A Feira do Livro, Literatura brasileira,

‘As dores das nossas mães atravessam o tempo e chegam até nós’, diz Silvana Tavano

Na última mesa d’A Feira do Livro 2024, a escritora falou de seu livro ‘Ressuscitar mamutes’, que mistura pesquisa e ciência com elaborações sobre a figura materna

08jul2024 - 10h24 • 08jul2024 - 14h00
(Fotografias de Matias Maxx)

Mesclar tempo, memória e acontecimentos científicos que refletem sobre presente, passado e futuro é o último grande feito da escritora e professora de literatura Silvana Tavano, no romance recém-lançado Ressuscitar mamutes (Autêntica Contemporânea). Na última mesa d’A Feira do Livro 2024, “Tempo mãe”, a autora conversou com a jornalista Iara Biderman, editora da Quatro Cinco Um e estreante na ficção com o livro de contos Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

A princípio, o romance não tinha a menor “cara” de romance, contou a autora. Escrito durante os dois primeiros anos da pandemia de Covid-19, Tavano diz ter produzido o que chama de “fragtempos”, pequenos textos sobre a fragmentação do tempo durante aquele momento tão crítico, análises acerca do que estava lendo na época e reflexões sobre informações trazidas pelo marido, que estuda biologia, evolução e física quântica. “Não tinha sábado, domingo ou sequer a ideia de dia. Aí, em um deles, meu marido me parou para ver um documentário que examinava a possibilidade real de ressuscitar mamutes.”

Segundo ela, o documentário descreve a tentativa de um grupo de cientistas para trazer o extinto animal de volta à vida, em um projeto que desenvolve engenharia genética para criar um híbrido do mamute-lanoso, o chamado “mamofante”. A autora explica que, segundo as pesquisas que começou a fazer imediatamente depois do final do filme, isso pode ajudar a levar reequilíbrio ambiental à Sibéria. “Existe a vontade de reintroduzir animais extintos para tentar salvar o planeta, como os dodôs e os mamutes”, disse Tavano.

Tempo, tempo, tempo

No livro, há uma grande investigação acerca do tempo como elemento subjetivo e científico, que é personificado pela figura da mãe. “Tempo é mãe. E como uma amiga me disse, a figura da mãe cutuca esse coágulo e todas as hemorragias decorrentes dessa matriz de sangue que é a mãe na vida de todos nós”, disse a escritora.

Tavano contou que algumas leitoras escreveram para ela dizendo que viram a si mesmas, às próprias mães, filhas, netas, e toda a força que cabe nessas relações, que não são nada simples. “É muito nítida essa encarnação da mãe no nosso corpo. As dores das nossas mães atravessam o tempo junto àquela matriz de sangue e chegam até nós. Mas muitas vezes é uma dor boa”, afirmou.

A autora disse que, enquanto escrevia sobre mães, suas pesquisas a levaram a uma nova descoberta, que a fez acreditar no potencial do tema. Era a história do descobrimento de um fóssil de mamute-lanoso na península ártica de Yamal, na Rússia, em 2007.

As escritoras Iara Biderman e Silvana Tavano

Os cientistas que receberam o material especulam que a mamute, um bebê de cerca de quarenta dias de idade, pode ter se desgarrado da mãe e caído para a morte no lago congelante Yuribey. E não para por aí. “A outra hipótese dos cientistas é de que o fóssil só sobreviveu por todos esses 42 mil anos por conta das bactérias de ácido lático que continuaram fermentando o leite da mãe na barriga da bebê. Ela recebeu o nome de Lyuba, em homenagem à esposa do caçador de renas que a encontrou. Seu nome significa ‘amor’”, contou Tavano.

A escrita híbrida

A escritora comentou que, ao começar uma nova história, tenta seguir o que Cortázar fazia: partir de situações verdadeiras e, de repente, ambientar o leitor em um universo fantástico. “Isso não é nada diferente do dia a dia: o ser humano está sempre em contato com o fantástico”, disse.

Um exemplo disso é a reaproximação que teve com a história dos mamutes depois de ter entregue o manuscrito original à editora. Em uma viagem para o México, em dezembro de 2023, uma alteração inesperada no trajeto fez a autora parar diante de um museu sobre o animal extinto. “Liguei para a minha editora pedindo para adicionar um trecho com as informações que obtive com as pessoas do museu. Isso fez toda diferença para o livro final. Coisas assim me fazem acreditar que a literatura é um mistério”, brincou.

Jornalista aposentada, como se descreve, a autora comentou a relação entre ficção e memória. “Ela mescla pedaços de fatos que nunca aconteceram a partir de memórias reais que foram reinventadas. Os ‘e se’ nos levam a outros passados ‘possíveis’”, explicou Tavano, acrescentando que “escrevemos para inventar vidas: as nossas, as dos outros, as daqueles que não existem.”

Segundo ela, esses passados emergem de escavações, como a descoberta de fósseis. E com isso, suas antigas raízes jornalísticas ainda despontam pela vontade de descobrir novas histórias por meio das pesquisas. “Acho que há um hibridismo na literatura. Essas fronteiras têm se borrado, porque a pesquisa alimenta a literatura e lhe dá verossimilhança. O fantástico é necessário, mas o fundo de realidade também”, completou.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.