Listão da Semana,

A história do índice, um estudo sobre habitações populares em SP e mais 8 lançamentos

Dennis Duncan narra a história do índice, ferramenta de organização de leituras utilizada em Alexandria desde o século 3 a. C.; e José Henrique Bortoluci compila um estudo sobre as habitações populares nas periferias paulistanas

01fev2024 - 16h26 | Edição

Nesta semana chega às livrarias uma história do índice, essa ferramenta que organiza nossas leituras impressas e virtuais, além de um amplo estudo sobre a produção de habitações populares na periferia de São Paulo. 

A semana traz ainda um romance histórico de José Eduardo Agualusa sobre a célebre rainha Ginga, um romance de Francisco Umbral sobre a trajetória de um jornalista que tenta ascender socialmente após a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola e biografias do pianista Nelson Freire e do papa Júlio 2º.

Viva o livro brasileiro!

Índice, uma história do: uma aventura livresca, dos manuscritos medievais à era digital. Dennis Duncan.
Trad. Flávia Costa Neves Machado • Fósforo • 336 pp • R$ 99,90

Professor na University College London narra a história do índice, essa ferramenta que se transformou na tecnologia-chave que embasa todas as nossas leituras on-line. Ele surgiu provavelmente na Biblioteca de Alexandria, no século 3 a.C., para permitir a organização de autores, livros e conteúdos, mas só começou a adquirir sua forma atual nos monastérios europeus do século 13, para que os religiosos encontrassem rapidamente as passagens da Bíblia que precisavam ser citadas nos seus sermões. Apesar de muitas vezes relegado às páginas finais das obras impressas, o índice foi objeto de narrativas de Platão, Virginia Woolf, Italo Calvino e Vladimir Nabokov.

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Arquiteturas políticas: projeto, trabalho e habitação popular em São Paulo. José Henrique Bortoluci. 
Alameda • 338 pp • R$ 94

Tese defendida em 2015 por José Henrique Bortoluci, sociólogo e autor de O que é meu, na Universidade de Michigan, o livro examina a produção de habitações populares em São Paulo ao longo da segunda metade do século 20. Para atender à vertiginosa expansão de habitações precárias nas regiões periféricas, os arquitetos progressistas formularam dois programas de moradias de baixa renda: um centrado na busca pela racionalização e industrialização da construção civil, focado em reduzir o déficit habitacional, e outro centrado na participação dos futuros moradores nas práticas de projeto e construção de casas. Cada um desses programas dependia de certas “imagens do povo” que o arquiteto ajudaria a construir por meio de seu trabalho.

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Nelson Freire: o segredo do piano. Olivier Bellamy.
Trad. Julia da Rosa Simões • DBA • 232 pp • R$ 74,90

Autor de uma biografia da pianista argentina Martha Argerich, grande amiga de Freire, o escritor francês reconstitui a vida do grande músico brasileiro, que morreu em 2021, dois anos após uma severa fratura no braço direito que acabou de afastá-lo das apresentações. Freire aprendeu a tocar aos três anos de idade, e aos cinco fez seu primeiro recital. Muito retraído e avesso aos holofotes, seu talento demorou um pouco para ser reconhecido. Depois, tocou como solista junto às principais orquestras do mundo.

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A rainha Ginga. José Eduardo Agualusa.
Tusquets • 208 pp • R$ 59,90

Romance histórico sobre Ana de Sousa, a Ginga, ou N’Zinga M’Bandi (1583-1663), a extraordinária rainha dos reinos africanos de Dongo e Matamba, situados na atual Angola, que por quatro décadas liderou a resistência contra os invasores portugueses, destacando-se tanto por suas estratégias militares como por suas habilidades diplomáticas. Agualusa já tinha tratado dessa  personalidade em outros três romances: Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes (1997), O ano em que Zumbi tomou o rio (2002) e O vendedor de passados (2004). No Brasil, a rainha Ginga já foi tema de inúmeros desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro: Unidos de Padre Miguel (1977), Unidos de Vila Santa Tereza (1985), Unidos de Bangu (1991), Unidos do Uraiti (2009), Império da Tijuca (2010), Acadêmicos do Dendê (2015), Império da Uva (2019) e Acadêmicos do Engenho da Rainha (2019).

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O papa terrível: a história de Júlio 2º. Alejandro Jodorowsky.
Ils. Theo • Trad. Eduardo Nasi • Conrad • 232 pp • R$ 139

Conta a história de Giuliano Della Rovere, que sucedeu Alexandre Borgia no papado e destacou-se como comandante militar (conquistou a Romagna) e sobretudo como protetor das artes: confiou a decoração da Capela Sistina a Michelangelo, iniciou a reconstrução da Basílica de São Pedro com Bramante e contratou Rafael para decorar seus apartamentos e pintar seu (notável) retrato. Esses gastos o levaram a dilapidar o patrimônio da Santa Sé, forçando-o a aumentar a venda de indulgências — o que mais tarde motivou a reação de Lutero. Também nunca rejeitou os prazeres mundanos, deixando numerosos filhos. No imaginário popular, tornou-se uma figura bastante conhecida depois que um filme sobre a vida de Michelangelo (Agonia e êxtase, de 1965) o retratou com traços muito simpáticos.

Leia também: A representação do primeiro livro da Bíblia desenhada pelo mestre Michelangelo não é mais do que a visão eurocêntrica da terra e dos céus que exclui todo o resto

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Madri 1940: memórias de um jovem fascista. Francisco Umbral.
Trad. Sérgio Molina. Posf. Bénédicte de Buron-Brun • Carambaia • 248 pp • R$ 109,90

Romance protagonizado por um jovem fascista, mulherengo e pedófilo, ambientado no período que se seguiu ao término da Guerra Civil Espanhola. O narrador é um tremendo canalha, amoral e ganancioso, que tenta ascender socialmente depois da chegada de Franco ao poder, embora despreze o novo ditador por considerá-lo muito inferior a Hitler e Mussolini. Faz carreira no jornalismo, onde presta serviços como dedo-duro, denunciando os republicanos derrotados no conflito e o seu principal rival literário.

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Vapt-vupt
+ novidades quentinhas

Vida de Henry Brulard. Stendhal.
Trad. Júlio Castañon Guimarães • Autêntica • 432 pp • R$ 79,80

Autobiografia de Stendhal, escrita quando o escritor tinha cerca de cinquenta anos, que emerge aqui como um personagem melancólico, irônico, radical e aristocrático, como alguns de seus heróis.

Crises da república: ensaios. Hannah Arendt.
Trad. Adriana Novaes • Crítica • 192 pp • R$ 72,90

Reúne três ensaios escritos entre 1968 e 1971, época marcada pela Guerra do Vietnã e pela luta por direitos civis nos Estados Unidos, nos quais Arendt discute a relação entre poder e violência, o papel da mentira na esfera política e a desobediência civil.

Que planeta é este?. Eduarda Lima.
Pequena Zahar • 40 pp • R$ 54,90

Neste livro infantil que trata do futuro das cidades, uma família que à noite fica sem luz e sem internet é convidada a olhar para fora das redes sociais e redescobrir os encantos da natureza.

A sociedade perfeita: as origens da desigualdade social no Brasil. João Fragoso.
Contexto • 352 pp • R$ 77

Autor do influente Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro, 1790-1830 (Civilização Brasileira, 1998), o professor titular da UFRJ mostra que a pobreza e a desigualdade social no Brasil se originaram da sobrevivência das relações feudais do mundo ibérico.

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Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa em .