Economia,

O peso das ideias na riqueza das nações

As relações entre o desenvolvimento de um país e a complexidade de sua economia

05nov2018 - 15h35 | Edição #1 mai.2017

Tanto as maçãs que compramos na quitanda como as que foram desenhadas no Vale do Silício são bens econômicos e incorporam o que há de mais precioso no que consumimos: informação. No caso da fruta, esta informação se exprime em milhares de genes que cumprem sofisticadas funções bioquímicas. Mas, por mais que tenhamos alterado as maçãs para torná-las doces e suculentas, elas existiam no mundo antes de povoarem nossas mentes. Já os objetos que usamos para nos comunicar por meio da internet foram concebidos por alguém antes de tomar uma forma útil. Ambas, maçãs e Maçã (apples e Apple), incorporam informação. Mas só uma delas materializa, cristaliza nossa imaginação. 

Este exemplo é utilizado por César Hidalgo, professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), para ilustrar como o tema em torno do qual nasce a ciência econômica no século 18 (a origem da riqueza das nações) está hoje sendo reescrito. Claro que o aprofundamento da divisão do trabalho, tal como Adam Smith o expôs no célebre exemplo da fábrica de alfinetes, é a base do aumento da riqueza. O fundamental, entretanto, não está no fato de que cada um de nós se especializa e troca com os outros os resultados desta especialização. O que define a riqueza das nações atualmente não é tanto a liberdade de nos dedicarmos àquilo em que nos julgamos mais competentes, mas antes de tudo a qualidade do que fazemos, ou seja, nossa capacidade de incorporar inteligência, conhecimento, informação e imaginação aos materiais em que nos apoiamos para a oferta de bens e serviços. É essa capacidade que distingue a produção de riqueza do desenvolvimento econômico.

Paulo Gala, professor da Fundação Getulio Vargas, apoia-se no trabalho de César Hidalgo e do venezuelano Ricardo Haussmann para colocar em dúvida a consistência do mantra difundido pela esmagadora maioria dos economistas e jornalistas econômicos do Brasil: o de que boas instituições, capazes de sinalizar aos empresários segurança jurídica, discrição na presença do Estado na economia e redução drástica da corrupção são condições necessárias e suficientes para que o país volte a crescer.

Claro que boas instituições são indispensáveis. Mas elas só podem ser vistas como meio para uma finalidade que define a essência daquilo que a sociedade deve esperar da economia: não apenas o aumento da riqueza mas, antes de tudo, a ampliação da complexidade da vida econômica. Não tanto a ampliação na oferta de maçãs, mas, em primeiro lugar, de um conjunto de bens e serviços ricos em informação e cujas redes de produção e distribuição apoiam-se em circuitos cada vez mais variados e ao mesmo tempo únicos. Muito mais Apple do que maçãs. 

O novo livro de Paulo Gala tem a ambição de oferecer ao leitor “uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”. E no cerne dessa nova perspectiva encontra-se a categoria central que dá título à sua obra: Complexidade econômica. A riqueza das nações não depende fundamentalmente da exploração de suas vantagens comparativas, ou seja, de sua concentração naquilo que conseguem oferecer aos outros pelo menor preço. Ao contrário, as nações que mais conseguiram ampliar sua riqueza preenchem simultaneamente duas condições: oferecer bens que os outros não conseguem produzir e que sejam o resultado de redes de interação densas, marcadas por conhecimentos cada vez mais sofisticados ou, em outras palavras, pela capacidade de imprimir imaginação à matéria e, por aí, aumentar as próprias capacidades humanas.

Os países que conseguem exportar bens com alto teor de inteligência estão mais aptos a um crescimento contínuo

O instrumento básico para avaliar a situação de diferentes economias ao redor do mundo é o Atlas da Complexidade Econômica, idealizado por Hidalgo e Hausmann. Nele apresenta-se a estrutura das exportações de cada nação. O que uma nação exporta é uma síntese da forma como consegue incorporar conhecimento e saber prático àquilo que faz. É também uma boa expressão da natureza das redes sociais e dos elementos que interagem em seu interior para formar sua riqueza. Países com pautas exportadoras ricas em ciência, tecnologia e baseadas em empresas que incorporam conhecimento e inteligência a suas práticas produtivas são exportadores líquidos de imaginação. E é claro que, inversamente, os que dependem fundamentalmente de bens primários (por mais que estes se apoiem em algum nível de ciência e tecnologia) especializam-se em importar imaginação.

É sobre essa base teórica que Paulo Gala inova a mais importante contribuição latino-americana ao pensamento econômico contemporâneo: o estruturalismo. O aumento do grau de complexidade econômica das sociedades atuais não decorre e não pode decorrer fundamentalmente de substituir aquilo que se importa por produção local. Muito mais importante que a substituição de importações é a maneira como cada país se insere nas cadeias globais de valor. Aqueles que conseguem, graças à força de sua indústria, exportar bens dotados de alto teor de inteligência e informação estão mais aptos a um crescimento econômico não apenas contínuo, mas são exatamente os que mais conseguiram reduzir suas desigualdades.

Na esmagadora maioria dos casos, a América Latina inseriu-se nas cadeias globais de valor por meio da oferta de bens marcados por baixo teor de conhecimento e por redes produtivas pouco densas. Enquanto os países asiáticos de alto desempenho tecnológico conseguiram aumentar sua riqueza e ampliar os empregos mais bem pagos, a América Latina cresceu à base de produtos primários, construção civil, comércio e shoppings centers. Mesmo que por alguns anos esse padrão de crescimento tenha ampliado a formalização do emprego e melhorado a distribuição da renda, a fragilidade de sua base econômica mostra-se hoje não só no desemprego, mas também na acelerada desindustrialização do continente.

O livro de Gala é uma contribuição fundamental por mostrar o risco de que o crescimento que a sociedade tanto almeja não passe da mimetização do atraso que marcou a vida econômica brasileira e latino-americana nos últimos anos.

Quem escreveu esse texto

Ricardo Abramovay

É professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP e autor de Muito além da economia verde (Planeta Sustentável).

Matéria publicada na edição impressa #1 mai.2017 em maio de 2017.