Literatura brasileira,

Um fenômeno chamado Clarice

Entrevista da autora de ‘A hora da estrela’ repercute em edição especial da revista dos livros e se torna a maior audiência do podcast 451 MHz

17ago2023 - 17h10 | Edição #73

Nos últimos meses, os fãs de Clarice Lispector (1920-1977) tiveram acesso a um tesouro nacional. Uma entrevista histórica, que não estava disponível em áudio, resgatou o lado mais descontraído da escritora, que fala à vontade sobre seu processo de escrita e comenta seus livros, a crítica e as influências literárias.

Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna em Ouro Preto-MG    Carol Reis/Editora Global

A entrevista com Clarice foi feita em outubro de 1976 pelos escritores Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna e João Salgueiro para o MIS, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Com a anuência da família de Lispector, o áudio foi entregue a Benjamin Moser, biógrafo da escritora, e então restaurado e publicado pela revista The New Yorker.

A transcrição da entrevista já havia sido publicada pela editora Rocco no livro Outros escritos, mas é a primeira vez que é possível ouvi-la na íntegra, sem cortes. Em julho, mês de aniversário do 451 MHz, a conversa foi veiculada em dois episódios especiais do podcast da revista dos livros.

Na primeira parte, a escritora conta um pouco sobre sua infância, seu trabalho em jornal e seus livros. Na segunda, comenta como o inconsciente adentrou sua escrita e fala sobre sua atividade como tradutora, entre outros temas. Nos dois episódios, Benjamin Moser e Mariana Delfini, editora da Tinta-da-China Brasil, falaram sobre os bastidores desse encontro histórico.

   

Um presente para os novos e antigos fãs da autora de Perto do coração selvagem, que responderam a contento. Veiculados nos episódios 91 e 92 do podcast, “A voz e o silêncio de Clarice Lispector — partes 1 e 2”,  entraram rapidamente na lista de programas mais ouvidos das plataformas digitais e se tornaram a maior audiência do 451 MHz desde a estreia.

Clarice em viva voz

Em agosto, uma transcrição mais abrangente da conversa estampou a capa da Quatro Cinco Um, junto com os apontamentos de Moser. Em seu texto, o biógrafo fala dos bastidores do registro. Até então, a entrevista que a autora concedeu ao jornalista Júlio Lerner na TV Cultura em 1977, meses antes de morrer, era a única em ampla circulação. Nela, uma Clarice pouco à vontade responde muitas vezes monossilabicamente.

Clarice no parque de Great Falls. Virginia, EUA, 1955    Érico Verissimo/Arquivo Clarice Lispector/IMS

“Provavelmente por ser próxima do casal, Clarice soa tão mais tranquila e tão mais à vontade do que quando fala com Lerner; parece uma conversa entre amigos”, diz Moser. “É a entrevista mais longa e abrangente que Clarice deu, e nos dá uma ideia melhor de sua voz do que a de Lerner, muito mais curta. Depois de escutá-la, pensei muito sobre como Clarice seria vista se essa tivesse sido a conversa a moldar sua imagem.”

A edição de agosto, que também está entre as mais lidas da revista dos livros, traz ainda um texto do filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente, com memórias da época do lançamento de A maçã no escuro, além de uma releitura de Conceição Evaristo, que faz uma reescrevivência de Macabéa, a protagonista de A hora da estrela.

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.