Poesia,

Festa para Drummond

Eventos que celebram o nascimento do poeta misturam sua obra ao teatro e à música de Belchior, Noel Rosa e Milton Nascimento

28out2019 - 23h00

"Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos." O tempo, narrado na abertura do célebre poema "Nosso tempo",  de Carlos Drummond de Andrade, refere-se aos idos de 1945, mas poderia muito bem ser a este 2019. É esta a acepção da atriz e diretora Bianca Byington, que dirige o espetáculo Nosso tempo no IMS Rio como parte do Dia D, que celebra a cada 31 de outubro o aniversário de nascimento do poeta. 

"A idéia foi fazer um recorte na imensa obra de Drummond que fosse mais social, mais existencial. Os textos mantêm uma perfeita conexão com a atualidade por sua qualidade e profundidade, mas, também, por ser o mundo ainda e cada vez mais tão cheio de misérias de toda sorte", conta ela, que incluiu na apresentação também os poemas "Viver" e "Mãos dadas". "São textos carregados de melancolia e indignação, mas também de humor. Humor discreto, irônico, delicado." 

A apresentação será conduzida por ela e por sua irmã, a cantora Olivia Byington, ao lado do ator e violonista Rodrigo Lima. Para abrir a leitura, ela conta que escolheu a canção "Anoitecer", de Zé Miguel Wisnik: "Creio que, a partir dela, nossos ouvidos ficam mais receptivos ao que virá. É uma canção linda e soturna. Está ficando tão lindo que acho que a Olivia e o Rodrigo vão precisar gravar!".

O samba "Sonho de um sonho", de Martinho da Vila, e a música "Canção amiga", de Milton Nascimento, cujas letras são inspiradas em poemas de Drummond, também fazem parte da programação. "Acho que hoje e sempre movimentos como esse, que reúnem pessoas ao vivo em torno da cultura, são fundamentais para nossa sobrevivência", diz Bianca.

Cabaré modernista

Em sua 9ª edição, o Dia D acontece também nas filiais do IMS — que é detentor do acervo de Drummond — em São Paulo e Poços de Caldas. O evento segue os moldes do Bloomsday, comemorado todo dia 16 de junho na Irlanda em celebração a James Joyce (o nome vem de Leopold Bloom, protagonista de Ulisses).

A sede paulista apresenta o espetáculo Cabaré modernista para Carlos Drummond de Andrade, com roteiro e direção de Eucanaã Ferraz e direção musical de Bruno Cosentino e participação das cantoras Lívia Nestrovski e Numa Ciro, acompanhadas por Claudia Castelo Branco no piano e Aline Gonçalves no clarinete, no clarone e na flauta. Ao longo do espetáculo, serão recitados poemas de Drummond em diálogo com canções de artistas como Noel Rosa, Belchior e Milton Nascimento.

Já a sede de Poços promove uma atividade educativa na qual um grupo de estudantes da Escola Municipal Vitalina Rossi fará uma leitura dramática em torno do livro Nova reunião — 19 livros de poesia, da Companhia das Letras. No mesmo dia, aliás, a editora lança uma nova edição de O avesso das coisas. Publicado originalmente em 1987, o volume reúne em forma de verbetes preciosidades atemporais sob o olhar aguçado de Drummond, como a que se segue: "O Brasil é um país novo que se imagina velho, e um país velho que se supõe novo". Em tempo de homens partidos, vale a leitura.