Literatura,

Um país para viver

O escritor e cineasta marroquino Abdellah Taïa diz que o Brasil lhe mostrou o início de uma segunda vida

01jun2023 | Edição #71

Desde que esteve no Brasil pela primeira vez, em 2018, para lançar o romance Aquele que é digno de ser amado (Nós), o escritor e cineasta marroquino Abdellah Taïa diz ter ficado fascinado com o país. “Há vestígios de mim, antes de mim, neste país. Eu os reconheço, esses rastros, nas ruas brasileiras, nos corpos, na maneira como as pessoas falam, como comem. Na doçura e na violência do Brasil”, afirma.

A complexa realidade brasileira não é algo que intimide Taïa. Nascido em Rabat, capital do Marrocos, em 1973, ele é o oitavo de nove filhos de uma família pobre. Desde 1998, vive como imigrante, primeiro na Suíça, onde começou os estudos de literatura francesa, depois em Paris, onde vive há mais de duas décadas.

Em 2006, tornou-se o primeiro escritor árabe a revelar publicamente a homossexualidade. “Homosexuel, envers et contre tous” (“Homossexual, contra tudo e contra todos”), dizia a manchete em francês da revista marroquina TelQuel. Procurado por jornais de língua árabe, falou não só da orientação sexual como dos abusos que sofreu no país natal, onde a homossexualidade é ilegal.

Parte dessa história pode ser vista em Salvation Army, longa adaptado de seu romance homônimo. Lançado em 2014, o filme mostra as experiências de um jovem Abdellah no país natal e na Suíça, a dificuldade em lidar com a sexualidade e a relação problemática com o irmão mais velho, adorado pela mãe.

Mas não espere do escritor a postura de “mais um árabe a ser libertado”, como os ocidentais costumam julgar. Nos seus livros, como Um país para morrer (Nós, 2019), em que o encontro dos personagens com sociedades estrangeiras é sempre pautado por relações de poder, prefere mostrar os mecanismos dessa continuidade colonial. “Mostrá-los e destruí-los”, diz, sobre o papel de um escritor árabe, gay e muçulmano.

Antes de voltar ao Brasil pela terceira vez para participar d’A Feira do Livro, Abdellah Taïa conversou com a Quatro Cinco Um sobre literatura, sexualidade e identidade e contou que gostaria de viver e escrever sobre o país.

Você foi o primeiro escritor árabe a se assumir homossexual publicamente, em 2006. O que essa saída pública do armário trouxe de libertação e de perseguição?
Nunca pensei que teria forças para declarar publicamente ao mundo que sou gay. Como muitas pessoas lgbtqiap+ ao redor do mundo, eu estava com medo. O perigo está sempre presente, mesmo do lado dos mais próximos. Eles podem se voltar contra nós e participar de nosso linchamento público, nos condenando à solidão, à infelicidade e à morte. Desde muito jovem, minha estratégia tem sido ser mais inteligente: não dar aos outros a chance de me matar, evitar perigos, evitar insultá-los, escapar deles de novo e de novo. Minha mãe dizia que este mundo tão cruel não merece saber nossa verdade, nossos segredos, nossa real face. Ela estava certa: foi assim que conseguiu salvar sua pele. Estou apenas seguindo suas estratégias. Mas não quando se trata de literatura. Para escrever, é preciso enfrentar o mundo, o poder, a família, os amigos. E a história.

Devemos ousar deixar para trás o medo e revelar os mecanismos políticos que nos dominam, que dominam nossa pele, nossos problemas, nossos conflitos. Acima de tudo: dar espaço literário à voz que não ouvimos, às vozes, secretas e reais, que carregamos conosco há tempo demais. Você tem que encontrar coragem em algum lugar e criar essa literatura real. E é em nome dessa verdade que pude contar (tremendo) ao mundo a minha homossexualidade. Foi um momento de perigo. Mas me permitiu aprofundar ainda mais a minha visão de mundo e saber o que escrever e o que não escrever. Minha saída do armário em 2006 me permitiu não ter mais medo.

Seu filme Salvation Army tem fortes traços autobiográficos, a começar pelo protagonista, Abdellah, que deixa o Marrocos para viver sua sexualidade e perseguir o sonho de ser escritor e cineasta. Você planeja escrever mais relatos assim?
Venho de uma família pobre e numerosa. Nós éramos nove filhos. Com meus pais éramos onze. Onze pessoas lutando para sobreviver em uma pequena casa de três cômodos, que era como um verdadeiro teatro da vida. Vivíamos como em um filme egípcio muito melodramático e tagarela. Onze pessoas que convivem, conversam, discutem, sonham, que são atravessadas por desejos, que preparam o futuro.

Quando pequeno, sempre fui fascinado por minhas seis irmãs. Era como um espectador privilegiado. Tive acesso a segredos e estratégias. Fui testemunha de seus infortúnios e de suas danças. Eu era quem as encorajava ainda mais a transgredir, a roubar, a fazer sexo, a ir até o fim da aventura da vida. Ser gay (além de pouco tolerado, alguém que não importa) me colocou nesse lugar frágil e político: elas não tinham medo de mim, minha presença lhes dava força, audácia. Para sair para ver os meninos, minhas irmãs me levavam com elas.Diziam aos pais: “Abdellah vai para nos proteger”. Eu não as protegi de forma alguma. Pelo contrário, eu as empurrei para fazer “coisas ruins”.

