Stênio Gardel: ‘Ver os leitores acessando o que está para além das palavras é muito bonito’

A Feira do Livro, Literatura brasileira,

Stênio Gardel: ‘Ver os leitores acessando o que está para além das palavras é muito bonito’

Escritor vencedor do National Book Award fala das inspirações do seu romance A palavra que resta e os muitos significados da literatura

30jun2024 - 13h47 • 10jul2024 - 13h25
Fotografias de Filipe Redondo.

Numa conversa sobre o ato de escrever, inspirações e os muitos significados da literatura, Stênio Gardel encerrou o primeiro dia d’A Feira do Livro no Palco Praça para uma plateia lotada. O escritor cearense conversou com o editor Schneider Carpeggiani na mesa “A palavra que resta”, título do seu romance de estreia, publicado em 2021 pela Companhia das Letras. No ano passado, ele e sua tradutora Bruna Dantas Lobato se tornaram os primeiros brasileiros a ganhar o National Book Award, principal prêmio do mercado editorial norte-americano, na categoria obra traduzida. 

Gardel falou sobre a trajetória percorrida pelo romance até aqui e contou como vem encontrando significados inesperados da história no encontro com os leitores. “A relação dos leitores com os personagens, ver, sentir e ouvir como eles acessam o que está para além das palavras é muito bonito”, disse.

A palavra que resta narra a história de Raimundo, homem analfabeto que aprende a ler motivado por uma carta de amor de outro homem por quem se apaixonou. Gardel, que é funcionário público do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará, contou como a experiência de lidar com muitas pessoas que não sabem ler o inspirou a escrever o romance.

O editor Schneider Carpeggiani e Stênio Gardel no Palco Praça

“Essas pessoas me marcaram ao ponto de tentar imaginar como seria a vida delas sem conhecer a língua escrita”, disse. “O primeiro capítulo começa com Raimundo escrevendo o nome pela primeira vez. Me deparei com um livro didático de um curso de EJA (Educação de Jovens e Adultos) em que essa era a primeira lição. O adulto vai primeiro para o nome, para aquilo que traz a identidade. A partir dali, a história do Raimundo foi sendo construída.”

Lançado durante a pandemia, o romance encontrou milhares de leitores por meio dos clubes de leitura. O autor contou ter ouvido relatos de pessoas que sentiram ter uma relação íntima com os personagens. “Falam que é como se o Raimundo estivesse conversando com elas, graças à oralidade que está no livro”, disse Gardel.

Oficina literária

A história de Raimundo começou a ser escrita durante uma oficina literária com a escritora Socorro Acioli em Fortaleza. Gardel contou como a autora, de quem se tornou amigo, foi importante para que ele levasse a cabo a escrita do primeiro romance e se reconhecesse como escritor.

“Com a primeira versão do livro escrita e o retorno da Socorro, eu iniciei esse processo de me enxergar como autor”, disse. “Para mim, ser escritor é uma forma de conversar com as pessoas sobre assuntos que são importantes para mim e para elas de uma maneira especial, que é o texto literário.”

Stênio Gardel n’A Feira do Livro

A maior parte do romance foi escrita durante férias do TRE. O autor contou como a participação na oficina literária, com a leitura de outros colegas e, mais tarde, o processo de edição, foram importantes para a finalização. Gardel disse ainda ter escrito muitas versões do final da história, o que provocou a curiosidade do mediador e da plateia sobre os possíveis desfechos.

“Sem dar spoiler, mas num desses outros finais ela existe?”, questionou Carpeggiani, provocando risos em quem leu o livro e entendeu a pergunta e no autor, que confirmou a suspeita. Gardel, que disse não ter relido o romance por temer querer reescrever alguma passagem, também brincou sobre a reação dos leitores ao final da história. “Algumas pessoas adoram, algumas aceitam e outras detestam e me mandam mensagens fortes pela internet.”

Bento vento tempo

Este ano, Stênio Gardel lançou seu segundo livro, o infantojuvenil Bento vento tempo (Companhia das Letras), em coautoria com o ilustrador Nelson Cruz. Escrito em forma de cordel, conta a saga de um neto para fazer o avô recuperar memórias perdidas pelo Alzheimer, condição que o avô do autor também viveu. 

O esboço do segundo livro, contou, também surgiu durante um curso de especialização em escrita criativa ministrado por Socorro Acioli, numa disciplina sobre história infantojuvenil. “Passei por situações devastadoras, de ver meu avô não lembrar meu nome, o da minha mãe, e veio aí a ideia desse neto de fazer o avô lembrar o nome dele”, contou. “Mais do que A palavra que resta, [o novo livro] é uma mistura de memória e invenção, tudo que está aí é muito verdadeiro.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.