Arte, Crítica Literária, Poesia,

Livro/processo

Obra documenta a história do poema/processo, vanguarda que radicalizou preceitos introduzidos pelo concretismo no Brasil

26nov2018 - 13h56 | Edição #15 set.2018

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Diversos movimentos estalaram nos anos 1950 e 1960 no Brasil e no mundo, nos mais diversos campos. Decorrência das vanguardas do início do século 20, reação política, invenção estética, renovação formal: a poesia não ficou isenta às mais radicais transformações. Compondo-se na tensão palavra-som-imagem, especialmente imagem, via apresentação (tipo)gráfica, visual e material, diversos foram os nomes dados a práticas distintas, oriundas de movimentos com princípios particulares, mas que acabaram se misturando ao longo dos tempos e chamadas, hoje, de modo genérico, “poesia concreta”, ou poesia visual, sempre à sombra da mesma dúvida: mas isso é poesia?

Ficou notório o pão-poema-processo, um pão de dois metros de comprimento que foi comido por 5 mil pessoas no Recife

O livro Poema/Processo: uma vanguarda semiológica, parceria da Galeria Superfície com a editora WMF Martins Fontes que conta com projeto gráfico do Estúdio Margem, vem destacar um desses grupos. A obra apresenta as produções, princípios e propostas do movimento poema/processo, permitindo ao leitor não especializado se situar em meio a esse grande campo poético da vanguarda/experimental/radical que se desenvolveu no Brasil nessa época.

O grupo, do qual faziam parte nomes como Alvaro de Sá, Moacy Cirne e Anchieta Fernandes, tem seu marco inicial em 1967, com a realização da 1ª Exposição Nacional Poema de Processo, ocorrida simultaneamente em Natal e no Rio de Janeiro, e com o lançamento de sua revista, a Ponto 1, que trazia obras e manifestos — ambos reproduzidos no livro. Surgido em meio a um contexto de repressão política e herdeiro dos levantes inventivos anteriores que aos poucos se assentavam na cultura, o poema/processo tinha princípios ainda mais radicais, compondo, de certa forma, uma terceira via num campo antagônico em que se contrapunham concretos (de São Paulo) e neoconcretos (do Rio). Inclusive geograficamente, uma vez que, ao criar polos espalhados pelo país — sobretudo no Nordeste —, descentralizava o debate do eixo Rio-São Paulo.

A corrente elegeu como referência “A ave” (1948-1956), poema/processo avant la lettre de Wlademir Dias-Pino, mentor-sem-ser-mentor do movimento (já que a ideia de existência de um líder era recusada pelos artistas participantes). Propunham-se a distinguir poesia de poema, considerando a primeira “como problema ligado à língua”, de natureza abstrata, enquanto o segundo, este sim, “o que se faz com experiência, na área da linguagem”, objeto físico, tátil, material (Ponto 1, 1969).

Queriam suprimir a palavra, transformada em código puro, dada a arbitrariedade do sistema alfabético. Pretendiam dissociar o poema do tempo, não simplesmente suprimindo a linearidade da leitura (como fez a poesia concreta ou espacialista ao propor novos arranjos sintáticos), mas sim levando às últimas consequências a noção de processo — nas palavras de Álvaro de Sá, “relações de devenir necessárias inerentes a uma dada estrutura, a seus componentes, ou aquelas que existem entre diversas estruturas”, sem começo ou fim. 

O radicalismo do grupo chegou a ser considerado até mesmo fascista, quando rasgou publicamente poemas de Drummond

O poema tem uma matriz, estrutura imóvel, e é o próprio movimento gerado por ela que deve ser “lido” e construído pelo “consumidor/participante/criativo” reivindicado pelas obras. 

O processo se desenrola segundo a imaginação visual do autor e do leitor. A polissemia das unidades gráficas requer a participação astuta e ativa do receptor e gera meios próprios de apreensão do real. Dessa forma, as produções do grupo passam a extrapolar em muito os limites da página — ainda que esta se apresentasse já de modo autônomo, destacada do objeto livro para se tornar livro-objeto. Um exemplo emblemático é o pão-poema-processo, um pão de dois metros de comprimento que foi comido por 5 mil pessoas na Feira de Arte de Recife em 1970, além de filmes/poemas e performances públicas.

O radicalismo do grupo chegou a ser considerado até mesmo fascista, quando realizaram a performance que ficou conhecida como “rasga-rasga”, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na ocasião, o grupo rasgou publicamente livros de Drummond, Cassiano Ricardo, entre outros, carregando placas com mensagens como “O verso é Drummondico”, “Tio Scrooge é o próprio imperialismo!” e “Existe mais poesia em um logotipo que em toda a poesia de J.G. de Araújo Jorge, Mário Chamie e Vinicius de Moraes!”. Como afirma Antonio Sergio Bessa em artigo reproduzido no livro, “naquela década, poesia não era algo para aqueles de espírito fraco”.

Vanguarda em registro

Algumas dessas histórias (e também críticas, proposições, manifestos e, sobretudo, os poemas) podem ser conferidas agora nesta edição organizada por Gustavo Nóbrega, da Superfície, que também realiza exposições em São Paulo com obras do movimento. A publicação, bilíngue e com indicação de obras de referência, tem caráter documental: é registro de um processo no qual, afora a apresentação do organizador, figuram apenas textos históricos próprios ao movimento e reproduções de imagens revistas, filmes e exposições que contam a história do poema/processo. 

Da trajetória cronológica mostrada no livro não consta o fim, simbólico, proclamado pelos artistas do movimento com o Manifesto Parada — opção tática, de 1972, que dava por encerrado o poema/processo. Talvez porque, apesar disso, o processo continuou e envolveu centenas de autores não apenas no Brasil, mas também no exterior, em obras de John Furnival (Inglaterra), Mary Ellen Solt (EUA), Ian Hamilton Finlay (Escócia), E. M. Melo e Castro (Portugal), entre outros.

Assim, a publicação possibilita o acesso a obras desaparecidas, recupera textos críticos e permite descobrir autores que nos ajudam a reconstituir uma parcela da rica história das vanguardas no Brasil — a respeito da qual ainda há muito por fazer — e a possibilidade de se desmistificar esse tipo de escrita-inscrita, feita para a vista, para o leitor inquieto em saber como é que chama o nome disso? Poema/. 

Quem escreveu esse texto

Juliana Di Fiori Pondian

Pesquisadora e tradutora, traduziu o KamaSutra (Tordesilhas) e prepara uma antologia de poesia visual sânscrita.

Matéria publicada na edição impressa #15 set.2018 em setembro de 2018.