Desigualdades,

Alma nazista

David de Jong mostra como a elite alemã apoiou Hitler e se beneficiou das políticas do Terceiro Reich

01jun2023 - 12h51 | Edição #70

Quando pensamos na Alemanha, é comum vir à mente a pujança econômica do país, expressa em empresas e marcas famosas como Volkswagen, Siemens, Basf, Allianz, BMW, Bayer, Dr. Oetker, Deutsche Bank, Mercedes-Benz, Krupp, Porsche, Bosch etc. O que aproxima esses nomes, porém, não é só o fato de serem megaconglomerados econômicos teutônicos, como também o de terem sido beneficiados pelo regime nazifascista alemão e usado força de trabalho escrava durante a Segunda Guerra Mundial. 

Apesar do histórico incômodo, essas empresas, após o fim do conflito, foram não apenas poupadas do desmantelamento como reabilitadas para os propósitos políticos das potências ocidentais durante a Guerra Fria, em meio à competição com os países socialistas. Seus proprietários, empresários estreitamente ligados ao nazismo, foram perdoados, tornando-se alguns dos homens mais ricos do mundo na segunda metade do século 20.

Quem mostra isso é o jornalista holandês David de Jong, autor de Bilionários nazistas: a tenebrosa história das dinastias mais ricas da Alemanha. O livro estabelece a trajetória de algumas das maiores famílias empresariais alemãs, como a dos Von Finck, da seguradora Allianz; os Porsche, da Volkswagen; os Quandt, da BMW; e os Oetker, da Dr. Oetker. Esses empresários eram ligados ao Partido Nazista e se envolveram com o esforço de guerra alemão, empregando trabalhadores forçados durante o conflito. 

Bilionários nazistas dialoga explícita ou implicitamente com esforços semelhantes que se debruçam sobre a questão da cumplicidade ou responsabilidade empresarial em regimes ditatoriais. A obra é aberta com uma epígrafe retirada de A ordem do dia (2019), de Éric Vuillard, que assinala o engajamento do grande capital alemão na ascensão de Hitler e seu partido na Alemanha. Outro desses diálogos se dá com o clássico Dinastias: esplendores e infortúnios das grandes famílias empresariais (Elsevier, 2006), em que o historiador David Landes aborda o percurso de troncos familiares como os Rothschild, Ford, Agnelli, Toyota, Baring, Guggenheim, Peugeot e Rockefeller. Landes mostra que companhias de outros países também se beneficiaram das encomendas do Estado alemão, caso da Fiat, que cresceu durante a Segunda Guerra fornecendo equipamentos à Wehrmacht. 

A fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo torturava funcionários ali mesmo

Outro historiador, Edwin Black, problematiza em IBM e o Holocausto (Elsevier, 2001) a controversa relação da IBM com o Terceiro Reich. Em parceria com Rafael Brandão, organizei uma versão brasileira, com viés crítico, desse tipo de trabalho, abordando algumas das principais famílias empresariais do nosso país na coletânea Os donos do capital: a trajetória das principais famílias empresariais do capitalismo brasileiro (Autografia, 2017). Já com foco na colaboração empresarial com regimes ditatoriais em outros países da América Latina, destaca-se o esforço seminal do argentino Juan Pablo Bohoslavsky, que organizou obras que evidenciam o envolvimento do empresariado com ditaduras na Argentina, no Uruguai e no Chile. 

