Repertório 451 MHz,

Julia Juruna e o despotismo tropical

Luiz Felipe de Alencastro e Rodrigo Bonciani comentam os artigos assinados sob pseudônimo indígena para dar notícias do Brasil em jornal francês durante a ditadura

14jun2024 - 12h25 • 14jun2024 - 12h26

Está no ar o 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Neste 113º episódio, conversamos sobre o livro Despotismo tropical: A ditadura e a redemocratização nas crônicas de Julia Juruna (Tinta-da-China Brasil), escrito por Alencastro e organizado por Rodrigo Bonciani. Na conversa, eles falam sobre os poderes paralelos que atuavam durante o regime militar e comentam o panorama político do país. O episódio foi realizado com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e cientista político. Ele é autor do livro O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul (Companhia das Letras, 2000), central para os estudos sobre as relações entre Brasil e África. Este ano, está publicando pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, Despotismo tropical: a ditadura e a redemocratização nas crônicas de Julia Juruna.

Professor e historiador, Rodrigo Bonciani é um dos coautores do livro Contracondutas: ação político-pedagógica (Editora da Cidade, 2017). O historiador organizou os artigos de Alencastro escritos sob o pseudônimo de Julia Juruna e publicados no Le Monde Diplomatique nos anos 70 e 80.

Um pseudônimo contra a ditadura

O Brasil passava por um regime militar que, entre outros arbítrios, se traduzia pela censura e o total controle da informação. Foi para que as notícias brasileiras pudessem ser publicadas que o historiador criou e assinou suas crônicas sob o pseudônimo. Assim, ele pôde também manter sua identidade protegida.

Despotismo Tropical: A ditadura e a redemocratização nas crônicas de Julia Juruna, de Luiz Felipe de Alencastro

“Em um contexto em que a população indígena brasileira estava tomando algumas frentes contra a ditadura, Alencastro escolheu Julia Juruna como pseudônimo”, conta Rodrigo Bonciani.

Despotismo tropical

O título do livro de Alencastro parafraseia Despotismo oriental: estudo comparativo do poder totalitário (Guadarrama, 1966, inédito em português), do historiador alemão Karl August Wittfogel.  

Despotismo Oriental, de Karl A. Wittfogel.

No livro, Wittfogel define despotismo oriental como uma série de características de regimes antigos nos quais havia um tirano que atuava como organizador de um sistema de irrigação centralizado.

Um cenário parecido com o do Brasil, de acordo com Alencastro, que depende do setor agro-exportador, que historicamente viveu de exploração de mão de obra escrava, tanto economicamente quanto politicamente — favorecendo uns poucos em detrimento da maior parte da população.

Exemplo dado pelos historiadores é o da escolha da cana-de-açúcar como fonte de energia renovável durante o surgimento do motor de carro a álcool. Na época, outros produtos agrícolas foram cogitados como possíveis fontes de energia, como a mandioca. Essas alternativas, afirmam os escritores, poderiam incluir a população brasileira mais pobre e também aumentar a produção, já que a mandioca possui maior quantidade de álcool que a cana. Porém, o governo brasileiro decidiu agradar aos usineiros.

“Fundamentar um projeto de modernização tecnológica na cana-de-açúcar em sua plantação em larga escala é muito simbólico desse paradoxo brasileiro, no qual o que poderia ser uma inovação é a reafirmação de um sistema produtivo escravista de exploração máxima do trabalhador rural”, diz Bonciani.

Ecos do regime militar

Ecos desse passado não enterrado se prolongam no presente. O historiador relembrou as manifestações silenciosas que aconteceram no Brasil no dia 31 de março de 2024, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter vetado atos oficiais de comemoração de sessenta anos do fim do regime militar. Na data, familiares e militantes participaram da 4º Caminhada do Silêncio, que se concentrou em frente à sede do antigo DOI-Codi, centro de repressão da ditadura em São Paulo.

“A política do dever da memória a respeito do golpe deve ser uma política de Estado e não de governo”, afirma Alencastro.

Mais na Quatro Cinco Um

Colaborador antigo da revista dos livros, Luiz Felipe de Alencastro escreveu, em 2019, um artigo sobre as viagens culinárias entre a África e a América

O historiador também já participou do 451 MHz. Ele é um dos entrevistados do episódio #4: História, feminismo, vida digital, junto com a crítica literária Heloisa Teixeira e o economista Ricardo Abramovay. 

Já a coletânea de ensaios Encontros escritos: semântica histórica do Brasil no século XVI (Editora UFRJ, 2020), foi resenhada pela escritora Lilia Moritz Schwarcz

Antes da publicação de  Despotismo tropical: a ditadura e a redemocratização nas crônicas de Julia Juruna, o historiador e professor Rodrigo Bonciani escreveu sobre os artigos assinados sob o pseudônimo Julia Juruna na revista dos livros, em 2019.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz uma sugestão de Carol Fernandes, editora e uma das idealizadoras da Livraria Pulsa. Ela indica o livro A consulta, de Katharina Volckmer, publicado pela Fósforo em 2022 em tradução de Angélica Freitas.

A consulta, de Katharina Volckmer

A consulta é uma espécie de monólogo e a personagem principal está na mesa de cirurgia, passando por uma redesignação de gênero. Ela é alemã, o médico é judeu. Ao longo da cirurgia, a personagem conta que tem sonhos recorrentes e eróticos com Hitler — e ela faz questão de ter um  pênis judeu”, descreve Fernandes. “Como não lembrar do Complexo de Portnoy, de Philip Roth? Um livro em que ri muito e me emocionei também.”

Confira a lista completa de indicações do podcast 451 MHz no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo, Mariana Shiraiwa e Mauricio Abbade
Edição: Luiza Silvestrini
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Bia Ribeiro
Para falar com a equipe: [email protected]