Listão da Semana,

Velia Vidal, Marcia Tiburi e mais 12 lançamentos

Em livro epistolar, a escritora colombiana Velia Vidal celebra o poder da leitura na transformação de uma comunidade no Chocó

16ago2023 | Edição #72

Livros podem mudar o mundo? A escritora afro-colombiana Velia Vidal mudou-se para o Chocó  – região da Colômbia definida por ela como “a grande selva de dois mares” (Atlântico e Pacífico) – para se descobrir promotora de leituras e, com isso, transformar as relações de uma comunidade com os livros. Essa história é contada em Águas de estuário, livro epistolar de Vidal que chega esta semana às livrarias. Junto com ele, chegam às prateleiras contos de outra colombiana, Margarita García Robayo, reunidos na coletânea Coisas piores, vencedora do prêmio Casa de las Américas em 2016.

A semana também traz o último romance de Charles Bukowski; um thriller da filósofa Marcia Tiburi; fragmentos poéticos-filosóficos do pensador italiano Giorgio Agamben; o romance de Dinah Silveira de Queiroz que mostra as mudanças sociais e políticas do Brasil em 1968; um ensaio sobre a arte negra da historiadora Anne Lafont; o romance de estreia de Ernesto Sabato; e um premiado infantojuvenil de Alejandra González ilustrado por Daniel Kondo. E outras novidades quentinhas: um ensaio de bell hooks sobre manifestações culturais, a história não contada da segunda imperatriz do Brasil, um original livro de receitas para tempos de escassez e mais. Boa semana. 

Viva o livro brasileiro!

Águas de Estuário. Velia Vidal.
Trad. Lizandra Magon de Almeida • Jandaíra • 152 pp • R$ 62

Livro autobiográfico da escritora afro-colombiana, composto de cartas enviadas a um amigo, nas quais fala de seus sentimentos, de seus sonhos e de seu trabalho à frente do projeto Motete, que promove a democratização da leitura por meio da alfabetização de milhares de crianças e de adultos e da formação de mediadores de leitura em Chocó, um dos estados em que o analfabetismo é mais elevado.

“De 2015 a 2018, a escritora afro-colombiana Velia Vidal se correspondeu com um amigo. Passados dois anos de trocas de mensagens de texto, áudios e fotografias, pensaram em fazer alguma coisa com tantas palavras compartilhadas. Em 2020, nasceu Águas de estuário, livro epistolar sobre as águas que banham as escolhas de uma jovem mulher afro-colombiana, escritora e promotora de leitura do Chocó. O livro chega ao Brasil sob o Selo Sueli Carneiro, da Editora Jandaíra, coordenado pela escritora e filósofa Djamila Ribeiro, que na apresentação fala da importância da identidade amefricana encontrar um projeto editorial político no país”, escreve a educadora e ativista das causas do livro, da literatura e das bibliotecas Bel Santos Mayer em resenha para a Quatro Cinco UmLeia na íntegra.

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Coisas piores. Margarita Garcia Robayo.
Trad. Silvia Massimini Felix • Moinhos • 104 pp • R$ 54

Coletânea de sete contos da escritora colombiana (hoje vivendo em Buenos Aires) publicada em 2016, que ganhou o prêmio Casa de las Américas. Retrata personagens que não conseguem se ajustar às suas novas condições de vida, como as aflições de um casal diante de seu filho obeso, que era gordo demais para frequentar uma escola normal, mas não era gordo o suficiente para ir para uma especial. Mas, como dizia sua mãe, sempre existem coisas piores. 

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Pulp. Charles Bukowski. 
Trad. Carlos André Moreira • Posf. Ana Paula Maia e Charles Dall'Agnol • HarperCollins • 240 pp • R$ 69,90

Publicado em junho de 1994, é o último romance do rebelde e polêmico poeta e escritor Charles Bukowski, que morreu em março daquele ano, depois de um penoso tratamento contra a leucemia. Tem como protagonista Nicky Belane, um detetive durão mas azarado, que passa a maior parte do tempo bebendo e fumando em seu escritório, enquanto é solicitado para elucidar os casos mais bizarros – como encontrar o escritor francês Céline, morto há mais de trinta anos, mas que foi visto passeando na cidade. 

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Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve. Marcia Tiburi.
Editora Nós • 304 pp • R$ 69

A filósofa, artista plástica, escritora e política que se mudou para a França depois de receber ameaças de morte no Brasil ambientou seu novo romance em Paris. O thriller protagonizado por duas mulheres combativas retrata as variadas formas de violência patriarcal e o papel sinistro desempenhado pela polícia, pela igreja e pela família na preservação de um projeto de poder fundado na desigualdade de gênero.

