Biografia, Edição,

Pai, mentor, editor

Para seu discípulo, biografia de Jorge Zahar é capítulo fundamental da história do mercado editorial brasileiro

15nov2018 - 10h48 | Edição #8 dez.17-fev.18

Esta resenha começa com um aviso importante. Ou melhor, com uma suspeição: não se pode confiar no resenhista. Eu amava o biografado como a um segundo pai, um grande amigo que a vida me deu. Além disso, sou citado no livro e agraciado com parte de um capítulo. A meu favor, só posso dizer que, sendo editor e cria do biografado, com a maturidade, penso que me transformei num leitor especialmente exigente, e que não aceitaria nada menos que a excelência num livro sobre Jorge Zahar.

A marca do Z é uma proeza. Trata-se de livro feito por encomenda da Jorge Zahar Editores, a respeito de seu fundador, que ultrapassa o sentido celebratório e se realiza como texto fundamental sobre a história do mercado editorial brasileiro, a partir da vida de um de seus mais significativos protagonistas, certamente o mais simpático e bondoso que conheci.

A tarefa de Paulo Roberto Pires não era das mais fáceis. Biografar um homem de ótimo caráter, com deslizes desconhecidos, e avesso à projeção pessoal, poderia resultar num livro morno, distante do Zorro ao qual o título alude. No entanto, partindo dessas dificuldades, e até tirando proveito delas, o autor, logo nas primeiras páginas, conta como, décadas atrás, incumbido de fazer um perfil para O Globo, viu o futuro biografado reagir: “Você quer mesmo fazer um perfil meu? Traga o fórceps, então”.

Jorge Zahar foi o grande mestre de muitos de nós. A todos que quisessem ouvi-lo com atenção, ensinou que a profissão de editor é exercício ininterrupto de modéstia. É profissão para ser exercida nos bastidores da criação, ou melhor, nas costuras ou entrelinhas do livro, longe das páginas de jornal ou, hoje em dia, distante dos palcos dos festivais. Nesse sentido, A marca do Z é uma excelente biografia de alguém que jamais considerou que poderia ser objeto de estudos ou livros, e que professava absoluta aversão a quem ousasse colocar o editor no centro das atenções.

Zahar afirmava com sabedoria que “editor não é intelectual, é apenas um sujeito sensível ao fenômeno cultural”. Muitos apontaram no jovem traços contrários a esta definição. Paulo Mendes Campos via nele um intelectual vivendo no comércio “apenas por imposição da vontade”.

Filho de pai libanês e mãe francesa, foi afastado do pai e enfrentou dificuldades financeiras e instabilidade emocional materna. Logo se converteu, como definiu Sérgio Augusto, no “pai que qualquer pessoa medianamente sensível gostaria de ter”. Essa talvez tenha sido sua maior qualidade: tratar como filho tanto o ascensorista de seu escritório como um jovem editor que o conheceu na década de 80 por causa do gosto que partilhavam por boa comida e vinhos de qualidade. Obrigado a trabalhar desde muito jovem, morando numa pensão de um cômodo com a mãe e três irmãos, Jorge se formou leitor de Balzac nos trens de subúrbio carioca.

Terá dois de seus filhos, e, mais tarde, duas netas a seu lado por décadas — companhia fundamental nas várias encarnações da editora, que ao contrário da discrição que era a marca de toda a família, sempre trouxeram o nome Zahar, como parte da marca.

Capitalista relutante

É interessante acompanhar através dele — que se definia como um “capitalista relutante” — a formação do mercado editorial na periferia do capitalismo e a pouca distinção inicial entre as livrarias, distribuidoras e editoras. Criou duas filhas que se engajaram, por um tempo, na luta contra a ditadura e tiveram que sair do país; publicaram talvez o maior número de obras marxistas de um catálogo internacional; mas optaram, sempre que possível, pela cautela, seja nos conselhos pessoais, seja na definição da linha editorial.

A mim destinava palavras carinhosas, de orgulho, mas também de temor. Achava que eu perderia dinheiro com edições alentadas; ou energia, com brigas com colegas, que pouco apreciavam a minha editora em seus primórdios. Tenho certeza de que se orgulhava do primeiro caso e se preocupava sobremaneira com o segundo.

Junto com os dois maiores amigos que teve na vida, o editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, e o jornalista Paulo Francis, se destacou por ser o mais sensato, e o conciliador quando as divergências políticas afastaram sensivelmente os outros dois. De ambos, mereceu as palavras mais elogiosas que um amigo pode aspirar: “Foi a pessoa mais importante de minha vida depois de meus familiares”, disse Ênio. “Foi o melhor cara que eu conheci”, afirmou Francis.

A respeito da amizade dos três e da cultura carioca dos anos 50 em diante, não faltam histórias saborosas e originais em A marca do Z. Para sorte do resenhista, não couberam todas no livro, permitindo-me contar aqui uma ou outra, talvez inéditas.

Paulo Francis certa feita comunicou a Jorge e a mim que viria ao nosso encontro, durante uma Feira de Frankfurt. Apavorados, tentamos demovê-lo, sem sucesso. Veio acompanhado de equipe da TV Globo, certo de que conseguiria arrancar uma entrevista de Rubem Fonseca, que estava na Feira como autor convidado. Presenciamos Francis literalmente a correr pelos corredores, dando ordens à sua equipe, segurando os pesados óculos, atrás de um escritor que fugia habilmente em busca de privacidade.

Frustrado, Francis se embebedou no jantar e foi conduzido para o hotel, por mim e pela minha mulher, praguejando contra o meu terno de quatro botões, que na ocasião comparou com os jaquetões do então presidente Sarney. Nunca mais fui capaz de usar um terno nesse feitio.

O gosto pelo uísque, ou por pileques eventuais, foi a maior diferença que tive com Jorge. Teria prazer de contar a ele que agora até arrisco substituir o vinho por um on the rocks para relaxar, ainda que sem grande convicção. Certa feita fui xingado por Jorge, por tentar evitar desastrosas consequências do porre que ele e Ênio Silveira tomaram numa recepção na casa de Alfredo Machado, da Record. Não tive sucesso. Ênio e Jorge resolveram sentar-se na mesa de centro de vidro, baixa e pouco apropriada, e ela terminou estilhaçada. Às três da manhã eu tentava levar os dois para suas casas, e me compadecia do casal anfitrião, que àquela altura desejava se recolher; enquanto isso os dois continuavam no chão, rodeados por cacos, se estrebuchando de tanto rir.

Em 11 de junho de 1998, perto da meia-noite, Jorginho Zahar me ligou para contar que seu pai falecera na mesa de operação, vítima de uma cirurgia para tentar debelar uma endocardite bacteriana. Jorge havia passado uma semana inteira comigo e com a Lili, minha mulher. A tristeza para mim só não foi maior do que quando, nove anos depois, perdi meu pai, André, também numa mesa de operação, vítima da mesma doença.

Quem escreveu esse texto

Luiz Schwarcz

Fundador da Companhia das Letras, é autor de A linguagem dos sinais.

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.