A Feira do Livro,

Taïa e Lobe discutem identidade, preconceito e heranças coloniais

Expoentes da literatura em língua francesa, escritores dividiram suas experiências como imigrantes e autores LGBTQIA+ n’A Feira do Livro

08jun2023 - 05h55 | Edição #70

Numa mesa literária que combinou mensagens fortes sobre preconceito e herança colonial com bom humor, o marroquino Abdellah Taïa e o camaronês Max Lobe, dois expoentes da literatura em língua francesa, falaram a uma plateia animada nesta quinta-feira, 8, n’A Feira do Livro

Autores de romances com traços biográficos, os dois falaram ao mediador, o jornalista e escritor Diogo Bercito, sobre o que pensam da autoficção, gênero que vem ganhando destaque na literatura. Integrante de uma família com oito irmãos, Taïa disse que, mesmo antes da literatura, tudo o que contava era inspirado na vida. 

“O que eu tinha diante dos meus olhos era tão bonito que queria transformar em literatura. Me tornei um escritor autobiográfico com minha mãe e minhas irmãs. Não me interessa essa autoficção que só fala de si”, disse ele. Já Lobe declarou estar “se lixando” para o gênero: “O que vivi não é importante. O que nós vivemos é importante, esse denominador comum. Muito além das fronteiras, das origens, da cor da pele.”

Os dois também comentaram se o fato de se identificarem como autores LGBTQIA+ — e de serem questionados sempre sobre sexualidade — incomoda. “Não me incomoda nem um pouco, nasci na própria indecência. Participei da feitiçaria das mulheres marroquinas. Quando cheguei a Paris apliquei o que aprendi no Marrocos — e isso passa muito pelo sexo”, brincou Taïa, que em 2006 se tornou o primeiro escritor de origem árabe a falar publicamente sobre a homossexualidade.

Lobe, que se identifica como queer, questionou o fato de muitas vezes se associar a sexualidade de alguém necessariamente a sexo, em vez de enxergar suas singularidades.

Língua colonial

Autor de romances premiados como Um país para morrer e Aquele que é digno de ser amado, ambos publicados no Brasil pela Nós, Taïa falou ainda da sua relação com a língua francesa. O autor relembrou novamente sua ligação com as irmãs e contou que a família promovia verdadeiras “sessões de destruição” dos intelectuais marroquinos que apareciam na televisão imitando parisienses ao falar em francês.

“Infelizmente para eles, não tínhamos medo desse modo de eles utilizarem a língua da colonização”, disse o autor, que procurou se apropriar e alargar o francês para se expressar. “A língua francesa era uma continuidade do colonialismo na sua mais própria expressão.”

Lobe, que cresceu nos anos 90 em Camarões, disse ter sido advertido de que não deveria falar nenhuma das línguas locais, tidas como “selvagens”. O escritor, que no seu romance A trindade bantu (Âyiné) utiliza expressões e provérbios de origem africana, afirmou ter uma relação “de amor e ódio” com o francês e deu um exemplo de como a língua influenciou sua literatura.

“Num livro que escrevi sobre a colonização em Camarões, chamado Confidências, me foi dito que não poderia usar a palavra negro, que é pejorativa em francês”, contou. “É uma coisa doentia: os descendentes do opressor dizem a mim, descendente do oprimido, qual linguagem tenho que usar para descrever o que aconteceu.”

Os dois falaram ainda sobre a recepção de suas respectivas obras na França. Lobe contou sobre o projeto de intercâmbio que mantém na Suíça entre estudantes suíços e camaroneses. “Faz séculos que os franceses estão no continente africano e não aprenderam nossas línguas. E nós aprendemos a língua deles”, comentou.

Taïa relatou ter esperado oito anos para ser publicado por uma grande editora francesa. “Vi outros passarem na minha frente. Era preciso escrever de um certo modo para ser publicado”, disse. “Foi preciso fazer muita dança do ventre. Eu ainda era sexy, jovem, bonitinho, mas era sozinho contra a França. Precisei usar as armas que tinha”, ironizou, arrancando risadas da plateia.

Depois da mesa, os dois escritores atenderam uma fila de leitores e autografaram seus romances na tenda da livraria Dois Pontos. Lobe também participou ainda de um encontro com os leitores na tenda da livraria Megafauna. Taïa, que está no Brasil pela terceira vez, deve percorrer outras cidades para lançar Viver à sua luz, pela Nós.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.