Jornalismo,

“A negligência foi total”

Um dos destaques da programação da Flip neste sábado, a repórter Cristina Serra relata os dramas do desastre ambiental de Mariana

11jul2019 - 16h28

A lama levou tudo: casas, escolas, igrejas; acabou com o rio Doce e com comunidades ribeirinhas; varreu árvores e destruiu carreiras; pôs fim a dezenove vidas e a muitos planos. Tragédia em Mariana (Record), primeiro livro da jornalista Cristina Serra, que tem mais de trinta anos de jornalismo, entrelaça todas essas perdas com uma investigação minuciosa sobre a responsabilização e a origem do desastre.

Dois meses depois de publicado, em novembro de 2018, o livro ganhou ainda mais importância quando a barragem de Brumadinho também se rompeu, matando pelo menos 246 pessoas. Trata-se agora de uma referência histórica que denuncia a negligência de autoridades e empresas, os perigos das barragens e o pouco caso com as vidas ao redor das mineradoras.

Nascida no Amazonas e dedicada, agora, ao jornalismo ambiental, Cristina divide uma mesa na Flip com o jornalista David Wallace-Wells, mediada pela também jornalista Julia Duailibi. Nesta entrevista, ela fala sobre os bastidores da cobertura, a decisão de fazer da reportagem um livro e a incansável investigação que leva às responsabilizações. E mostra que, para entender a dor e o sofrimento, é preciso abrir a guarda e escutar profundamente. 

Tragédia em Mariana marca uma mudança em sua trajetória profissional? É o final da carreira mais convencional. Sempre trabalhei na pauleira do jornalismo diário. Nesse ritmo, os assuntos são cobertos de forma mais superficial, sem tempo de aprofundamento. O repórter tem que ser rápido e objetivo, captar o que é essencial, mandar para edição. A matéria foi ao ar, no dia seguinte você já está cobrindo outro assunto. Trabalhei a vida toda, praticamente, com jornalismo político, com a crise do dia. Morei em Brasília por quase vinte anos. Depois, mudei para o Rio de Janeiro, para trabalhar no Fantástico [da TV Globo]. Eu já queria me dedicar ao jornalismo ambiental. Sou da região da Amazônia. Quando aconteceu a tragédia em Mariana, me escalaram para a cobertura. 

Depois de cobrir desastres como o terremoto no Haiti e os deslizamentos de terra no Rio, por que você decidiu fazer um livro-reportagem sobre Mariana? Ninguém vai feliz para a cobertura de um desastre desses porque você sabe que vai se defrontar com coisas terríveis, com a morte, com as perdas, com muita dor, e isso é muito complicado. Por mais experiência que você tenha como repórter, é sempre difícil lidar com situações e com pessoas que estão passando por tamanha tristeza. Mas, ao mesmo tempo, era uma questão ambiental muito séria. Aí, eu falei: se é isso o que eu quero fazer, vou me dedicar realmente a essa cobertura. Então, percebi que aquilo que eu queria investigar e contar não cabia na cobertura televisiva. Só cabe em uma reportagem para um livro. 

Diz-se que o repórter deve manter distância de suas pautas. É possível não se envolver em uma situação como essa? Fui várias vezes, conheci pessoas muito de perto, frequentei suas casas. Houve um envolvimento emocional, sim. Percebi que era importante que essas pessoas tivessem suas histórias contadas. Seu drama me comoveu, elas precisam da memória do que estão passando. Daqui a muitos anos, alguém vai entrar na internet, pesquisar e encontrar a cobertura factual. Mas as histórias das pessoas, de cada família e de suas perdas, das comunidades, isso só um livro pode dar. 

Seu livro também faz uma minuciosa investigação. Como foi possível que essa tragédia acontecesse? Diferentemente do que a empresa tentava passar para a imprensa, que um pequeno tremor de terra que houve no dia do desastre teria sido um gatilho para o colapso da barragem, a investigação mostrava que não. O gatilho não foi o tremor. Porque o tremor foi tão pequeno, tão pequeno que não poderia provocar aquele desastre. Havia outras causas que precisavam ser investigadas. Pensei: é por aí que eu vou. Vou começar as investigações pelo processo de licenciamento. E, de fato, no processo de licenciamento, há uma série de falhas. Não digo que foi a causa do desastre porque o desastre aconteceu por conta de vários fatores, mas a raiz do colapso dessa barragem está no processo de licenciamento, que foi muito mal feito. 

Essa negligência mostra que foi um desastre anunciado? A negligência foi total. Vai do processo de licenciamento, passa pela construção da barragem e chega à maneira como ela foi administrada. Está do começo ao fim dessa história. E continua na maneira como as vítimas estão sendo atendidas. Ou não estão sendo atendidas, melhor dizendo. 

