o gênero de história que ele pratica está longe de ser imparcial. O romano Tácito, que o século 18 considerava o maior de todos os historiadores antigos, é o melhor exemplo disso. Adotando ares de neutralidade, ele dá a entender, pelo modo como dispõe os fatos, pelo uso da ênfase e do silêncio, da distensão e da brevidade, qual o aporte moral dos eventos narrados e quais as conclusões que o leitor deve extrair por si mesmo. Diderot segue, em linhas gerais, o mesmo procedimento.
Mas, diferentemente de Tácito, sua narrativa não é linear. O Ensaio não apenas se alterna entre a vida pessoal de Sêneca e os eventos ao seu redor, como termina com um apólogo ao filósofo, defendendo-o, ponto a ponto, das acusações que lhe foram dirigidas em tempos modernos — ou seja, por leitores no mais das vezes cristãos. É uma peça que encontra paralelismo exato na digressão sobre o caráter de Jean-Jacques Rousseau (1712-78), inserida no final da primeira parte, em que Diderot responde às acusações que este lhe fizera em suas Confissões, recém-publicadas. Rousseau acabara de morrer; por que atacá-lo de forma tão direta e veemente como faz Diderot? É que seu antigo amigo, apelando ao testemunho de Deus, se revelou um hipócrita, e um difamador. Defender-se da calúnia é um dever do filósofo honesto, que fala também em nome de seus pares: o partido filosófico, acuado, em pleno Século das Luzes, pelos mais diferentes adversários — não raro oriundos de suas próprias fileiras.
A julgar por mais este volume de escritos publicado pela editora Perspectiva (sem esquecer a monumental biografia de Arthur Wilson), sempre por iniciativa de Jacó Guinsburg, Diderot foi bem-sucedido em garantir sua imagem diante da posteridade. A tradução de Newton Cunha é fiel ao original. Porém, não se entende a decisão de seguir o texto da edição de 1875, quando se tem à disposição as edições das obras completas (Hermann, 1986) e das obras filosóficas (Pléiade, 2010). Isso não tira o mérito desta iniciativa, que mais uma vez nos põe em contato com um filósofo e escritor que permanece relevante para o nosso tempo.
Matéria publicada na edição impressa #1 mai.2017 em maio de 2017.
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