Ensaio, Filosofia,

Um fenômeno da palavra

Na melhor tradição do humor progressista norte-americano, duas coletâneas confirmam Rebecca Solnit como destaque do ensaísmo feminista

09nov2018

“Toda mulher tem uma história de horror para contar” é uma máxima famosa entre as feministas. Talvez nem todas as mulheres do mundo tenham sofrido algum dissabor por conta da desigualdade de gênero, meus anos de ativismo me fazem crer que nunca esbarrei com essas sortudas. A escritora norte-americana Rebecca Solnit não é privilegiada nesse aspecto. Presenciou sua mãe ser agredida por seu pai. Saiu de casa muito jovem para não compactuar nem ser também vítima daquela violência. 

“A descoberta mais devastadora da minha vida foi que eu não tinha nenhum direito real à vida, à liberdade e à busca da felicidade fora de casa, que o mundo estava cheio de desconhecidos que pareciam me odiar e queriam me fazer mal só por causa do meu gênero […] e que quase ninguém considerava o fato como um assunto público e não como um problema privado”, escreve a autora.

Essa afirmação categórica pode dar a falsa impressão de que os recentes lançamentos dos livros de Solnit no mercado brasileiro são uma longa explanação pessoal a respeito das dificuldades de “ser mulher”. Porém, os livros Os homens explicam tudo para mim e A mãe de todas as perguntas funcionam como um panorama do movimento feminista no século 21.

Com uma escrita fluida e direta, longe de academicismos, Rebecca recorre a casos corriqueiros que se passaram com ela — o mais icônico e divertido é o do anfitrião de uma festa que insiste em indicar para a autora um livro que ela própria escreveu —, notícias recentes da política norte-americana, análise de casos de violência famosos, dados de pesquisa e cultura pop, muita cultura pop. 

Liz Taylor, Tina Fey, Beyoncé, Jennifer Lawrence, Louis CK, a revista Squire, os casos Bill Cosby e Strauss Khan. Todos esses elementos se articulam e sobrepõem para a construção de um discurso que demonstra o absurdo de mulheres ainda estarem sujeitas a lugares arriscados e subalternos, em um presente supostamente civilizado. A razão disso seria uma sociedade estruturada no gênero.

Na melhor tradição do humor progressista norte-americano, Solnit opta por escarnecer de grupos opressores e situações absurdas pelas quais passam mulheres e grupos minoritários. Em “A guerra mais longa”, ensaio de Os homens explicam tudo para mim, sobre a batalha que é uma mulher existir no espaço público e ocupá-lo em segurança, ela questiona: “Pensem na quantidade de tempo e energia que teríamos a mais e que poderíamos canalizar para outras coisas importantes, se não estivéssemos a tentar sobreviver?”.

Algumas mulheres rompem o lugar de coadjuvantes e vítimas e contam suas próprias histórias. Em A mãe de todas as perguntas, Solnit abre os trabalhos com um ensaio longo sobre o silêncio. Tema caro às feministas, o silenciamento é tratado como a origem de toda violência. Quando não se consegue calar uma mulher, as estratégias passam de violência simbólica a violência física, e no limite ao feminicídio, sua forma mais radical.

O ensaio trata do poder da linguagem, da construção de uma semântica mais igualitária que consiga nomear os horrores pelos quais as mulheres vítimas de violência passam. Marcos jurídicos como o reconhecimento, pela Suprema Corte norte-americana, da existência de estupros em namoros ou casamentos, ou a invenção de neologismos como mansplaining,¹ são ferramentas que nomeiam atos de violência antes encobertos. Para Solnit, o “novo” feminismo tem muito a agradecer às novas tecnologias e floresce num contexto de hiperconectividade. E é, antes de tudo, um fenômeno da palavra.

Ouvir

E se toda mulher tem uma história de horror para contar, que essas histórias sejam ouvidas. Quem deve ouvi-las? As mulheres ouvem as mulheres. Falta que o gênero masculino, agente dessas violências, também seja capaz de ouvir.

Em 2015, ao ministrar uma palestra em um evento feminista, eu disse que o maior aprendizado para as mulheres era falar, e o maior aprendizado para os homens era calar a boca. Aplausos e assovios deixaram muito claro que as mulheres presentes estavam cansadas de ter a vida interpretada por narradores que não fossem elas mesmas. 

Hoje, eu trocaria “calar a boca” por ouvir. Não que homens calando a boca nos momentos certos não seja também um grande ganho para a luta pela igualdade, mas acredito que ouvir seja ainda mais poderoso e transformador. Assim como Solnit, acredito que o feminismo não deve fabricar uma guerra dos sexos estéril. 

Logo na introdução de A mãe de todas as perguntas, uma passagem deixa claro que homens são bem-vindos desde que estejam dispostos a questionar os limites e o binarismo de gênero. Enquanto no Brasil os debates muitas vezes patinam quando o assunto é inclusão dos homens na pauta feminista, com acusações de roubo de protagonismo e distribuição de “biscoitos”,² Solnit não foge das contradições inerentes à questão. Na tentativa de entender por que eles seguem perpetuadores de violência de gênero, o silêncio entra no cerne da questão. Estamos aprendendo a falar sobre as coisas horríveis que nos acontecem, e é hora de os homens aprenderem a falar sobre a masculinidade tóxica e violenta que os torna principais agentes dessa violência.

É comum, quando uma jovem entra em contato com a teoria feminista, usar a metáfora dos “óculos”. Uma vez que você aprendeu a enxergar a diferença de tratamento entre os gêneros e a estrutura patriarcal da sociedade, é impossível “desver”. 

Ao tratar das rápidas mudanças no movimento feminista e de seus impactos na sociedade, Solnit nos dá ferramentas para limpar as lentes dos óculos e enxergar com mais clareza as amarras que nos atam, as grades que nos encerram, para que, num futuro próximo, menos mulheres tenham histórias de horror para contar, e mais mulheres tenham segurança para contar as histórias que quiserem.

Notas da autora 
1. Mansplaining ou Homemexplicação: atitude majoritariamente masculina de explicar para mulheres coisas que elas já sabem, invalidando suas experiências e conhecimento.
2. Biscoito: expressão usada na militância quando um homem recebe um afago no ego por ter expressado uma opinião óbvia sobre igualdade de gênero que mulheres já falaram antes e com mais propriedade.

Quem escreveu esse texto

Renata Corrêa

Escritora e roteirista, publicou Vaca e outras moças de família (Patu.).