Literatura infantojuvenil,

Maluco beleza

Ziraldo relembra as peripécias do Menino Maluquinho, seu personagem mais famoso, que completa quarenta anos

23out2020 - 03h45 | Edição #39 nov.2020

O Menino Maluquinho, personagem-símbolo da liberdade da infância criado por Ziraldo, está — vejam só! — completando quarenta anos. Para celebrar a data, a editora Melhoramentos está publicando uma edição comemorativa de O Menino Maluquinho, lançado em 1980. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Ziraldo faz um balanço do sucesso do personagem, fala do imposto sobre os livros e relembra o quadrinista argentino Quino, criador da icônica Mafalda, que morreu em 30 de setembro.

Você imaginou que o Menino Maluquinho faria tanto sucesso?
Ninguém poderia imaginar a repercussão e o sucesso do Maluquinho, inclusive eu. Mas com o tempo ficou claro que as crianças se identificam com o personagem porque se sentem e pensam do mesmo jeito. 

Como você vê a evolução desse personagem aventureiro ao longo destes quarenta anos?
O coração das crianças não mudou, elas sofrem e são felizes da mesma maneira. Só o que muda é o entorno. Antigamente elas queriam soltar papagaio e hoje querem voar de asa-delta. Em vez de rodarem pião, elas jogam no computador.

De onde acha que vem o apelo do personagem? 
Do fato básico de que tudo o que as crianças querem é brincar, ser amadas e felizes.

Como foi o surgimento do Menino Maluquinho?
Nasci numa cidade do interior de Minas, Caratinga, onde não havia televisão. Eu mal tinha conhecimento do mundo, a não ser através das histórias em quadrinhos. Na infância eu lia mais quadrinhos do que livros. Meus amigos eram o Batman, o Super-Homem, o Capitão América. E foi por causa deles que comecei a fazer histórias em quadrinhos. Meus primeiros personagens não eram heróis, eram astronautas. Foi assim que tudo começou, com as memórias dessa época, a relação com as pessoas e a imaginação infantil, que é fantástica.

Seria possível criar um personagem como ele nos dias atuais, diante da propagação de celulares e redes sociais?
A tecnologia é só um elemento. Se o escritor criar uma história interessante, que deixe as crianças presas, curiosas, elas podem até entender ou não, mas vão amar.

O Menino Maluquinho é seu personagem preferido ou você não tem favoritos entre as suas criações?
Todos são filhos queridos.

Qual a principal lição que crianças, jovens e adultos podem tirar do Menino Maluquinho?
Que ser amado do jeito que se é torna as pessoas melhores e mais felizes.

O quadrinista argentino Quino morreu em 30 de setembro. Ele chegou a ser uma referência para você?
Quino era um artista extraordinário, um cartunista de primeiro time na América do Sul. Tinha uma grande facilidade para criar situações engraçadas, hilárias, piadas absolutamente geniais. Nós nos conhecemos quando ele era noivo da Alicia e, desde então, nos tornamos amigos. A gente se gostava muito. Tínhamos trabalhos para fazer juntos e acabamos não fazendo. A morte dele foi muito penosa para mim.

Você lê autores de quadrinhos e de literatura infantojuvenil contemporâneos? 
Adoro super-heróis. Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha.  

Como você vê o atual momento no mercado editorial brasileiro, com mudanças na política de leitura e a possibilidade de se criar um imposto em cima dos livros?
O Menino Maluquinho é um exemplo dos novos tempos: o personagem está se reinventando e virando multiplataforma. Terá um retorno ao vídeo, agora via Netflix. Enquanto editora, vai haver novidades tanto em livro quanto em audiolivro. Vamos trazer mais contemporaneidade para o personagem, convidando uma nova geração de autores para interagir com o Menino Maluquinho. Desse movimento, virão novas leituras do nosso icônico personagem. Quanto ao imposto sobre os livros, o nome já diz tudo: é uma imposição, não pode ser bom.  

Como é possível incentivar o hábito da leitura entre as crianças?
Levando boas histórias para elas.

Bate-papo com o Menino Maluquinho

Em conversa com a Quatro Cinco Um, o personagem mais travesso da literatura brasileira revela qual a maior maluquice que gostaria de fazer e diz que, ao contrário do que podemos pensar, não estamos vivendo em tempos tão malucos.

Como é chegar jovial à meia-idade? De onde tira tanta energia?
Minha energia vem do prazer em fazer as coisas que sempre gostei de fazer.

Todo mundo chama você de Menino Maluquinho, mas no final percebe que,  na verdade, você é um  menino feliz. Você acha que as pessoas confundem felicidade com ser maluco?
Não é maluquice, não, já falei: a gente tem de fazer o que gosta!

Você gosta de ler?
Gosto de ler livros de histórias, gosto de ficção. Eu sempre gostei muito de super-heróis também.

Você gosta de ir à escola? Qual sua matéria preferida?
Gosto, mas a vida toda sempre gostei mesmo de geografia.

Qual a maior maluquice que você já fez? Tem alguma que você queria muito fazer mas nunca fez, ou não deu tempo de realizar?
Olha, a maior maluquice é a que eu gostaria de fazer e não fiz, que é  descer de esqui uma montanha bem alta, gelada, voando… Também já pensei muito em andar de asa-delta!

Você tem alguma opinião sobre os tempos malucos em que estamos vivendo?
Não são tempos malucos não. Viver é isso mesmo, tem de enfrentar. Como minha mãe dizia, meu tempo é o tempo todo, tem de topar a parada!

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #39 nov.2020 em outubro de 2020.