A francesa Gisèle Pelicot diante do tribunal de Avignon, durante o julgamento do ex-marido, em dezembro de 2024 (Clement Mahoudeau/AFP via Getty Images)

Trechos,

História da francesa Gisèle Pelicot, sobrevivente de violência sexual, é contada pela filha em novo livro

Em Eu nunca mais vou te chamar de pai, Caroline Darien narra os abusos sofridos por sua mãe, violentada por pelo menos 53 homens após ser dopada pelo ex-marido; leia trecho

07mar2025

Por uma década, a francesa Gisèle Pelicot, eleita uma das mulheres do ano de 2025 pela revista Time, foi dopada por Dominique Pelicot, com quem foi casada por quase cinquenta anos, para ser estuprada por homens desconhecidos. Descoberto em 2020, o caso e seu desenrolar são narrados pela filha, Caroline Darian, no livro Eu nunca mais vou te chamar de pai, com publicação no Brasil prevista para junho pela editora Planeta.  

Datados a partir de 2011, os cerca de duzentos estupros sofridos por Gisèle Pelicot eram gravados e publicados na internet pelo ex-marido. O caso veio à tona apenas em setembro de 2020, quando Dominique Pelicot foi preso por filmar debaixo da saia de três mulheres em um supermercado, o que desencadeou as investigações sobre as violências às quais submeteu sua ex-esposa.

Narrado pela autora, o livro lançado em 2023 na França retrata o momento em que Gisèle e a família descobriram os abusos até o desfecho judicial do caso — a sentença de vinte anos de prisão recebida por Dominique Pelicot. Ao revisitar os atos sórdidos de seu pai e os traumas causados em sua mãe, seus irmãos e a si mesma, Caroline Darian reflete sobre consentimento, sobrevivência à violência e submissão química, o ato de drogar uma pessoa para cometer agressões sexuais.

No último dia 6 de março, Caroline Darian anunciou que também registrou uma denúncia de abuso contra Dominique Pelicot, após ter descoberto fotos de si mesma inconsciente, deitada em uma cama, usando roupas íntimas que ela não reconheceu, no laptop do pai.

Trecho de ‘Eu nunca mais vou te chamar de pai’

Ao sabermos dos acontecimentos, ficamos pálidos.

— Seu pai tinha o hábito de sedar regularmente sua mãe, há pelo menos oito anos, para estuprá-la. Ele filmava e colocava as imagens na Internet.

Estamos atolando o pé na lama.

— Ele também fez contato com pelo menos cinquenta e três indivíduos, desde setembro de 2013, por meio de um site de relacionamentos, para convidá-los a ir à casa do casal e abusarem de sua mãe inconsciente. Ele postava fotos dela para atraí-los e compartilhava seus atos em fóruns de bate-papo. Sem qualquer recompensa financeira.

O grau máximo de perversidade: meu pai, sempre atolado em problemas financeiros, não comercializou mamãe. Então, ele fazia isso apenas para seu prazer.

Mais tarde, ficamos sabendo que a submissão química era uma mistura de Lorazepam, uma molécula ansiolítica da classe das benzodiazepinas, mais conhecida como Temesta, e Zolpidem, um poderoso hipnótico, um sonífero prescrito apenas para insônia transitória grave. Imagino o que o corpo de minha mãe, com quase 68 anos, teve que engolir nos últimos anos.

[…]

Em seguida, o investigador nos informa que nosso pai pode ser acusado de “administrar uma substância cuja natureza prejudica o discernimento ou o controle da vítima com o objetivo de cometer estupro ou agressão sexual, além de invasão de privacidade ao fixar, gravar ou transmitir imagem de caráter sexual, por agressão sexual com administração de substância à vítima, sem seu conhecimento, para alterar seu discernimento ou controle sobre suas ações, bem como de cumplicidade em estupros com diversas circunstâncias agravantes e autor desconhecido, por infrações, voyeurismo agravado e estupro com diversas circunstâncias agravantes.

Nesse exato momento, pergunto ao tenente se meu pai demonstrou algum remorso em relação à minha mãe ou a nós, seus próprios filhos.

— Não. Seu pai simplesmente me agradeceu por “tirar-lhe um peso das costas”.

[…] Quanto a mim, não sei se conseguirei chegar ao final desta conversa.