Literatura infantojuvenil,

Palavra de cigano

Compilação de contos da cultura cigana, realizada por Florencia Ferrari e com ilustrações de Stephan Doitschinoff, ganha reedição

12jan2021 - 02h59

O interesse da antropóloga Florencia Ferrari pela cultura cigana vem de longa data. Tanto sua dissertação de mestrado quanto sua tese de doutorado giraram em torno desse tema. Essa pesquisa também desembocou no livro Palavra cigana, publicado originalmente em 2005 pela editora Cosac Naify, uma compilação de contos realizada por Ferrari e com ilustrações de Stephan Doitschinoff. A obra ganha agora uma reedição pela editora Sesi-SP. Nas seis histórias protagonizadas por ciganos, eles iludem reis, gigantes e até São Jorge. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Ferrari, que também é uma das sócias da editora Ubu, afirmou que esse livro “é uma maneira de construir pontes, relações, ampliar o imaginário sobre os outros”.

Como surgiu seu interesse pela cultura cigana? 
Eu cursava ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP), mas não tinha a menor relação com ciganos, nem a menor ideia de que formavam comunidades, e que tinham uma cosmologia própria. Curiosamente, eu descobri os ciganos no prédio da letras, ao fazer uma disciplina eletiva de literatura espanhola, com a professora Valeria de Marco. Lá pelas tantas, ela deu uma aula sobre o Romancero Gitano, do poeta espanhol Federico García Lorca, acabei fazendo um trabalho de leitura etnográfica do poema, e foi ali que tudo começou. Um longo caminho, que partiu da poesia e foi se aproximando da pesquisa antropológica. Fiz um mestrado sobre a representação dos ciganos na literatura europeia e brasileira (Um olhar oblíquo: contribuição para o imaginário ocidental sobre o cigano, em 2002), e só no doutorado (O mundo passa: uma etnografia dos Calon e suas relações com os brasileiros, em 2010) consegui realmente me embrenhar numa rede de parentes de ciganos Calon no estado de São Paulo, e fazer trabalho de campo, com observação participante e buscando uma teoria etnográfica, como é habitual entre antropólogos. Posso dizer que foi a primeira ou uma das primeiras etnografias feitas entre ciganos, com as ferramentas teóricas e metodológicas próprias da antropologia.

Ilustração de Stephan Doitschinoff

Poderia explicar um pouco sobre a presença dos ciganos no Brasil?
As fontes são muito restritas, e sempre se citam as mesmas datas e personagens. O principal é que os ciganos foram pioneiros na formação da população nacional. Vindos da Península Ibérica, os Calon (na Europa, Caló) já estavam aqui desde o século 16, exercendo seu lugar de alteridade com a sociedade local. No século 19, houve o que se convencionou chamar de uma nova onda migratória vinda do Leste europeu, agora de ciganos Rom, que se estendeu por toda a América. Atualmente, há por todo o Brasil grandes redes de parentes de ciganos Calon e Rom. (Tenho razões teóricas para evitar a palavra “comunidade”, “povo” e “grupo”, prefiro descrever as redes de pessoas, já que é impossível definir onde um grupo começa e onde ele acaba.) Nas periferias das cidades, em cidades do interior, em zona rural. Os ciganos são muito adaptáveis, sempre construindo sua identidade em oposição aos gajes, que somos nós, as “brasileiras” e os “brasileiros”.
 
Como foi o processo de seleção dos contos? 
Esse livro foi um trabalho de pesquisa bibliográfica e de recriação. Eu recolhi edições de contos ciganos de todas as partes do mundo que pude achar em inglês, francês, espanhol e português, e montei uma mini biblioteca. Procedi a uma leitura e uma espécie de catalogação dos quase trezentos contos recolhidos. Na época eu estava editando as Mitológicas de Claude Lévi-Strauss, e claramente fiquei fascinada por sua obsessiva e genial catalogação de mitos de toda a América. Num esforço bem mais modesto, eu fui anotando palavras-chave para categorizar os contos: leitura da sorte, desafio, engano, esperteza, viagem, roubo, sedução, cavalo, feitiço/praga, morte, música, dança, entes sobrenaturais, liberdade. E a seleção buscou as histórias mais interessantes, bem contadas, divertidas ou atraentes, que contemplassem esses temas de uma forma representativa, de modo que o conjunto abordasse diferentes aspectos de como os ciganos se apresentam nas histórias, mas também me permiti incluir detalhes ou frases, inventar as aberturas, buscando criar clima de intimidade ou mistério.

Como eu havia feito uma pesquisa sobre as representações dos ciganos na literatura brasileira, tinha à disposição um repertório de imagens literárias, e incluí algumas referências, como a frase “os ciganos eram um colorido”, do conto “Faraó e a água do rio”, de Tutameia, de Guimarães Rosa, ou “os braços erguidos [da cigana] serpenteando acima da cabeça”, retirada de Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, quando o narrador descreve a irmã, Ana, dançando como uma cigana. O livro recebeu o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) de melhor livro na categoria Reconto, de 2005.

