Encontro de Leituras,
Anos rebeldes
Hugo Gonçalves narra a dissolução de uma família tradicional em meio ao período mais conturbado da história recente de Portugal
01jan2026 • Atualizado em: 05jan2026 | Edição #101Logo nas primeiras páginas de Revolução, acompanhamos a captura de Maria Luísa Storm pela PIDE — uma espécie de DOPS de Portugal — e as sessões de tortura que a levaram à sua quase completa desumanização e, posteriormente, ao exílio na França. Narradas a partir de palavras sóbrias, com reflexões da personagem mais centradas no questionamento do seu lugar no movimento revolucionário do que na dor excruciante que haveria sentido naquela situação, tais cenas dão o tom que norteará as quatrocentas páginas do romance histórico de Hugo Gonçalves.
Ganhador do Prêmio Literário Fernando Namora de 2024, o livro acerta ao equilibrar a história com a literatura, trazendo uma trama familiar para dentro de um dos períodos mais conturbados da história recente de Portugal: o Processo Revolucionário em Curso (PREC), que compreende o período entre a Revolução dos Cravos, iniciada em 25 de abril de 1974, e a aprovação da nova Constituição portuguesa dois anos depois.
Jornalista de formação, Gonçalves compreendeu que a ficção poderia auxiliar na compreensão de fatos históricos obscuros até mesmo para os jovens portugueses, que não viveram aquele momento, ao passo que traz aquilo que é mais humano ao centro da narrativa: o sentimento de confusão em meio a convulsões sociais e a sensação perturbadora de estar vivendo o fim de uma era.
É nesse olhar peculiar sobre o episódio que reside a atualidade do livro de Gonçalves. Mais do que trazer à tona os últimos instantes de ditadura e o PREC e fazer da literatura um testemunho histórico, Revolução fala ao leitor que vive, neste instante, a confusão e a sensação de estar no fim de uma era, após uma pandemia e as inúmeras demonstrações da decadência de governos democráticos que antes pareciam tão sólidos.
A leitura nos deixa perceber que as revoluções ainda estão ocorrendo e que não é possível afirmar que fim elas terão, aumentando a angústia e validando esse sentimento de desordem coletiva. Além disso, o romance faz uma defesa de que a história não é feita apenas a partir de grandes nomes, mas também de pessoas comuns tentando sobreviver às mudanças do cotidiano sem que isso interrompa seus jantares em família.
Odisseia familiar
As cenas iniciais envolvendo a tortura de Maria Luísa, opositora clandestina do regime de Salazar, não só introduzem o leitor ao período como também servem para apresentar a família Storm a partir de um de seus momentos mais dolorosos. Antónia, a mãe, ao mesmo tempo que se horroriza com a situação pela qual a filha passa, envergonha-se de seus atos revolucionários. Ela mesma filha de um serralheiro, orgulha-se por se tornar diretora e proprietária de um hotel em Sintra — e a ascensão econômica familiar deveria ser o suficiente para justificar a seus filhos uma apatia política.
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Personagem de fortes valores morais, representante da tradicional família portuguesa, Antónia tenta sobreviver aos ecos revolucionários apostando o legado familiar aos seus outros dois filhos: Pureza e Frederico.
Filha do meio, Pureza é a que melhor parece transmitir os ensinamentos conservadores de sua mãe — e sofre as consequências disso. Em contraposição ao ruído provocado pela militância de sua irmã, o silêncio é a base da sua personalidade e, incapaz de formular opiniões próprias sobre a mudança política, ela vê no casamento uma promessa de estabilidade que, como é de se esperar, não se cumpre e a desorienta. E é nessa desorientação que o leitor se aproxima de sua delicadeza trágica, acompanhando uma das transformações pessoais mais interessantes do romance: ao passo que as mudanças do país acontecem à sua revelia, ela reconhece a partir da própria experiência a impossibilidade de sustentar o lugar social que lhe foi imposto, o de boa filha e boa esposa.
‘Revolução’ fala ao leitor que vive, neste instante, a confusão e a sensação de estar no fim de uma era
Enquanto Maria Luísa se coloca no front da revolução e Pureza tenta renegá-la, Frederico acaba por ser engolido pelos eventos históricos. Filho caçula, pouco afeito aos estudos e aos negócios familiares, é imaturo demais para antever que sua juventude não o salvaria das convulsões sociais do seu tempo. Pelo contrário, ser jovem o obrigou a sentir na pele as transformações do próprio país — ainda que estivesse mais preocupado em escutar os novos discos de jazz e perder a virgindade. Volúvel e sem malícia, ele parece estar sempre correndo atrás dos fatos, entregando situações ao mesmo tempo cômicas e trágicas.
“Tudo que começo não chego a acabar.” Essa frase de Frederico parece refletir o seu destino, que se coloca diante de personagens emblemáticos, situações cruciais para o desenvolvimento da nova política e diferentes cenários de uma Portugal em ebulição por conta do processo revolucionário em andamento. É ele que sente tanto a euforia quanto a tragédia de viver um momento histórico, compreendendo que o controle de sua vida escapa pelas mãos e entregando-se ao que vem adiante.
Sim, o livro pode ser lido como um extenso e intenso romance histórico, interessante aos que desejam compreender os efeitos da Revolução dos Cravos e a formação de uma Portugal contemporânea que se reinventou após mais de quarenta anos de ditadura, com reflexos que perduram até hoje no tecido social. Só que o livro vai muito além do que o gênero literário sugere, apresentando uma proposta de formação de nação pela perspectiva humanizada de uma família que vive uma verdadeira odisseia diante de uma matriarca tentando sustentar o seu legado enquanto os três filhos sentem, cada um a sua maneira, os efeitos dos novos tempos.
Dividido em cinco partes, com o foco narrativo alternando entre Maria Luísa, Pureza e Frederico, o romance convida o leitor a sentir os acontecimentos coletivos e reagir a eles a partir de três personagens muito diferentes entre si, produzindo o efeito de um mosaico de testemunhos pessoais sobre aquilo que se poderia chamar a “Grande História”.
A revolução, aqui, não diz respeito apenas ao que ocorreu de fato, mas também à forma de se apresentar uma história oficial. Gonçalves, em vez de apontar um pensamento geral sobre o tema e discorrer sobre ele, coloca-o a serviço da literatura — ainda que com uma pesquisa apresentada com rigor — e entrega um romance português monumental.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Anos rebeldes”
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