Bilionários nazistas, por sua vez, é escrito em tom jornalístico. Apesar de sua formação em história e ciência política, David de Jong reúne no livro artigos publicados por ele na Bloomberg News, entre 2012 e 2018, nos quais percorre a trajetória pessoal e familiar desses empresários. O autor inicia o livro com um caso ilustrativo de como essas famílias têm dificuldade de lidar com o passado, escamoteando a relação com o nazismo. A magnata Verena Bahlsen, conta ele, foi certa vez interpelada por um político socialista sobre o que achava da proposta de propriedade comum das empresas: “Eu sou uma capitalista. Possuo um quarto da Bahlsen e estou feliz com isso. A companhia deve continuar a me pertencer. Quero ganhar dinheiro e comprar iates e outras coisas com meus dividendos”. O mesmo político observou então que a empresa de Bahlsen, fabricante de biscoitos, havia usado trabalho forçado na Segunda Guerra, ao que ela respondeu: “Isso foi antes da minha época, e nós pagávamos aos trabalhadores forçados o mesmo que aos alemães e os tratávamos bem. A Bahlsen não tem por que se sentir culpada”. Deu-se um escândalo, que levou a herdeira a se retratar e a companhia a contratar um historiador para apurar informações do passado.

De Jong se detém bastante nas trajetórias individuais, como a de Magda Friedländer, que foi casada com Günther Quandt, magnata do setor têxtil durante a Primeira Guerra Mundial, quando enriqueceu vendendo uniformes ao Exército alemão. O casal se separou e Magda se aproximou do Partido Nazista, por intermédio do qual conheceu Joseph Goebbels. Os dois se casaram em 1931, tendo Adolf Hitler como padrinho. Magda se tornou uma espécie de primeira-dama do Terceiro Reich, e sua proximidade à cúpula do regime a levou a se suicidar com cianureto, após envenenar os filhos menores num bunker em Berlim em 1945. 

Seu ex-marido, Günther Quandt, prosperou sob o nazismo produzindo aço, armas e equipamentos para as Forças Armadas do Eixo. Seu filho com Magda, Harald Quandt, lutou como paraquedista na Luftwaffe, tendo sido responsável por massacres de populações civis na Grécia durante a invasão de Creta. Ao fim do conflito, foi capturado e mantido como prisioneiro pelos ingleses. Após a guerra, tanto Günther como Harald prosperaram ao retornar ao mundo dos negócios, perdoados por seus crimes. Günther ficou à frente da BMW e Harald das empresas bélicas do grupo Quandt — responsáveis pelos tanques Leopard, que hoje estão sendo enviados à Ucrânia em sua guerra contra a Rússia.

A atuação da Volkswagen

Outro caso emblemático é o da Volkswagen. Hitler era aficionado por carros e, no início da ditadura nazista, foi à Feira Internacional do Automóvel de Berlim, na qual defendeu a construção de rodovias, a fim de reativar a economia alemã, e a fabricação de veículos populares, além de criticar os projetistas alemães por só se dedicarem à fabricação de automóveis de luxo. O engenheiro Ferdinand Porsche viu ali uma oportunidade e escreveu um memorando para o Führer. Pouco depois, como conta De Jong, ele se tornaria o engenheiro predileto de Hitler. 

Porsche foi contratado pelo regime nazista para montar a Volkswagen, o “carro do povo”, em Wolfsburg, no centro da Alemanha. O engenheiro de origem tcheca projetou o Type 1 (o nosso Fusca) seguindo as instruções do ditador alemão, como relata De Jong: 

Assim que Porsche entrou na suíte, o chanceler nazista começou a lançar ordens para ele: o Volkswagen tinha de ser um carro de quatro lugares, com um motor a diesel, refrigerado a ar, que pudesse ser convertido para propósitos militares. Hitler não tinha em mente apenas ‘o povo’. A verdadeira prioridade era o rearmamento.

A fábrica foi inaugurada em abril de 1939 e fabricou apenas 630 Fuscas, dando calote em 340 mil alemães que haviam se inscrito para comprar o carro. Em 1º de setembro daquele ano, a Blitzkrieg alemã rasgou a Polônia e teve início a Segunda Guerra. A fábrica foi convertida ao esforço de guerra nazista, produzindo armas, tanques e carros desenhados por Porsche com o trabalho escravo de prisioneiros do Terceiro Reich. Ao fim da guerra, a empresa não foi desmantelada, e sim usada pelos norte-americanos para levantar a economia alemã. O Fusca foi o carro mais popular da história e, hoje, a Volkswagen é a maior fabricante de automóveis do mundo — e ainda é controlada pela família Porsche, dos descendentes do Ferdinand, que era filiado ao Partido Nazista.