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Coisas que vi, ouvi, aprendi…. Giorgio Agamben.
Trad. Julia Scamparini • Âyiné • 80 pp • R$ 66,90

Publicado em outubro de 2022 pela Einaudi, o livro reúne fragmentos poéticos e melancólicos em que o pensador italiano relata o que aprendeu – dos livros, dos amigos, dos lugares que conheceu – sobre a natureza humana ao longo de toda a sua vida. Nascido em Roma, Agamben foi o responsável pela edição das obras de Walter Benjamin na Itália. Sua obra, voltada às relações entre filosofia, literatura, poesia e política, é influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt.

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Verão dos infiéis. Dinah Silveira de Queiroz.
Instante • 208 pp • R$ 69,90

A autora do best-seller Floradas na serra, de 1939 – e segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mostra as mudanças sociais, culturais e políticas do Brasil dos anos 60 no romance que transcorre três dias de um verão chuvoso no Rio de Janeiro. Queiroz retrata a vida de uma família de classe média, bastante apegada aos valores de uma sociedade patriarcal, enredada em conflitos pessoais, religiosos e políticos. No romance, a matriarca de uma família, viciada em comprimidos de benzedrina, cuidou sozinha dos três filhos pequenos após o suicídio do marido, “delicado demais para viver num mundo de grosseria”, e agora cada um deles enfrenta um drama distinto.

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A arte dos mundos negros: história, teoria, crítica. Anne Lafont.
Trad. Rita Paschoalin, Leo Gonçalves e Vivian Braga dos Santos • Bazar do Tempo • 208 pp • R$ 82 

A curadora e historiadora da arte francesa, autora de Uma africana no Louvre, analisa as imagens e a cultura material do Atlântico Negro, a resistência da arte produzida por africanas e africanos no período da escravização, as marcações raciais em obras clássicas da história da arte e as leituras das ciências sociais sobre a produção dos mundos negros.

Leia também: Listão Literatura Negra — Uma africana no Louvre, de Anne Lafont, é um estudo do imaginário social que envolve uma tela do museu parisiense, pintada em 1800, e que representa uma jovem negra

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O túnel. Ernesto Sabato.
Trad. Sérgio Molina • Carambaia • 160 pp • R$ 89,90

Lançado em 1948, o romance de estreia do escritor argentino foi muito mal recebido em seu país (Victoria Ocampo se recusou a publicá-lo), mas logo conquistou a admiração dos europeus: Albert Camus recomendou que a Gallimard o traduzisse e publicasse na França. Bastante elogiado por Thomas Mann, Graham Greene e José Saramago, ele tem uma trama existencialista: um artista se sente preso em um túnel que o isola das demais pessoas. 

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O vermelho vaidoso. Alejandra González.
Ils. Daniel Kondo • WMF Martins Fontes  • 56 pp  • R$ 69,90

Primeiro livro da uruguaia Alejandra González, com ilustrações do premiado artista plásrtico brasileiro Daniel Kondo, a obra foi reconhecida como um dos melhores títulos publicados no mundo na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Além de ser uma ótima introdução à teoria da percepção das cores, discute ainda a arrogância, a competitividade, a amizade e a cooperação. As ilustrações são uma homenagem a dois artistas importantes do século 20, Tarsila do Amaral e Joaquín Torres-García.

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Vapt-vupt
+ novidades quentinhas

Cultura fora da lei: representações de resistência. bell hooks.
Trad. Sandra Silva • Elefante • 420 pp • R$ 73

Ensaios sobre filmes, rappers, quadros e livros feministas que costumam ser vistos como disruptivos, mas que, nas entrelinhas, reforçam o racismo, o sexismo e os privilégios de classe.

Como cozinhar um lobo. M.F.K. Fisher.
Trad. Pedro Maia Soares • Companhia de Mesa • 256 pp • R$ 74,90

Publicado em 1942, durante os tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial, o livro mostra como fazer boas refeições em situações de escassez.

​​Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Lima Barreto.
Via Leitura/Edipro • 96 pp • R$ 33,90 

Escrito em 1906 e publicado em 1919, o romance mostra o impacto das transformações do Rio de Janeiro na vida de um velho servidor público.

D. Amélia: a história não contada. Cláudia Thomé Witte.
Leya • 604 pp • R$ 95

Biografia de dona Amélia de Leuchtenberg, a segunda imperatriz brasileira, que voltou à Europa acompanhando dom Pedro em 1831, e sua luta para recuperar o trono português.  

O mundo é de todo mundo. Tati Bernardi.
Ils. Talita Hoffmann • Companhia das Letrinhas • 32 pp • R$ 54,90

No seu primeiro livro infantil, a cronista paulistana se inspira em sua filha para contar a história de Margarida, uma menina prestes a perceber que o mundo não é só dela.

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Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.