Com a ocorrência em Brumadinho, o livro ganha mais importância? Trata-se agora de um documento histórico que denuncia a vulnerabilidade em torno das barragens e mostra o descaso de autoridades e empresas com a população e o meio ambiente, afinal. Sim, porque tem muitos pontos de contato entre os dois desastres. O processo é o mesmo. O cenário político e institucional é exatamente o mesmo. Por exemplo, o laudo de estabilidade da barragem é um ponto crucial da questão e aconteceu nos dois casos. A barragem de Fundão tinha laudo de estabilidade dizendo que a barragem era estável; a barragem de Brumadinho tinha laudo de estabilidade dizendo que era estável. Nos dois casos, os laudos foram dados quatro meses antes do desastre.

O que explica que a barragem tenha um laudo, seja considerada estável e aconteça o desastre? Como esses laudos são feitos? A empresa mineradora contrata uma empresa de consultoria e diz assim: olha, preciso que você faça meu laudo de estabilidade. O engenheiro vai, supostamente investiga, estuda todos os documentos da barragem, o processo histórico, faz visita de campo, tira fotografia, e dá um laudo. Se não der um laudo favorável, vai ter problema, porque da próxima vez a mineradora não vai contratar aquela empresa. É a fórmula do autolicenciamento. O consultor quer atender a empresa, transfere o dinheiro do contrato, a empresa apresenta o laudo para o órgão fiscalizador e está tudo certo. É um autolicenciamento que está errado, não pode funcionar assim, já se provou que não dá certo. Custou cerca de 270 mortes em Brumadinho e dezenove em Mariana.

Como deveriam ser o licenciamento e a fiscalização de barragens? Qual a solução? Eu não sei. Os legisladores vão ter que chegar a uma fórmula melhor. Ou o órgão público faz isso, o que não o livra de corrupção, ou tem que procurar outro caminho, um órgão técnico, uma universidade de renome, o departamento de engenharia de uma universidade brasileira que tenha engenheiro geotécnico. Tem que ter uma solução. A autofiscalização não tem como dar certo.

O seu livro cobriu vários aspectos como investigação técnica, salvamento, bombeiros, polícia, empresas, meio ambiente, comunidades. O que mais a mobilizou? O mais importante são os seres humanos. E eles têm esse protagonismo. O livro ficou muito rico com essas historias. Ele deu nome, identidade, história, família para essas pessoas. Porque quando acontecem essas catástrofes, são tantos mortos, tantos feridos… Viram uma estatística, e o jornalismo está cheio dessas estatísticas. Eu queria saber quem eram aquelas pessoas que tinham morrido de forma tão trágica, tão absurda.

Em que momento você tomou a decisão de se aprofundar nas histórias das pessoas? Primeiramente, eu as vi pela televisão. Cheguei lá quatro dias depois. Quando você chega e vê, é uma coisa tão absurda, o rastro de destruição que a lama deixa é uma coisa tão descomunal que é difícil traduzir isso em palavras. Você imagina o desespero que as pessoas passaram ali. São mortes tão sem sentido, tão grotescas, que falei: essas pessoas não podem sumir numa estatística. Elas têm que ter suas histórias contadas. Não imaginava que fosse encontrar personagens tão ricos. As pessoas ganharam um peso dentro do livro, e eu acho que faz jus a elas, que é o mais importante. 

Como cobrir direitos humanos e uma tragédia dessas sem se envolver, mantendo distância e o que chamam de "imparcialidade"? Essa conversa de imparcialidade é balela, isso não existe, é impossível. Posso estar exagerando, mas o que eu quero dizer é que numa história como essa não tem como não se envolver, não assumir um lado. O meu lado está muito claro no livro. Isso não me desobriga, como jornalista, a ouvir todos os lados e dar espaço e voz a todos. Eu tentei fazer isso. Se eu não dei mais, é porque tem muita gente importante para essa história que não quis falar. Por exemplo, dos 22 réus, o único que concordou em me dar entrevista foi o engenheiro que me deu o laudo, o Samuel. Aliás, uma entrevista muito corajosa. É um cara muito jovem, que ficou com a vida virada pelo avesso, um terremoto. Ele também foi atingido pela lama da barragem. Concordou em me receber e deu uma entrevista enfrentando todas as perguntas. Em nenhum momento disse que não falaria sobre determinado assunto. Acho que teve uma postura corajosa.

Quem não quis dar entrevista? Por exemplo, procurei todos os dirigentes da Samarco que são réus. Fui na casa de alguns, bati na porta quando a pessoa não respondia por telefone ou por email. Olhei na cara e disse: quero ouvir a sua história, saber o que você tem a dizer. Então, estou tranquila de ter procurado todos, e acho que isso é uma obrigação. Como falei, no jornalismo, não acredito na imparcialidade. Mas acredito que você deve oferecer ao seu público uma pluralidade de versões para que cada um tire suas próprias conclusões. Eu acho que o livro traz isso, meu esforço foi esse. Eu estava com o livro quase pronto para entregar quando a BHP destacou um porta-voz para falar comigo. Foi uma entrevista protocolar, mas importante. Fui até onde eu pude. Quem não falou foi porque não quis falar.

Quem escreveu esse texto

Maria Carolina Trevisan

É jornalista.

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