A companhia se expandiu no chamado “milagre alemão”, na década de 50, quando ampliou a produção na Alemanha e fincou ações no exterior. A primeira fábrica fora da Europa foi montada no Brasil, durante o governo Juscelino Kubitschek (1956-61). No país, a empresa empregou um criminoso de guerra nazista (como mostra o artigo do historiador Felipe Abal) e colaborou ativamente com a ditadura, vigiando e fornecendo informações de seus operários para as forças repressivas do regime, como demonstra o livro de Marcelo Almeida de Carvalho Silva. De acordo com denúncias de trabalhadores relatadas no documentário Cúmplices?, da Deutsche Welle, a fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo foi aberta para as forças policiais e militares deterem ali mesmo funcionários da empresa, torturando-os no próprio local.

Recentemente se descobriu que o bilionário da Allianz financiava a extrema direita. O ovo da serpente está vivo

Bilionários Nazistas mostra como 12 milhões de estrangeiros chegaram a trabalhar de maneira forçada na Alemanha durante a Segunda Guerra em fábricas como as da ig Farben (conglomerado fruto da fusão da Basf, Bayer e outras empresas químicas), Siemens, Daimler-Benz, BMW e Krupp. Muitas mulheres eram obrigadas a trabalhar até doze horas diárias, expostas a produtos químicos e submetidas a abusos de oficiais da ss nazista.

Na cidade de Potsdam, Stalin, Truman e o primeiro-ministro britânico Clement Attlee definiram, em 1945, que a Alemanha deveria passar por um processo de democratização, desnazificação, desmilitarização e descar-
telização. Conglomerados como o ig Farben foram dissolvidos, como ocorreu com os zaibatsu japoneses no mesmo período. No entanto, com a escalada da Guerra Fria, a estratégia norte-americana se modificou, e a punição deu lugar à recuperação das empresas e da economia alemã, que prosperou desde os anos 50 com os perdões de sua dívida e as encomendas durante a Guerra da Coreia. 

Os empresários nazistas foram então reabilitados e voltaram a pilotar os grandes grupos econômicos do país. Friedrich Flick, que esteve em Nuremberg em 1947, obteve o controle da Daimler-Benz e se tornou o homem mais rico da Alemanha e um dos cinco mais ricos do mundo. A família Porsche retomou o controle da Volkswagen. Os Quandt passaram a controlar a BMW e a Dynamit Nobel, que dá nome ao famoso prêmio. O integrante da ss Rudolf-August Oetker, da Dr. Oetker, que empregou trabalhadoras forçadas na guerra, recuperou o grupo que tinha sido expropriado, transformou-o em uma das maiores companhias alimentícias do mundo e chegou a empregar o ministro de Relações Exteriores nazista, Joachim von Ribbentrop. 

Recentemente se descobriu que o bilionário da Allianz, August von Finck, umbilicalmente ligado ao nazismo, financiava o Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita do país. O episódio mostra que o ovo da serpente está vivo e a direita ultrarradical de hoje tem uma base econômica forte que pode guardar laços com o fascismo do século 20.

O livro de De Jong cumpre um papel importantíssimo em problematizar a atuação e o destino dos empresários que apoiaram o nazismo e se beneficiaram das ações militaristas do governo de Hitler. Parece fortemente necessário conhecer e entender os agentes econômicos dos Estados de exceção das experiências políticas recentes. O nazismo alemão, o fascismo italiano e as ditaduras latino-americanas têm em comum o fato de terem sido regimes políticos vigentes em Estados capitalistas, sustentados por empresários que lhes deram suporte, compondo o bloco de poder e se beneficiando da violência política perpetrada nesses períodos obscuros da história recente da humanidade.

Quem escreveu esse texto

Pedro Henrique Pedreira Campos

Professor da UFRJ, é autor de Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar (Eduff).

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.