Encontro de Leituras,
Vidas afroatlânticas
Vencedor do prêmio Oceanos, cabo-verdiano Joaquim Arena nos convida a fazer parte da grande conversa lusófona pós-colonial
29set2025A obra do cabo-verdiano Joaquim Arena nos convida a fazer parte de uma grande conversa lusófona e afroatlântica. Para nós, pessoas brasileiras, essa conversa pode parecer ao mesmo tempo muito próxima e muito exótica. É como se fosse uma grande festa da nossa família estendida que insistimos em não prestigiar.
Por aqui, temos dois de seus livros publicados. O romance Siríaco e Mister Charles ganhou em 2023 um merecido prêmio Oceanos e, no ano seguinte, foi lançado no Brasil pela Gryphus. Embalado por esse sucesso, sai agora pela mesma editora um de seus trabalhos anteriores, Debaixo da nossa pele, originalmente publicado em 2017 em Portugal pela Imprensa Nacional Casa da Moeda e já traduzido ao inglês (2023) e ao chinês (2022). Este romance trouxe Arena a Paraty, onde foi lançado em mesas da programação paralela da Flip 2025.
Enquanto isso, em Portugal, o autor de várias outras publicações ainda inéditas em nosso país acaba de lançar As mortes do meu pai (Quetzal). Para Arena, esse livro encerra o que ele chama de “Trilogia Negropolitana”, formada por Debaixo da nossa pele e Siríaco e Mister Charles e com a qual quer dar vida a homens e mulheres descendentes de africanos escravizados que foram levados à metrópole.
Em Siríaco e Mister Charles, o protagonista nasce no Brasil, cresce em Lisboa e morre em Cabo Verde. Sua vida articula perfeitamente os três vértices do triângulo que poderíamos designar como lusoatlântico ou afropolitano. Já Debaixo da nossa pele consegue ser mais intimista e, ao mesmo tempo, mais expansivo.
Antepassados
De estilo indefinido, não ficção que pode ser lida como ficção, misto de ensaio pessoal com livro de viagens, a narrativa começa com a análise de um quadro lisboeta do século 16, passa por uma viagem às ex-comunidades de pessoas escravizadas às margens do rio Sado na região de sua nascente no Alentejo, e termina traçando não apenas um panorama da presença africana negra na Europa como também um trajeto sentimental pelas memórias de infância do autor.
Joaquim Arena nasceu em Cabo Verde em 1964, filho de pai português e mãe cabo-verdiana. Ainda criança, foi para Portugal e, na idade adulta, voltou a Cabo Verde, onde mora e trabalha como jornalista. Ou seja, sua vida reflete as migrações diaspóricas desse entrelugar afropolitano lusófono.
A partir de fascinantes detalhes, Arena questiona valores caros à cultura ocidental, como raça e nação
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Em Debaixo da nossa pele, a partir de pequenos e fascinantes detalhes históricos, Arena consegue colocar em questão valores caros à cultura ocidental, como raça e nação. Ele começa sua crônica da negritude e da mestiçagem no mundo afro-luso-atlântico a partir da pintura seiscentista que retrata uma cena urbana de Lisboa. Chama a atenção que, no quadro, das 136 pessoas retratadas andando pelas ruas, 79 são negras. Não é o que esperaríamos da capital metropolitana de um império branco europeu. Uma das figuras negras é identificada como João de Sá Panasco, filho de escravizados, ex-bobo da corte, cavalheiro da importante Ordem de Santiago e veterano da Conquista de Túnis, em 1535. De tudo o que poderia ser citado, eis a maravilhosa anedota que Arena escolhe retirar do esquecimento da história:
No meio dos combates, da carga dos cavaleiros e do silvo das setas, João de Sá, então um jovem adolescente, reparou num pequeno cão junto a uma oliveira, numa colina às portas da cidade. Atravessou o campo de batalha, impávido ao movimento de fugitivos e perseguidores, e recolheu o pequeno animal assustado, um pastor da Anatólia, que conservou até a morte.
Em seguida, expandindo seu foco para além do mundo lusoatlântico, Arena apresenta os antepassados negros de dois autores canônicos raramente apresentados como afrodescendentes.
Thomas-Alexandre Dumas (1762-1806) nasceu na colônia francesa de Santo Domingo, hoje Haiti, filho de um marquês e de uma escravizada, e acabou se tornando o primeiro general negro do exército francês, tendo combatido longamente nas guerras napoleônicas. Perto do fim da vida, passou três anos encarcerado na fortaleza de Tarento, no Reino de Nápoles.
Essa experiência depois inspirou Alexandre Dumas (1802-1870), filho do general, a escrever O conde de Monte Cristo. “As injustiças sofridas por Edmond Dantès não são mais do que aquelas sofridas pelo general seu pai”, escreve Arena. (Um detalhe que Arena não conta: uma estátua de Thomas-Alexandre em Paris foi derretida pelos nazistas em 1940, durante a ocupação da França; em 2009, foi inaugurada em seu lugar uma escultura de dois grilhões gigantes e abertos, simbolizando o fim da escravidão.)
Já Abram Petrovich Gannibal (1696-1781) nasceu na Etiópia, foi escravizado pelos turcos, comprado pelo embaixador russo e, então, enviado de presente para o czar Pedro, o Grande, que se tornou seu padrinho. Em uma longa carreira de serviço à Rússia, Gannibal chegou a ser matemático, linguista, diplomata, engenheiro e general. Voltaire o chamou de “a estrela negra do Iluminismo russo”. Teve dez filhos, que fizeram parte dos mais altos escalões da nobreza. Seu bisneto mais famoso foi Aleksandr Púchkin (1799-1837), considerado por escritores como Tolstói e Dostoiévski como o grande fundador e patriarca da literatura russa.
(A história do bisavô de Púchkin pode ser lida na noveleta “O negro de Pedro, o Grande”, do livro A dama de espadas: prosa e poemas, publicado no Brasil pela 34 em tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher.)
O que Arena nos mostra, nesses e em outros exemplos, é quanto o Império Português e a própria Europa são profundamente negros, diaspóricos, afroatlânticos. “A ideia de raça foi uma construção”, escreve na orelha do livro. “Desfazer essa construção exige recontar o que foi esquecido — e também nos reencontrar com os fantasmas que deixamos para trás.”
Festa
Portugal parece nunca ter perdido o contato com suas ex-colônias e se abriu a elas especialmente depois das independências. As ex-colônias, por seu lado, tanto africanas quanto asiáticas, vêm mantendo uma troca cultural frutífera com a antiga metrópole. Está na hora de nos juntarmos a essa festa.
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