Economia,

A moeda posta em questão

André Lara Resende faz crítica original aos fundamentos teóricos que sustentam a ortodoxia econômica e renova o pensamento liberal

12nov2018

André Lara Resende, um dos pais do Plano Real e expoente do pensamento liberal brasileiro, se propôs a tarefa ambiciosa de discutir a ortodoxia monetária. Há um certo sentido de urgência nesse debate: após a hecatombe financeira de 2008, os bons modos monetaristas foram mandados às favas, e essa discussão precisava ser feita também no Brasil.

O livro Juros, moeda e ortodoxia compõe-se de três momentos distintos. Na primeira parte, Lara Resende resgata a controvérsia entre o empresário desenvolvimentista Roberto Simonsen e o economista liberal Eugênio Gudin, que travaram um rico debate de propostas para o país nos idos de 1944, no final da Segunda Guerra Mundial. O confronto entre esses dois pensadores mostra como as discussões econômicas nessas bandas possuem sempre a mesma “forma”: ao rever a disputa entre Gudin e Simonsen, quase temos a sensação de que ocorreu no jornal do último domingo, com um economista liberal propondo reformas e outro, mais heterodoxo, rechaçando a ideia. Um eterno retorno.

Num segundo momento, André Lara mira os dois pilares centrais da ortodoxia econômica: a Teoria Quantitativa da Moeda (que assegura que a moeda pode ser manipulada como uma variável exógena, ou seja, sob controle de um Banco Central) e a Hipótese do Equilíbrio Geral (que garante a estabilidade do sistema econômico como um todo). Para criticar estes dois postulados, o economista usa como fio condutor a moeda e o seu preço, os juros — uma estratégia que busca descobrir a validade destas teorias no hiato entre o real e o nominal. Parece complicado, mas não é. 

Moeda e controle

A pergunta é simples: a moeda é exógena ou é endógena ao sistema econômico? Podemos controlar a moeda e, com isso, os preços das mercadorias, ou ela tem uma vida própria, ao arrepio da teoria vigente? Para André Lara, há bons motivos para acreditar que não possuímos controle sobre a moeda, e é justamente isso que nos jogou na cara os bilhões e bilhões de dólares impressos nos Estados Unidos sem gerar inflação por lá. No livro está claro que “o cadáver insepulto” da Teoria Quantitativa da Moeda durou mais tempo do que seria razoável, e só sobreviveu como um zumbi porque não existia coisa melhor para colocar no lugar. Um vexame teórico, já que mesmo antes de 2008 não havia evidência empírica que sustentasse sua hipótese: “ou revia seus fundamentos ou negava a realidade”.

A moeda não faz parte do modelo analítico de referência da teoria econômica, afirma Lara Resende

A segunda crítica de André Lara se dirige ao pressuposto do Equilíbrio Geral. Num mundo no qual os ajustes de todos os mercados invariavelmente acontecem, tudo é relativo, e nesse sentido o ajuste nominal (ou seja, os preços) se torna impossível ou até mesmo irrelevante: “A moeda não faz parte do modelo analítico de referência da teoria econômica”, dispara André Lara sobre o modelo de Walras-Arrow-Debreu. É um acréscimo a posteriori que não afeta e economia real. “Daí a expressão ‘a moeda é como um véu’.”

A contestação tem um poder demolidor: como é possível acreditar que podemos controlar a inflação se nem ao menos temos uma teoria decente para entender o nível de preços?

Para atacar os dois pilares da teoria ortodoxa, o livro retoma a história das ideias econômicas liberais e seu desenvolvimento desde a controvérsia na Inglaterra, nos séculos 18 e 19, entre a Currency School (que acreditava que a moeda era “criada” fora do sistema) e a Banking School (que via a criação da moeda como o fenômeno do crédito, como algo criado dentro do tecido econômico). E ele o faz na melhor tradição da economia política: analisando as teorias em si e contextualizando-as historicamente. 

André Lara envereda também pelas discussões sobre a natureza da moeda. E aqui chegamos ao autor que paira silencioso ao longo de todo o livro, como que conduzindo a sua crítica: o economista sueco Knut Wicksell.

Recorrendo ao contundente Wicksell, ele reconstrói a teoria monetária a partir da premissa de que a moeda é endógena à economia — contrariando a teoria padrão: “Os preços absolutos — os preços nominais — são uma questão de pura convenção”. Não há nada mais endógeno que algo que é a percepção de um conjunto sobre si mesmo (uma convenção), e assim André resgata o caráter profundamente liberal da teoria econômica: a economia é o que é, e não adianta forçá-la, de maneira exógena, para nenhuma direção.

A aceitação da hipótese de Wicksell nos forçaria assim a repensar toda forma de fazer política monetária. Até mesmo o sistema de metas de inflação do nosso Banco Central estaria sujeito a revisão. Mas não só: apoiado na teoria do economista sueco, Lara Resende sugere que, sendo a moeda uma função puramente contábil, um dia assistiremos ao fim do papel-moeda numa economia amplamente creditícia através de tecnologias de ponta como o blockchain (que viabiliza o famigerado bitcoin).

Com essa crítica, o livro enfrenta a teoria ortodoxa vigente e ainda chega a propor temas na fronteira da ortodoxia — a Teoria Fiscal do Nível de Preços (uma abordagem revolucionária ao incorporar não só a moeda, mas o total do passivo do governo na administração da inflação) e o neofisherianismo (no qual temos a inversão daquilo que se acredita normal: quando os juros sobem, a inflação também subiria). Apesar de uma versão deturpada da teoria de Keynes, ele aponta linhas de investigação que serão temas relevantes nos próximos anos.

Na parte final, o livro incorpora textos publicados no jornal Valor Econômico, e isso é oportuno, uma vez que podemos revisitá-los com a cabeça mais atenta aos fatores considerados decisivos pelo próprio autor.

Por todo o debate que suscita, André Lara Resende merece uma leitura atenciosa e entusiasmada. Longe de encerrar questões e controvérsias, ele faz uma crítica sincera e corajosa ao mainstream econômico e assim resgata e reabilita o liberalismo como força de pensamento original. Afinal, nada menos liberal que a camisa de força da ortodoxia. 

Quem escreveu esse texto

André Perfeito

É economista-chefe da Gradual Investimentos.