Sempre escrevo a partir da realidade. E no meio dessa escrita, nunca esqueço de colocar a homossexualidade

Venho de um mundo onde havia muita história, muitos dramas, tragédias. Tudo ainda está em mim. Eu só tenho que me servir. Minha escrita vem da vida. Da família que é tudo menos respeitável. Da sociedade que é tudo menos justa. Eu sempre escrevo a partir da realidade. E no meio dessa escrita, nunca esqueço de colocar a homossexualidade. Não falo apenas sobre mim em meus livros. Não quero ficar sozinho. Preciso da loucura maravilhosa de minhas irmãs, dos gritos sublimes de minha mãe, do silêncio incrível de meu pai. Este primeiro mundo foi muitas vezes cruel comigo, mas sei que devo a ele minha inspiração e principalmente as técnicas de minha escrita. As vozes. As vozes. Ainda e sempre.

Em Aquele que é digo de ser amado, Ahmed ganha liberdade para expressar sua sexualidade, mas sente perder sua raiz e identidade marroquinas. Você vive na França desde 1999, onde se tornou escritor. Em que medida essa mudança o afetou?
As histórias dos meus livros acontecem tanto no Marrocos quanto na França. Estou dividido agora entre as realidades desses dois mundos. Tive tantas experiências no primeiro país quanto no segundo. E posso dizer que a emancipação é uma coisa complicada tanto no Marrocos como na França. Sempre existe alguém que se permite dizer que é quem personifica a liberdade e não você. Sempre tem alguém querendo te trazer de volta ao caminho certo de Deus.

Ser livre é uma luta sem fim. Imigrar para Paris não lhe dá automaticamente o status de livre. Pelo contrário: você rapidamente percebe que os ocidentais o julgam, ignoram tudo sobre você e ao mesmo tempo se permitem declarar sem pudor sua superioridade. Você é apenas um árabe para ser libertado. Você é apenas um muçulmano a ser revelado. Você é apenas um africano para ser civilizado. Infelizmente, a colonização ocidental (francesa em particular) ainda está em andamento. E o papel de um escritor como eu — marroquino, árabe, gay, muçulmano, imigrante em Paris — é mostrar os mecanismos dessa continuidade colonial. Mostrá-los e destruí-los. Meus livros estão cada vez mais nessa batalha tão necessária.

Esse tema do colonialismo e de uma ilusão de emancipação também aparecem bastante em suas histórias. Você já disse que escreve em francês como uma “vingança pós-colonial”. Como a escrita ajudou a elaborar essas questões?
Venho de um mundo que fala a língua árabe. Eu sou árabe, para sempre. O francês é apenas uma língua que uso para dizer e escrever o primeiro mundo, sua imaginação e dinâmica. Minha família era muito pobre, mas o que aconteceu entre nós foi rico, muito rico. Essa família, ignorada e desprezada, merece entrar na literatura. Tornar-se livros.

O Brasil me fascina por sua realidade muito complexa, por sua poesia que não para de se reinventar

A língua francesa é usada no Marrocos pelas elites, a burguesia marroquina. O francês permite que eles mostrem até que ponto eles não são como nós, os pobres, e o quanto eles são sofisticados. O francês é usado no Marrocos para destruir um pouco mais os pobres a cada dia. Para fugir dessa condenação social, decidi quando adolescente que ia pegar essa língua, dominá-la, usá-la como um meio, não como um fim. Pegar essa linguagem colonial e impor sobre ela nossa história, nossos pontos de vista, nossa respiração, nossa sexualidade e nossos gritos. Sim, com certeza isso é vingança pós-colonial.

Você esteve no Brasil em 2018 e 2019 e até descobriu o sambista Agepê pesquisando sobre música. Que outros autores brasileiros, na música ou literatura, conheceu desde então?
Meu coração já estava no Brasil. Foi o que percebi durante a minha primeira visita, em 2018. Há vestígios de mim, antes de mim, neste país. Eu os reconheço, esses rastros, nas ruas brasileiras, nos corpos, na maneira como as pessoas falam, como comem. Na doçura e na violência do Brasil. Para mim, essa primeira visita ao Brasil foi uma reviravolta total: sim, eu existo em outro lugar. Sim, podemos existir além das fronteiras do nosso primeiro mundo. O Brasil me fascina desde então, por sua realidade muito complexa, por sua poesia que não para de se reinventar e por algo secreto que muda a cada dia.

Eu gostaria de um dia morar no Brasil. Gostaria especialmente de um dia escrever sobre o Brasil. Acredito que o país me mostrou o início da minha segunda vida. Desde 2018 convivo todos os dias com autores brasileiros, com o cinema e com cantores. Eu adoro Marisa Monte e Ana Carolina. Sou eternamente grato à minha editora Simone Paulino, da editora Nós, por traduzir meus livros para o Brasil e me permitir conhecer esse país incrivelmente animado e seu povo inspirador.

O que espera dessa vinda ao país para participar d’A Feira do Livro? 
Continuar minha história de amor com o Brasil. Fortalecê-la. Sublimá-la.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #71 em julho de 2023.