Teve algum conto ou história que você gostaria de ter incluído, mas deixou de fora?
Puxa, não me lembro dessa sensação, acho que não. Talvez porque eu já era editora, e tenho certo prazer em cortar. =)

Um dos pontos interessantes desses contos é a diversidade geográfica deles, que vão dos “confins da Rússia” à Eslováquia, passando pela Grécia. Como a cultura cigana lida com essas características em um mundo que vê a fixidez como norma, não só de moradia, mas também de fronteiras?
Sim, foi uma das orientações da seleção, mas também da minha intervenção ficcional, fazer com que os contos mesmos viajassem de um lugar a outro e dessem uma sensação de ocupação espacial espalhada. Os ciganos sempre foram associados ao nomadismo. Muitos pesquisadores recentes lamentam que eles tenham se sedentarizado e perdido sua mobilidade. Mas, na verdade, a ideia de nomadismo é uma concepção nossa, de quem está “parado” e vê o outro se mexendo.

Na minha tese, eu exploro os conceitos calon de tempo e espaço, e o que aparece não é um movimento relativo a um determinado território, mas sim um “movimento absoluto”, na medida em que os calon jamais se identificam com um território, não constroem identidade com um lugar; ao contrário, há sempre uma pulsão de saída, que em algum momento os levará para fora, para outro lugar. Eles são deleuzianos, desterritorializados…

Um exemplo: um acampamento cigano pode ficar por anos num mesmo terreno. Morre um velho calon e, no dia seguinte, as barracas desaparecem. Não ficam onde morreu um parente. Uma senhora me contou sobre sua origem mineira e sua vinda a São Paulo: “A gente é mineiro, mas os parentes foram morrendo e nós fomos vindo pra cá”. Deslocamentos podem ocorrer para procurar melhores condições de compra e venda, por desavenças, por morte.

Ilustração de Stephan Doitschinoff

Como a cultura cigana, de forte tradição oral, lida com a cultura escrita?
A maioria dos ciganos Calon que conheci em acampamentos eram analfabetos, com algumas exceções. Já em cidades do interior com comunidades mais estabilizadas, vi grupos de crianças indo para a escola. Os valores do conhecimento calon não são os mesmos do conhecimento gaje. Isso cria uma tensão. Muitos ciganos que querem estudar acabam deixando o acampamento e a vida cigana, e em certo sentido se tornam gajes. De todo modo, tenho a impressão de que o letramento vem mudando com as novas gerações, o celular, o WhatsApp, a internet. Entre os Rom, mais do que entre os Calon, há muitos na universidade hoje.
 
Você não tem origem cigana, como deixa claro desde o começo do livro. Como foi recebida por eles? Como lidar com o fato de ser uma gaja e publicar um livro da cultura desse povo?
A vida dos ciganos ganha sentido em oposição à vida gaje – no nosso caso, a brasileira. Então, a entrada no campo é muito custosa. Demorei anos até conseguir a confiança de uma rede de parentes, mas não me gabo de ter sido “aceita” ou “querida”. Não creio ter sido. Eles me toleraram e me deixaram frequentar seu cotidiano; tivemos uma convivência por certo tempo.

Sobre escrever acerca de contos ciganos sendo uma gajin, ou garrin (eles morrem de rir quando a gente se autodenomina assim, pois é um termo muito pejorativo), no meu entender é uma maneira de construir pontes, relações, ampliar o imaginário sobre os outros. O livro não pretende ser a verdade sobre o que os ciganos contam, e sim fazer circular em redes de transformação histórias ditas ciganas. Ao contrário dos mitos de origem, que são criações endógenas de populações indígenas, os contos ciganos são resultado do modus operandi da cultura cigana, que consiste em se apropriar do outro e torná-lo algo próprio. O mesmo ocorre aqui: muitos dos contos são originalmente contos da tradição popular europeia, como dos Irmãos Grimm, em que o herói da história é substituído por um cigano.

Eu teria gostado de recolher contos de ciganos no Brasil, para entender que tipo de história faria sentido para eles aqui. Mas não fiz, quem sabe alguém se inspira e faz essa pesquisa!

Você ainda mantém contato com alguns ciganos de São Paulo?
Eu tenho o contato da família que me recebeu, mas faz tempo que não os visito. Sei que se mudaram, e não conheço o novo lugar. Eu teria que investigar um pouco para encontrá-los. Gostaria de levar a minha filha mais nova, que não teve a mesma experiência de conhecê-los como a mais velha.
 
Há muito preconceito, desconhecimento e desinformação em relação à cultura cigana até hoje. Como é possível combater esses preconceitos através da literatura?
Eu acredito que esses contos tratam de características de que os ciganos gostam em si mesmos e trazem uma visão positiva sobre eles. Há nos contos um pano de fundo ético, uma ideia de liberdade, de recusa da submissão; e mesmo o engano e a mentira ganham o significado positivo que têm na Odisseia as artimanhas de Ulisses para vencer seus desafios. Se os leitores terminarem o livro achando os ciganos espertos ou divertidos, já terá sido um gol!

Este texto foi feito com apoio do Itaú Social.
 

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).