As Cidades e As Coisas,

Os cenários da intimidade

Antropólogo franco-carioca mostra como os motéis, criados nos EUA em 1925, adquiriram outras funções materiais e simbólicas no Brasil

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

Não é de hoje que o neon e o LED têm substituído as lâmpadas incandescentes usadas pelos motéis na paisagem urbana das cidades brasileiras. Foi na Califórnia, em 1925, que o arquiteto e especulador imobiliário Arthur Heineman construiu aquele que é considerado o primeiro estabelecimento do tipo: o Milestone Motel, que posteriormente se tornou o Motel Inn. Oriundo de um neologismo, o nome derivou da contração das palavras “motor” e “hotel”. A proposta comercial da construção foi atender a uma clientela motorizada, o que orientou seu espraiamento pelas vias rodoviárias dos arredores das cidades americanas. A disponibilidade de terrenos economicamente pouco valorizados se fundiu ao projeto arquitetônico mais expressivo para seus fins: permitir aos clientes estacionarem seus automóveis bem perto dos quartos, alugados para pernoite e projetados de modo a terem entradas e saídas independentes da parte administrativa. 

Motel Brasil: uma antropologia contemporânea, do antropólogo franco-carioca Jérôme Souty, é uma investigação sobre a história dos motéis e suas singularidades no Brasil. Para tanto, o autor faz um duplo movimento: reconstrói alguns dos repertórios sobre esses lugares, a partir de notícias de jornais, produções dramatúrgicas, músicas, fotos, romances e campanhas publicitárias, e analisa as “experiências vividas nos motéis”, apreendidas por meio de entrevistas com clientes e funcionários. As visitas a quatro estabelecimentos, em diferentes bairros do Rio de Janeiro (da avenida Brasil à Lapa e da Zona Sul à antiga zona portuária), arrematam sua trama entre experiências internacionais e imaginários brasileiros.

Diferentemente do caso americano, no Brasil os motéis surgiram a partir dos anos 1960 e adquiriram modos de uso, arquiteturas e decorações distintos do modelo original. Aqui, eles foram se caracterizando como lugares cuja principal função é abrigar encontros eróticos, lícitos ou ilícitos, por um período de tempo que varia de trinta minutos a doze horas. Acessados por carro pela maioria dos clientes, foram fundindo a construção da privacidade à manutenção do segredo sobre aqueles que pagam pelos quartos.

Imaginários

O livro aposta na ideia do motel como um produto brasileiro, ainda que sua funcionalidade como love hotel não seja monopólio nacional. Estima-se que por aqui existam cerca de 5 mil motéis, com 100 milhões de hospedagens anuais. Nos países que lideram os índices quantitativos e de faturamento, como a Tailândia e o Japão, eles despontaram antes de nós, em finais dos anos 1930 e 50, respectivamente. Se não cabe ao Brasil sua invenção, argumenta o autor, a chegada dos motéis ao território nacional fez com que penetrassem massivamente em nossas cidades, assumindo particularidades nas formas de visibilidade, importância simbólica no imaginário popular e erudito, e também nos rendimentos para a economia nacional: as cifras atuais do setor moteleiro são da casa de R$ 4 bilhões.

A proposta de olhar para o motel brasileiro busca articular as características do meio urbano com a formação de sensibilidades específicas, já que os modelos de sociabilidade são inseparáveis dos substratos materiais e culturais. Ao lermos o livro, conseguimos ver como as cidades são formas de expressão e produção de estilos de vida, pulsantes mediadoras da memória individual e coletiva. 

Souty desvela como a moral sexual se ata ao consumo do erotismo, que modula os produtos à venda nas suítes

As matrizes da invenção do motel à brasileira nos fazem olhar de outra forma para a estética carregada das construções cujas sinalizações, fachadas e acessórios internos transitam dos estilos kitsch e camp até galgar o standard do luxo. As combinações, variantes do popular a uma estética nouveau riche, estão expressas, por exemplo, nos motéis da Barra da Tijuca. A expansão urbana e a ascensão econômica de um grande número de pessoas aumentaram a população do bairro e o fluxo de transeuntes que cruzam a Zona Oeste rumo à Zona Sul.

Transgressão controlada

Essas modulações quanto a uma produção do lugar orientada por e para gostos sociais acionam a atenção dos leitores às classificações dos motéis como bens de consumo. Ideais de bons ou maus estabelecimentos são expressos ora por aproximação com os sentidos atribuídos à casa, ora por afinidade com os sentidos atribuídos à rua: eles aparecem como “não lugares” ou como a utopia realizada por clientes que dispõem de tempo e dinheiro para esse tipo de consumo. Daí as dimensões afetivas e sexuais por parte dos clientes e as dinâmicas de produção de invisibilidade, anonimato e formas de controle, tanto dos clientes quanto dos funcionários, se friccionarem de modo cada vez mais intenso.

A depender de onde a angulação recaia, o potencial dos motéis é o de desvelar feixes das relações sociais em termos de gênero e sexualidade cristalizadas em noções como as de sacanagem, democratização do adultério e aceitação indistinta de usuários. Ao recomporem os nexos que dão concretude a essas noções, os motéis trazem à tona ambiguidades de diferentes posições de gênero, sexuais, etárias ou socioeconômicas da clientela, seja pela via da ideia de amor romântico, seja pela via dos prazeres carnais.

Em sintonia com o que há de melhor nas recentes etnografias urbanas, Souty revela o modo como a moral sexual se ata ao consumo do erotismo para lazer e entretenimento, que por sua vez modula os equipamentos, os produtos e os serviços à venda nas suítes. Os imaginários da transgressão atrelados aos love hotels alimentam e são alimentados pela produção artística e midiática, sobretudo as de cunho erótico e pornográfico. Motel Brasil possibilita entender as articulações entre intimidade e cidade, padrões de gênero e sociabilidade, consumo e troca nos (e dos) lugares.  

Quem escreveu esse texto

Nathanael Araujo

É antropólogo e editor da Proa – Revista de Antropologia e Arte (Unicamp).

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.